{"id":8371,"date":"2025-03-31T08:09:42","date_gmt":"2025-03-31T08:09:42","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8371"},"modified":"2025-03-31T08:09:42","modified_gmt":"2025-03-31T08:09:42","slug":"a-negacao-do-trabalho-e-do-proletariado-as-raizes-do-elitismo-em-hannah-arendt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/03\/31\/a-negacao-do-trabalho-e-do-proletariado-as-raizes-do-elitismo-em-hannah-arendt\/","title":{"rendered":"A nega\u00e7\u00e3o do trabalho e do proletariado: as ra\u00edzes do elitismo em Hannah Arendt"},"content":{"rendered":"\n<p>A import\u00e2ncia do pensamento de Hannah Arendt para as elabora\u00e7\u00f5es sobre espa\u00e7o p\u00fablico e democracia tem sido destacada a partir de sua conhecida cr\u00edtica ao totalitarismo. A obra de Arendt influencia a esquerda brasileira desde os anos 90 nas formula\u00e7\u00f5es sobre cidadania, Estado e democracia. De seus trabalhos, distintos pensadores extraem e sa\u00fadam o&nbsp;<em>privil\u00e9gio ao pol\u00edtico<\/em>, colocado em uma esfera acima e isolada da esfera do trabalho e da sociedade. Autores de origens diversas como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, ou ainda J\u00fcrgen Habermas; no Brasil os que defendem a cidadania como alternativa, como Vera Telles, entre outros, inspiram-se na vis\u00e3o de Arendt. Em geral, ainda que de distintos \u00e2ngulos, enfatizam sua contribui\u00e7\u00e3o como uma redescoberta da liberdade e da democracia pluralista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, uma pesquisa mais profunda e cr\u00edtica demonstra o sentido elitista de seu arcabou\u00e7o te\u00f3rico. Um vi\u00e9s aristocr\u00e1tico, cuja base est\u00e1 em sua nega\u00e7\u00e3o do papel do trabalho, condiciona o pensamento da autora. Aqui discutiremos a partir do livro&nbsp;<em>A Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/em>, que ela considerava ser seu texto filos\u00f3fico mais desenvolvido. Nele, a autora inquieta-se com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade moderna em&nbsp;<em>sociedade oper\u00e1ria<\/em>&nbsp;e sonha com uma sociedade que possa ser verdadeiramente<em>&nbsp;humana<\/em>, uma vez que privilegie a a\u00e7\u00e3o e o discurso, que consigam se elevar acima do homem comum para realizar a atividade humana mais nobre, a<em>&nbsp;pol\u00edtica (a\u00e7\u00e3o)<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">\u00ab<em>Mas isto \u00e9 assim apenas na apar\u00eancia.&nbsp; A era moderna trouxe consigo a glorifica\u00e7\u00e3o&nbsp;te\u00f3rica do trabalho e resultou na transforma\u00e7\u00e3o efetiva da sociedade em uma&nbsp;sociedade oper\u00e1ria. Assim, a realiza\u00e7\u00e3o do desejo, como sucede nos contos de fadas, chegou num instante em que s\u00f3 pode ser contraproducente. A sociedade que est\u00e1 para ser libertada dos grilh\u00f5es do trabalho \u00e9 uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que j\u00e1 n\u00e3o conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benef\u00edcio das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro dessa sociedade, que \u00e9 igualit\u00e1ria porque \u00e9 pr\u00f3prio do trabalho nivelar os homens,&nbsp;<strong>j\u00e1 n\u00e3o existem classes nem uma aristocracia de natureza pol\u00edtica ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restaura\u00e7\u00e3o das outras capacidades do homem. At\u00e9 mesmo presidentes, reis e primeiros-ministros concebem seus cargos como tarefas necess\u00e1rias \u00e0 vida da sociedade<\/strong>.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, pp. 12-13, grifos nossos)<\/p>\n\n\n\n<p>Esta cita\u00e7\u00e3o serve para avan\u00e7ar uma quest\u00e3o sobre a natureza da filosofia pol\u00edtica de Arendt: sua vis\u00e3o do trabalho sustenta uma concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica excludente. Para ela o&nbsp;<em>labor<\/em> equaliza e rebaixa a atividade humana, o que d\u00e1 o embasamento te\u00f3rico para uma posi\u00e7\u00e3o que despreza a participa\u00e7\u00e3o social e coletiva, t\u00edpica do movimento dos trabalhadores.&nbsp; Sua defesa da pol\u00edtica \u00e9 desde um ponto de vista individualista, que, portanto, recusa uma vis\u00e3o realmente emancipadora da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A concep\u00e7\u00e3o negativa de Arendt sobre o trabalho e o labor<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Arendt trabalha com 3 categorias da atividade humana,&nbsp;<em>labor<\/em>,&nbsp;<em>trabalho<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>a\u00e7\u00e3o<\/em>. Ao optar por essa classifica\u00e7\u00e3o tr\u00edplice da atividade humana, Arendt elaborou uma distin\u00e7\u00e3o entre duas atividades normalmente abrangidas pela denomina\u00e7\u00e3o trabalho: 1) a atividade que corresponde ao processo biol\u00f3gico do corpo humano, cujo crescimento e eventual decl\u00ednio tem a ver com as necessidades vitais imediatas do homem (o que ela chama de&nbsp;<em>labor<\/em>). Esta interfere apenas sobre&nbsp;<em>a vida<\/em>&nbsp;do homem, sua sobreviv\u00eancia; 2) o&nbsp;<em>trabalho<\/em>, que corresponderia ao artificialismo da exist\u00eancia humana, ou seja, aquela atividade realizada com alguma finalidade\/inten\u00e7\u00e3o por parte do homem e que produz um mundo artificial de coisas, que tende a transcender \u00e0 sua pr\u00f3pria e a todas a(s) vida(s) individual(is). Esta interfere sobre&nbsp;<em>o<\/em>&nbsp;<em>mundo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a terceira atividade humana, a&nbsp;<em>a\u00e7\u00e3o,&nbsp;<\/em>seria a \u00fanica atividade que se exerce&nbsp;<em>entre os homens<\/em>, sem a media\u00e7\u00e3o da coisa ou da mat\u00e9ria. Corresponderia \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da pluralidade humana, j\u00e1 que os seres humanos seriam&nbsp;<em>iguais<\/em>&nbsp;como tal, mas&nbsp;<em>plurais<\/em>, pois nenhum ser humano \u00e9 id\u00eantico ao outro. Esta pluralidade seria ent\u00e3o especificamente a condi\u00e7\u00e3o de toda vida pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, a \u00fanica atividade verdadeiramente humana \u00e9 a&nbsp;<em>pol\u00edtica<\/em>, enquanto&nbsp;<em>labor<\/em>&nbsp;e<em>trabalho<\/em>&nbsp;seriam atividades pr\u00e9-humanas. Arendt distingue a pol\u00edtica, agregando que s\u00f3 se poderia realizar no <em>espa\u00e7o p\u00fablico<\/em>. <sup data-fn=\"e32198db-c054-48ed-8801-e5f2fe81cb46\" class=\"fn\"><a id=\"e32198db-c054-48ed-8801-e5f2fe81cb46-link\" href=\"\/#e32198db-c054-48ed-8801-e5f2fe81cb46\">1<\/a><\/sup> Tudo o que os homens teriam em comum com outras formas de vida animal seria procurar vencer suas necessidades b\u00e1sicas. O que eles teriam de&nbsp;<em>espec\u00edfico<\/em>&nbsp;seria justamente a procura de uma atividade superior, a pol\u00edtica. <sup data-fn=\"6f4d4a7c-8de8-4670-8268-e29080e97e3c\" class=\"fn\"><a id=\"6f4d4a7c-8de8-4670-8268-e29080e97e3c-link\" href=\"\/#6f4d4a7c-8de8-4670-8268-e29080e97e3c\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">O Labor, atividade biol\u00f3gica<\/h6>\n\n\n\n<p>A partir dessa divis\u00e3o arbitr\u00e1ria, Arendt caracteriza o oper\u00e1rio (o&nbsp;<em>laborer<\/em>) como&nbsp;<em>animal laborans<\/em>. Com essa denomina\u00e7\u00e3o quis marcar o aspecto \u2018biol\u00f3gico\u2019 que a atividade <em>laborativa&nbsp;<\/em>adquiriu na sociedade capitalista. Partiu de um fato correto, o car\u00e1ter repetitivo, alienado, da produ\u00e7\u00e3o e do papel do oper\u00e1rio na f\u00e1brica. Mas ao fazer este recorte, ela atribui \u00e0 natureza do trabalho do oper\u00e1rio em si (para ela o&nbsp;<em>labor<\/em>), aquilo que \u00e9 fruto da situa\u00e7\u00e3o imposta pelo capital a partir da divis\u00e3o do trabalho e da introdu\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina. Chama a aten\u00e7\u00e3o que, apesar de dialogar em boa parte do livro com obras de Marx, n\u00e3o tenha levado em conta o texto&nbsp;<em>O Trabalho Alienado <\/em>(ou&nbsp;<em>O<\/em>&nbsp;<em>Trabalho<\/em>&nbsp;<em>Estranhado<\/em>). <sup data-fn=\"c617f9d0-ac4b-44bf-904b-51b3486639eb\" class=\"fn\"><a id=\"c617f9d0-ac4b-44bf-904b-51b3486639eb-link\" href=\"\/#c617f9d0-ac4b-44bf-904b-51b3486639eb\">3<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto, Marx desenvolve a forma como se d\u00e1 a&nbsp;<em>aliena\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;do trabalhador, como ele se <em>nega<\/em>&nbsp;em seu trabalho, n\u00e3o se sente bem, mas sim infeliz nele. Marx indica nada menos que 4 caracter\u00edsticas que fazem o trabalho na sociedade capitalista n\u00e3o passar de uma <em>apar\u00eancia<\/em>&nbsp;de atividade, de um trabalho&nbsp;<em>estranhado<\/em>: Primeiro, que ele \u00e9 exterior ao trabalhador, j\u00e1 que \u00e9 imposto a ele, \u00e9 compuls\u00f3rio. Segundo, que o fruto de seu trabalho n\u00e3o lhe pertence, nem o pr\u00f3prio trabalho em si. O trabalho significa a&nbsp;<em>perda de si<\/em>&nbsp;mesmo para o trabalhador. Terceiro, a aliena\u00e7\u00e3o faz o trabalho (que \u00e9 sua atividade&nbsp;<em>vital<\/em>,&nbsp;<em>humana<\/em>) aparecer ao homem como simples&nbsp;<em>meio<\/em>&nbsp;para sua exist\u00eancia. Quarto, tira do homem a caracter\u00edstica mais importante como&nbsp;<em>ser gen\u00e9rico<\/em>, a de poder trabalhar o conjunto da natureza e n\u00e3o s\u00f3 para as necessidades f\u00edsicas imediatas, como os animais. Portanto, ao contr\u00e1rio do que entende Arendt, para Marx o trabalho n\u00e3o \u00e9 apenas \u2018biol\u00f3gico\u2019, mas sim o instrumento de interc\u00e2mbio e dom\u00ednio do homem sobre a natureza, que se encontra <em>alienado<\/em>&nbsp;pela subordina\u00e7\u00e3o ao capital,&nbsp;<em>estranhado<\/em>. <sup data-fn=\"b0936949-97c3-4a7d-b959-7ce025f5b603\" class=\"fn\"><a id=\"b0936949-97c3-4a7d-b959-7ce025f5b603-link\" href=\"\/#b0936949-97c3-4a7d-b959-7ce025f5b603\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto que impede Arendt de captar essa realidade \u00e9 o n\u00e3o entendimento do car\u00e1ter dial\u00e9tico existente entre a necessidade de responder \u00e0s quest\u00f5es vitais, embutida no trabalho desde as comunidades mais primitivas, e sua caracter\u00edstica especificamente humana. Foram as pr\u00f3prias necessidades b\u00e1sicas para a sobreviv\u00eancia como a coleta, a ca\u00e7a e a defesa contra os inimigos que levaram o homem a se diferenciar de seus ancestrais s\u00edmios e a desenvolver a capacidade de interferir sobre a natureza. J\u00e1 a ca\u00e7a e a pesca exigiam conhecimentos do meio ambiente e determinados instrumentos, embora se limitassem a retirar da natureza frutos ou animais que ali estavam. Embora nesse momento ainda tivesse semelhan\u00e7as com os demais animais, a utiliza\u00e7\u00e3o pensada dos materiais foi abrindo um crescente diferencial entre o homem e as demais esp\u00e9cies. Como Engels mostrou em seu texto cl\u00e1ssico&nbsp;<em>O papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem<\/em>, essa evolu\u00e7\u00e3o, esse salto, torna-se claro quando o homem j\u00e1 utiliza as m\u00e3os n\u00e3o somente como o macaco para agarrar frutos nas \u00e1rvores ou arrancar galhos para se proteger, mas para produzir um machado ou uma faca de pedra.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a agricultura exigiu n\u00e3o s\u00f3 conhecimento sobre a natureza, como atuar de forma <em>planejada<\/em>&nbsp;sobre ela, com a semeadura, irriga\u00e7\u00e3o, colheita, etc. Ter no\u00e7\u00e3o de tempo, de como contabiliz\u00e1-lo, e, mais importante ainda, criar formas de trabalho&nbsp;<em>social<\/em>. A finalidade da agricultura era alimentar a popula\u00e7\u00e3o crescente, evitar as fomes peri\u00f3dicas que acompanhavam o crescimento vegetativo das comunidades anteriores. No entanto, ao contr\u00e1rio do modelo que Arendt elaborou, ao separar&nbsp;<em>labor<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>trabalho<\/em>, (onde o primeiro se limitaria a produzir objetos de consumo que garantissem a vida biol\u00f3gica, sem perman\u00eancia, enquanto o segundo produziria instrumentos, ferramentas, etc.,) foi a atividade agr\u00edcola que obrigou o homem a realizar obras de tal envergadura que permaneceram por muito tempo como exemplos do prod\u00edgio humano, como os diques da Mesopot\u00e2mia, ou a rede de canaliza\u00e7\u00e3o dos eg\u00edpcios antigos, fundamentais para impedir que as enchentes dos rios Tigre\/Eufrates ou do Nilo destru\u00edssem as planta\u00e7\u00f5es e garantir condi\u00e7\u00f5es de uso perene \u00e0s terras f\u00e9rteis nas margens desses rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Como bem observou Luk\u00e1cs no cap\u00edtulo sobre o&nbsp;<em>Trabalho<\/em>&nbsp;em sua&nbsp;<em>Ontologia do Ser Social<\/em>, apoiando-se na vis\u00e3o de Marx e Engels, o trabalho \u00e9 o elemento central e insepar\u00e1vel do salto qualitativo e estrutural da passagem do ser animal (biol\u00f3gico) para o ser especificamente humano(social).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Somente o trabalho tem, como sua ess\u00eancia ontol\u00f3gica, um claro car\u00e1ter intermedi\u00e1rio: ele \u00e9 essencialmente, uma inter-rela\u00e7\u00e3o entre homem (sociedade) e natureza, tanto inorg\u00e2nica como org\u00e2nica, inter-rela\u00e7\u00e3o que pode at\u00e9 estar situada em pontos determinados da s\u00e9rie a que nos referimos, mas antes de mais nada, assinala a passagem, no homem que trabalha, do ser meramente biol\u00f3gico ao ser social.<\/em>\u00bb (Luk\u00e1cs, 1981, p.3 )<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a oposi\u00e7\u00e3o entre&nbsp;<em>labor&nbsp;<\/em>e&nbsp;<em>trabalho<\/em>&nbsp;aventada por Hannah Arendt n\u00e3o esclarece&nbsp;a condi\u00e7\u00e3o humana e acaba por subestimar o papel do trabalho como capacidade de interferir de forma&nbsp;<em>consciente<\/em>&nbsp;na natureza <sup data-fn=\"e60e8baf-2d6d-46fc-86e2-69602f5ccc13\" class=\"fn\"><a id=\"e60e8baf-2d6d-46fc-86e2-69602f5ccc13-link\" href=\"\/#e60e8baf-2d6d-46fc-86e2-69602f5ccc13\">5<\/a><\/sup> sempre enfatizada por Marx, presente apenas no homem. Como tamb\u00e9m alerta Marx, o trabalho modifica o pr\u00f3prio homem e \u00e9 fundamental na constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana. Tanto o&nbsp;<em>labor<\/em>&nbsp;como o&nbsp;<em>trabalho<\/em> humanos, se utilizarmos a terminologia de Arendt, s\u00e3o \u00fanicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais esp\u00e9cies animais. O homem desenvolveu atrav\u00e9s do trabalho uma atividade onde efetivamente existe a&nbsp;<em>teleologia<\/em>. Onde \u00e9 necess\u00e1rio o conhecimento da&nbsp;<em>causalidade<\/em>, dos processos naturais e vitais para poder preparar e completar a produ\u00e7\u00e3o, criando algo novo, mas que j\u00e1 havia sido pensado antes do ato laborativo. <sup data-fn=\"0f9bc0bf-7060-4dca-97ce-a9a7e6559955\" class=\"fn\"><a id=\"0f9bc0bf-7060-4dca-97ce-a9a7e6559955-link\" href=\"\/#0f9bc0bf-7060-4dca-97ce-a9a7e6559955\">6<\/a><\/sup> Dizer que o labor \u00e9 \u2018apenas a atividade biol\u00f3gica\u2019 como se fosse igual \u00e0 dos animais, confunde e despreza a atividade laborativa <em>humana<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A famosa cita\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>O Capital&nbsp;<\/em>sobre a diferen\u00e7a entre o trabalho da abelha e o do pior mestre de obras ou arquiteto joga luz sobre essa quest\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>N\u00f3s pressupomos o trabalho plasmado sob uma forma exclusivamente humana. A aranha realiza opera\u00e7\u00f5es que se parecem com as do tecel\u00e3o, a abelha faz corar de vergonha muitos mestres de obras, por sua perfei\u00e7\u00e3o ao construir as suas c\u00e9lulas de cera. Mas o que distingue, essencialmente, o pior mestre de obras da melhor abelha, \u00e9 que ele projetou a c\u00e9lula em sua cabe\u00e7a antes de faz\u00ea-la em cera. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que j\u00e1 estava presente desde o in\u00edcio na mente do trabalhador que, deste modo, j\u00e1 existia idealmente. Ele n\u00e3o se limita a efetuar uma mudan\u00e7a de forma no elemento natural; ele&nbsp;imprime&nbsp;no&nbsp;elemento natural, ao mesmo tempo,&nbsp;seu pr\u00f3prio fim, claramente&nbsp;conhecido&nbsp;por ele, o qual governa como uma lei o seu modo de agir e ao qual tem de subordinar \u00e0 sua vontade<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0\" class=\"fn\"><a id=\"b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0-link\" href=\"\/#b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0\">7<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O coment\u00e1rio de Arendt sobre esta mesma cita\u00e7\u00e3o de Marx surpreende pela superficialidade com que se pretende ignorar toda a rica elabora\u00e7\u00e3o sobre o trabalho, e as contradi\u00e7\u00f5es que o alienam na sociedade capitalista. <sup data-fn=\"948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9\" class=\"fn\"><a id=\"948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9-link\" href=\"\/#948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9\">8<\/a><\/sup>&nbsp;A diferen\u00e7a entre Marx e Arendt n\u00e3o reside em uma suposta falta de import\u00e2ncia que este daria ao car\u00e1ter de \u2018imagina\u00e7\u00e3o\u2019 que teria o trabalho humano, mas sim na den\u00fancia que Marx permanentemente faz do papel do capital que, ao se apropriar da for\u00e7a de trabalho, aprisiona e transforma em seu oposto a for\u00e7a produtiva do trabalho social. Para o trabalhador concreto, \u00e9 na m\u00e1quina, em um objeto estranho a ele, no trabalho&nbsp;<em>morto<\/em>, que aparece a finalidade do trabalho, seu projeto. A m\u00e1quina materializa um roteiro de tarefas prescrito, geralmente montado a partir de uma substitui\u00e7\u00e3o das tarefas executadas pelos antigos instrumentos de trabalho, como na tecelagem, metalurgia, etc. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que tenha deixado de existir a teleologia, a finalidade (ou a&nbsp;<em>imagina\u00e7\u00e3o, <\/em>conforme a terminologia de Arendt) no processo de trabalho. O problema \u00e9 que uma figura nova, que antes n\u00e3o participava na produ\u00e7\u00e3o,&nbsp;<em>o capital,<\/em>&nbsp;apropriou-se desta e atrav\u00e9s da m\u00e1quina se faz presente no processo de trabalho, onde ele <em>imp\u00f5e<\/em>&nbsp;em forma tir\u00e2nica ao trabalhador todos os passos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A separa\u00e7\u00e3o entre labor e<\/strong>&nbsp;<strong>trabalho<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Arendt confunde a diferen\u00e7a entre o trabalho qualificado ou que produz instrumentos e o trabalho n\u00e3o qualificado, com a diferen\u00e7a entre o trabalho artesanal pr\u00e9-capitalista e o trabalho&nbsp;<em>assalariado<\/em>&nbsp;sob o capital (e&nbsp;<em>alienado<\/em>). Para ela, n\u00e3o foi o capital, mas uma abstra\u00e7\u00e3o, tipo \u2018a sociedade\u2019 ou \u2018 a revolu\u00e7\u00e3o industrial\u2019 que criou uma divis\u00e3o do trabalho que reduziu o trabalhador ao papel de mero fornecedor de \u201cfor\u00e7a de trabalho\u201d, e tornaram seus produtos meros objetos para o consumo (ou como diria melhor Marx, mercadorias).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A revolu\u00e7\u00e3o industrial substituiu todo artesanato pelo labor; o resultado foi que as coisas no mundo moderno tornaram-se produtos do labor, cujo destino final \u00e9 serem consumidos, ao inv\u00e9s de produtos do trabalho, que se destinam a ser usados. A divis\u00e3o do labor, e n\u00e3o um aumento de mecaniza\u00e7\u00e3o, substituiu a rigorosa especializa\u00e7\u00e3o antes exigida para todo tipo de artesanato.<\/em>\u201d (Arendt, 1997, p.137).<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o que d\u00e1 Arendt para a substitui\u00e7\u00e3o do que ela chama de&nbsp;<em>trabalho&nbsp;<\/em>pelo&nbsp;<em>labor<\/em> ignora o papel do capital nessa transforma\u00e7\u00e3o e na subsun\u00e7\u00e3o do trabalho, que passa a ser incorporado como trabalho&nbsp;<em>abstrato<\/em>&nbsp;e ser absorvido enquanto&nbsp;<em>for\u00e7a de trabalho&nbsp;<\/em>(labor power) pelo capital, atribuindo-a a uma tend\u00eancia&nbsp;<em>natural<\/em>&nbsp;de busca da abund\u00e2ncia. Esquece que justamente uma contradi\u00e7\u00e3o central da sociedade capitalista \u00e9 a que se d\u00e1 entre a multiplica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a situa\u00e7\u00e3o do trabalhador expropriado dos meios de produ\u00e7\u00e3o, entre a possibilidade (potencial) de satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades, que \u00e9 barrada continuamente pela apropria\u00e7\u00e3o privada capitalista e a dura realidade da classe oper\u00e1ria<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Os ideais do&nbsp;homo faber, fabricante do mundo, que s\u00e3o a perman\u00eancia, a estabilidade e a durabilidade, foram sacrificados em benef\u00edcio da abund\u00e2ncia, que \u00e9 o ideal do animal&nbsp;laborans. Vivemos numa sociedade de oper\u00e1rios, porque somente o labor, com sua inerente fertilidade, tem possibilidade de produzir a abund\u00e2ncia; e transformamos o trabalho em labor, separando-o em min\u00fasculas part\u00edculas at\u00e9 que ele prestou-se \u00e0 divis\u00e3o na qual o denominador comum da execu\u00e7\u00e3o mais simples \u00e9 atingido para eliminar do caminho do &lt;labor power&gt; humano \u2013&nbsp; que \u00e9 parte da natureza e talvez a mais poderosa das for\u00e7as naturais \u2013 o obst\u00e1culo da estabilidade &lt;inatural&gt; e puramente mundana do artif\u00edcio humano.<\/em>\u201d&nbsp; (Arendt, 1997,&nbsp; p.138.)<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arendt, j\u00e1 estar\u00edamos em uma sociedade da&nbsp;<em>abund\u00e2ncia<\/em>. Esquece novamente o fato fundamental que os produtos que surgem do \u2018labor\u2019 s\u00e3o propriedade do capitalista, s\u00e3o <em>mercadorias&nbsp;<\/em>que s\u00f3 podem ser consumidas pelo trabalhador se este realizar a compra, se o seu sal\u00e1rio permitir. Mais ainda, como Marx explica, a amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o pelo capitalista empobrece o trabalhador! Se olharmos o mundo de hoje, essa observa\u00e7\u00e3o parece consistente e v\u00e1lida mais de 100 anos depois de ter sido redigida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>As contradi\u00e7\u00f5es e os antagonismos insepar\u00e1veis da utiliza\u00e7\u00e3o capitalista da maquinaria n\u00e3o existem porque decorre da pr\u00f3pria maquinaria, mas de sua utiliza\u00e7\u00e3o capitalista! J\u00e1 que, portanto, considerada em si, a maquinaria encurta o tempo de trabalho, mas enquanto utilizada como capital aumenta a jornada de trabalho; em si facilita o trabalho, mas utilizada como capital aumenta sua intensidade; em si, \u00e9 uma vit\u00f3ria do homem sobre a for\u00e7a da Natureza, mas utilizada como capital, submete o homem por for\u00e7a da Natureza; <strong>em si, aumenta a riqueza do produtor; mas utilizada como capital, pauperiza-o<\/strong>.<\/em>\u00bb (Marx, 1973, V. I, p.58, grifos nossos).<\/p>\n\n\n\n<p>A divis\u00e3o do trabalho, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria do&nbsp;<em>animal laborans&nbsp;<\/em>sobre o&nbsp;<em>homo faber<\/em>, mas segue a l\u00f3gica do capital, de reduzir o poder de fogo do trabalhador, subordinando-o \u00e0 totalidade do processo dirigido pelo capital. As mudan\u00e7as introduzidas pela nova divis\u00e3o capitalista do trabalho n\u00e3o foram uma conseq\u00fc\u00eancia das novas tecnologias, mas sim de uma determinada l\u00f3gica da ordem econ\u00f4mica e social capitalista. Tiram a pot\u00eancia do trabalhador para concentr\u00e1-la no capital:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>As pot\u00eancias intelectuais da produ\u00e7\u00e3o ampliam sua escala por um lado, porque desaparecem por muitos lados. O que os trabalhadores parciais perdem, concentra-se no capital com que se confrontam. \u00c9 um produto da divis\u00e3o manufatureira do trabalho opor-lhes as for\u00e7as intelectuais do processo material de produ\u00e7\u00e3o como propriedade alheia e poder que os domina. Esse processo de dissocia\u00e7\u00e3o come\u00e7a na coopera\u00e7\u00e3o simples, em que o capitalista representa em face dos trabalhadores individuais a unidade e a vontade do corpo social de trabalho. O processo desenvolve-se na manufatura que mutila o trabalhador, convertendo-o em trabalhador parcial. Ele completa-se na grande ind\u00fastria, que separa do trabalho a ci\u00eancia como pot\u00eancia aut\u00f4noma de produ\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a a servir ao capital<\/em>.\u00bb (Marx, 1973, V. I, cap. 12, pp. 274-275).<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00faltimo coment\u00e1rio sobre essa quest\u00e3o do&nbsp;<em>labor&nbsp;<\/em>e do<em>&nbsp;trabalho<\/em>: com os desenvolvimentos da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, a intera\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o, entre execu\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez maior nos setores de ponta da ind\u00fastria. Se as fronteiras do trabalho <em>n\u00e3o qualificado<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>qualificado<\/em>&nbsp;s\u00e3o cada vez mais t\u00eanues, j\u00e1 que o capital busca reduzir a componente do trabalho improdutivo na produ\u00e7\u00e3o das mercadorias, e se apropriar da sabedoria do oper\u00e1rio, obrigando os participantes da linha de produ\u00e7\u00e3o a fazer eles mesmos o controle de qualidade, a sugerir medidas para melhorar a produtividade da f\u00e1brica, como nomear o trabalho desse oper\u00e1rio hoje? Como&nbsp;<em>labor<\/em>&nbsp;ou como&nbsp;<em>trabalho<\/em>, se aplic\u00e1ssemos as categorias de Arendt? <sup data-fn=\"a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132\" class=\"fn\"><a id=\"a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132-link\" href=\"\/#a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132\">9<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">O movimento oper\u00e1rio \u00e9 considerado incapaz de atividade pol\u00edtica<\/h6>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 na an\u00e1lise do movimento oper\u00e1rio que aparecem as consequ\u00eancias pol\u00edticas dessa avalia\u00e7\u00e3o que Arendt tem da condi\u00e7\u00e3o humana e do papel inferior do<em>&nbsp;labor<\/em>. Arendt recusa-se a reconhecer no trabalho um potencial de sociabilidade capaz de gerar uma pr\u00e1tica pol\u00edtica digna do nome entre os homens. Sua primeira defini\u00e7\u00e3o \u00e9 coerente com as defini\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas aqui discutidas<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Embora n\u00e3o seja capaz de criar uma esfera p\u00fablica aut\u00f4noma, na qual os homens possam aparecer&nbsp;qual&nbsp;&nbsp;homens, a atividade do trabalho, para a qual o isolamento em rela\u00e7\u00e3o aos outros \u00e9 condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via necess\u00e1ria, est\u00e1 ainda vinculada de v\u00e1rias maneiras a esse espa\u00e7o da apar\u00eancia; na pior das hip\u00f3teses permanece ligada ao mundo tang\u00edvel das coisas que produz. O trabalho, portanto, talvez seja um modo <strong>apol\u00edtico<\/strong>&nbsp;de vida, mas certamente n\u00e3o&nbsp;<strong>\u00e9 antipol\u00edtico<\/strong>. Este&nbsp;<strong>\u00faltimo \u00e9 precisamente o caso do labor, atividade na qual o homem n\u00e3o convive com o mundo nem com os outros<\/strong>: est\u00e1 a s\u00f3s com o seu corpo ante a pura necessidade de manter-se vivo. <strong>\u00c9 verdade que tamb\u00e9m vive na presen\u00e7a e na companhia de outros, mas essa conviv\u00eancia n\u00e3o possui nenhuma das caracter\u00edsticas da verdadeira pluralidade<\/strong>.<\/em>\u00bb&nbsp;(Arendt, 1997, p.224, grifos nossos)<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia explicar a intensa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e revolucion\u00e1ria do movimento oper\u00e1rio; por isso, ela se espanta com a participa\u00e7\u00e3o ativa e decisiva do movimento dos trabalhadores desde o s\u00e9culo XIX, o que n\u00e3o a impede de prever um r\u00e1pido fim a essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A surpreendente aus\u00eancia de rebeli\u00f5es s\u00e9rias por parte dos escravos nos tempos antigos e modernos parece confirmar a incapacidade do&nbsp;animal&nbsp;laborans&nbsp;para diferencia\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, para a a\u00e7\u00e3o e o discurso. N\u00e3o menos&nbsp;<strong>surpreendente<\/strong>&nbsp;\u00e9 o papel s\u00fabito e, muitas vezes, extraordinariamente produtivo que os movimentos oper\u00e1rios desempenharam na pol\u00edtica moderna.<\/em>\u00bb (p.227, grifo nosso)<\/p>\n\n\n\n<p>Obrigada a reconhecer a discrep\u00e2ncia entre sua defini\u00e7\u00e3o e a realidade, chega a se confessar surpreendida; no entanto, para explicar como um movimento que se baseia no <em>labor&nbsp;<\/em>conseguiu obter a relev\u00e2ncia que teve nos s\u00e9culos XIX e XX, busca uma explica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica externa ao fato: seria a conquista da cidadania pol\u00edtica, do direito ao voto em particular e por a\u00ed de sua inclus\u00e3o na sociedade que teria feito o movimento oper\u00e1rio, distinto dos escravos e servos, capaz de interferir no processo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Esta discrep\u00e2ncia aparentemente flagrante entre o fato hist\u00f3rico \u2013 produtividade pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria \u2013 e os dados fenomenol\u00f3gicos obtidos da an\u00e1lise da atividade do labor tende a desaparecer ap\u00f3s exame mais profundo do desenvolvimento e da subst\u00e2ncia do movimento oper\u00e1rio. A principal diferen\u00e7a entre o trabalho escravo e o moderno trabalho livre n\u00e3o \u00e9 a posse da liberdade pessoal, mas o fato de que o oper\u00e1rio moderno \u00e9 admitido na esfera p\u00fablica enquanto cidad\u00e3o.&nbsp;<strong>O momento crucial da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio foi a aboli\u00e7\u00e3o do requisito de propriedade para o exerc\u00edcio do direito de voto.<\/strong><\/em>\u00bb&nbsp;(Arendt, 1997, p.229). (grifos nossos).<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir d\u00e1 o exemplo dos&nbsp;<em>sans<\/em>&#8211;<em>culottes&nbsp;<\/em>da Fran\u00e7a. Apareciam como tal, aproveitando o impacto causado por uma apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica com suas roupas id\u00eanticas e lutavam por direitos democr\u00e1ticos e trabalhistas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A mola propulsora dessa tentativa [refere-se ao papel protagonista que os oper\u00e1rios cumpriram em 1789, 1848, etc.] n\u00e3o foi o labor \u2013 nem a rebeli\u00e3o sempre ut\u00f3pica contra as necessidades da vida \u2013&nbsp; mas sim aquelas injusti\u00e7as e hipocrisias que desapareceram com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade de classes em uma sociedade de massas, e a substitui\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio di\u00e1rio ou semanal por um sal\u00e1rio anual garantido.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, p. 231)<\/p>\n\n\n\n<p>Coerente com essa vis\u00e3o, sustenta a perspectiva de r\u00e1pida desapari\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno do movimento oper\u00e1rio enquanto contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem. Tenderia a se reduzir \u00e0 express\u00e3o de qualquer outro \u2018<em>grupo de press\u00e3o<\/em>\u2019. E se adaptaria \u00e0 ordem vigente como todos os outros:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A import\u00e2ncia pol\u00edtica do movimento oper\u00e1rio hoje \u00e9 a mesma de qualquer grupo de press\u00e3o; j\u00e1 se foi o tempo \u2013 que durou quase um s\u00e9culo \u2013 em que podia representar o povo como um todo, se entendemos por&nbsp;le peuple&nbsp;o verdadeiro corpo pol\u00edtico diferente portanto da popula\u00e7\u00e3o e da sociedade.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, p. 231).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Amb\u00edguo em seu conte\u00fado e objetivos desde o princ\u00edpio, o movimento oper\u00e1rio perdia imediatamente essa representa\u00e7\u00e3o, e, por conseguinte, seu papel pol\u00edtico, sempre que a classe oper\u00e1ria tornava-se parte integrante da sociedade.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, p.232).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse argumento encerra uma contradi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica com o trecho citado acima que afirmava como motivo da participa\u00e7\u00e3o surpreendente do movimento oper\u00e1rio a sua emancipa\u00e7\u00e3o (pol\u00edtica), em particular com a conquista do direito de voto: se o motivo da interven\u00e7\u00e3o dos trabalhadores como protagonistas das revolu\u00e7\u00f5es era essa conquista, como esperar que eles perdessem imediatamente seu papel pol\u00edtico uma vez que se tornassem \u2018parte integrante da sociedade\u2019? Ent\u00e3o, o que levara a que eles tivessem um papel pol\u00edtico revolucion\u00e1rio, completamente inesperado para Arendt, imediatamente os colocaria em uma situa\u00e7\u00e3o de integra\u00e7\u00e3o e igual a qualquer grupo de press\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma observa\u00e7\u00e3o sobre seu argumento: as revolu\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias nem sempre se colocaram em locais onde a classe oper\u00e1ria j\u00e1 havia se emancipado politicamente nem tinha tradi\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o ou mesmo direito a voto. Citemos apenas a russa de 1917 para exemplificar, onde inclusive a classe oper\u00e1ria propriamente dita era uma \u00ednfima minoria na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno da participa\u00e7\u00e3o institucional e da integra\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as sindicais e partidos oper\u00e1rios reformistas \u00e0 ordem burguesa, em particular em pa\u00edses da Europa Ocidental \u00e9 objeto de larga discuss\u00e3o na literatura sociol\u00f3gica e pol\u00edtica, pois a\u00ed entram as media\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a luta de classes, as possibilidades de concess\u00f5es econ\u00f4micas, como no per\u00edodo do&nbsp;<em>Welfare State&nbsp;<\/em>e o papel mais poderoso dos regimes democr\u00e1ticos (e do Estado) dos pa\u00edses imperialistas. Mesmo assim, ao generalizar, Arendt esquece a realidade das revolu\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias (ainda que n\u00e3o tenham triunfado) em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e participa\u00e7\u00e3o dos movimentos oper\u00e1rios na pol\u00edtica institucional, como a Fran\u00e7a (1936 e 45), It\u00e1lia (1921 e 45), Alemanha (1919, 21 e 23, para n\u00e3o falar da conjuntura pr\u00e9-ascens\u00e3o do nazismo em 1933).<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicar essa for\u00e7a e presen\u00e7a do movimento oper\u00e1rio nestes 160 anos e os poderosos movimentos e correntes pol\u00edticas que gerou, ter\u00edamos que partir do car\u00e1ter social do trabalho oper\u00e1rio sob o capitalismo, da contradi\u00e7\u00e3o ente o trabalho social e apropria\u00e7\u00e3o privada do seu fruto para entender a revolta oper\u00e1ria contra sua condi\u00e7\u00e3o sob o capital, contra a aliena\u00e7\u00e3o do trabalho que o capital permanentemente reproduz. Ao contr\u00e1rio do que afirma Arendt, o&nbsp;<em>labor<\/em>\/trabalho sob o capital \u00e9 fonte de uma atividade pol\u00edtica, humana, da luta pol\u00edtica pela emancipa\u00e7\u00e3o do trabalhador, contra a aliena\u00e7\u00e3o do trabalho e do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>E o fato de que a humanidade esteja submetida a essa situa\u00e7\u00e3o (ou ainda pior, quando est\u00e1 marginalizada, sem trabalho) em todo o mundo \u00e9 a base para o internacionalismo oper\u00e1rio e o que Marx chamava de liberta\u00e7\u00e3o\/emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, como estava inscrito no lema da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores. Nas T<em>eses sobre Feuerbach<\/em>&nbsp;ele afirmava a \u201chumanidade socializada\u201d como o horizonte do materialismo moderno, e n\u00e3o o que entendeu Arendt, quando afirma<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>E por isso \u00e9 que Plat\u00e3o sugeriu que os oper\u00e1rios e escravos eram n\u00e3o apenas sujeitos a necessidades e&nbsp;<strong>incapazes de liberdade<\/strong>, mas&nbsp;<strong>incapazes tamb\u00e9m de dominar o lado \u2018animal\u2019 de sua pr\u00f3pria natureza<\/strong>. Uma&nbsp;<strong>sociedade de massas de oper\u00e1rios, tal como Marx tinha em mente quando falava de &lt;humanidade socializada&gt;<\/strong>, consiste em exemplares da esp\u00e9cie humana isolados do mundo, quer sejam escravos dom\u00e9sticos, levados a essa infeliz situa\u00e7\u00e3o pela viol\u00eancia de terceiros, quer sejam livres, exercendo voluntariamente suas fun\u00e7\u00f5es.<\/em>\u00bb (Arendt, p.131, grifos nossos).<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui Arendt deixa muito clara sua posi\u00e7\u00e3o, apoiando-se em Plat\u00e3o, de que os trabalhadores, sejam livres ou escravos, s\u00e3o incapazes por defini\u00e7\u00e3o de superar seu lado animal e alcan\u00e7arem a dimens\u00e3o da \u2018liberdade\u2019.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A \u00fanica atividade considerada humana: a a\u00e7\u00e3o<\/h6>\n\n\n\n<p>Esta revis\u00e3o cr\u00edtica das categorias de labor e trabalho utilizadas por Arendt permite agora que analisemos seu conceito de&nbsp;<em>A\u00e7\u00e3o<\/em>: esta seria o di\u00e1logo entre \u2018iguais\u2019 (homens livres que buscam o bem comum) em um livre interc\u00e2mbio de opini\u00f5es poss\u00edvel somente em um espa\u00e7o p\u00fablico. O espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o uma arena comum separada da vida privada, das fam\u00edlias, e op\u00f5e-se ao espa\u00e7o privado, onde impera a domina\u00e7\u00e3o, a submiss\u00e3o, o ego\u00edsmo, etc. Arendt acredita que as pessoas tenham na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u2018por seus atos e palavras\u2019, uma oportunidade de ser&nbsp;<em>livres<\/em>. A conquista da liberdade estaria na esfera do pol\u00edtico, no espa\u00e7o p\u00fablico, e seria uma supera\u00e7\u00e3o do reino da necessidade t\u00edpica do espa\u00e7o privado, da fam\u00edlia, <sup data-fn=\"ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652\" class=\"fn\"><a id=\"ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652-link\" href=\"\/#ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652\">10<\/a><\/sup> etc. Apoiando-se numa interpreta\u00e7\u00e3o do que teria sido a&nbsp;<em>polis&nbsp;<\/em>grega, &nbsp;Arendt relaciona&nbsp;<em>liberdade<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>pol\u00edtica<\/em>, esfera&nbsp;<em>p\u00fablica<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>privada<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>O que todos os fil\u00f3sofos gregos tinham como certo por mais que se opusessem \u00e0 vida na polis, \u00e9 que a liberdade situa-se exatamente na esfera pol\u00edtica; que a necessidade \u00e9 primordialmente um fen\u00f4meno pr\u00e9-pol\u00edtico, caracter\u00edstico da organiza\u00e7\u00e3o do lar privado; e que a for\u00e7a e a viol\u00eancia s\u00e3o justificadas nesta \u00faltima esfera por serem os \u00fanicos meios de vencer a necessidade \u2013 por exemplo, subjugando escravos \u2013 e alcan\u00e7ar a liberdade.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, p.40)<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arendt s\u00f3 \u00e9 atividade verdadeiramente pol\u00edtica, aquela em que o indiv\u00edduo se move n\u00e3o por necessidade, mas pelo bem comum. O espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 definido tamb\u00e9m por este car\u00e1ter de lugar onde os homens, livres das necessidades e das quest\u00f5es t\u00edpicas do espa\u00e7o privado, podem reunir-se para, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, utilizando o&nbsp;<em>discurso<\/em>, deliberar sobre os destinos comuns. O reconhecimento p\u00fablico \u00e9 o pr\u00eamio a alcan\u00e7ar. Esse espa\u00e7o n\u00e3o pode ser ocupado por associa\u00e7\u00f5es de&nbsp;<em>iguais&nbsp;<\/em>(de classes ou setores sociais), pois isso seria atentar contra a&nbsp;<em>pluralidade<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A uni\u00e3o de muitos em um s\u00f3 \u00e9 basicamente antipol\u00edtica: \u00e9 o exato oposto da conviv\u00eancia que prevalece nas comunidades comerciais ou pol\u00edticas que \u2013 para citar o exemplo de Arist\u00f3teles \u2013 n\u00e3o \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o &lt;koinonia&gt; de dois m\u00e9dicos, mas de um m\u00e9dico e um agricultor e, de modo geral, de pessoas diferentes e desiguais.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, p.227).<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, portanto, o movimento oper\u00e1rio \u00e9 incapaz de uma verdadeira a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <em>A\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>discurso<\/em>&nbsp;s\u00f3 t\u00eam sentido para ela no espa\u00e7o p\u00fablico, como forma de intera\u00e7\u00e3o entre homens desligados de sua localiza\u00e7\u00e3o social ou privada. O espa\u00e7o p\u00fablico seria o espa\u00e7o da delibera\u00e7\u00e3o conjunta, atrav\u00e9s do qual os homens, na medida em que s\u00e3o capazes de a\u00e7\u00e3o e opini\u00e3o, tornam-se interessados e respons\u00e1veis pelas quest\u00f5es que dizem respeito a um destino comum, que \u00e9 a mat\u00e9ria pr\u00f3pria da esfera do pol\u00edtico. E este, para ser livre, deve estar desvinculado do&nbsp;<em>trabalho&nbsp;<\/em>e do&nbsp;<em>labor<\/em>. Nele, o n\u00famero das pessoas n\u00e3o pode ser grande, pois levaria a uma irresist\u00edvel tend\u00eancia ao&nbsp;<em>conformismo<\/em>&nbsp;e \u00e0&nbsp;<em>tirania da maioria<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Os gregos, cuja cidade-estado foi o corpo pol\u00edtico mais individualista e menos conformista que conhecemos, tinham plena consci\u00eancia do fato de que a&nbsp;polis, com sua \u00eanfase na a\u00e7\u00e3o e no discurso, s\u00f3 poderia sobreviver se o n\u00famero de cidad\u00e3os permanecesse restrito.&nbsp;<strong>Grandes n\u00fameros de indiv\u00edduos agrupados numa multid\u00e3o desenvolvem uma inclina\u00e7\u00e3o quase irresist\u00edvel para o despotismo pessoal<\/strong>&nbsp;<strong>ou o governo da maioria<\/strong>; e embora a estat\u00edstica, isto \u00e9, o tratamento matem\u00e1tico da realidade fosse desconhecido antes da era moderna, os fen\u00f4menos sociais possibilitaram esse tratamento \u2013 grandes n\u00fameros justificando o conformismo, o behaviorismo e o automatismo nos neg\u00f3cios humanos \u2013 eram precisamente o que, no entendimento dos gregos, distinguia da sua a civiliza\u00e7\u00e3o persa.<\/em>\u00bb (Arendt, 1997, pp.52-53, grifos nossos).<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>As consequ\u00eancias dessa concep\u00e7\u00e3o sobre a vis\u00e3o pol\u00edtica<\/strong>&nbsp;<strong>de Arendt<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o de Hannah Arendt sobre pol\u00edtica op\u00f5e a&nbsp;<em>a\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/em>(Pol\u00edtica) ao social. Ela opina que a predomin\u00e2ncia do&nbsp;<em>labor<\/em>&nbsp;antes descrita trouxe consigo a invas\u00e3o da esfera p\u00fablica pela necessidade. Em tal propor\u00e7\u00e3o, que esta terminou por se desfigurar, transformando-se numa vasta administra\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e burocr\u00e1tica que existe apenas em fun\u00e7\u00e3o da economia. Por isso, preocupa-se com \u201ca \u2018invas\u00e3o do social\u2019 sobre as outras esferas p\u00fablicas, caracter\u00edstica da esfera moderna\u201d, <sup data-fn=\"95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38\" class=\"fn\"><a href=\"\/#95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38\" id=\"95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38-link\">11<\/a><\/sup> e com as multid\u00f5es que n\u00e3o estariam em condi\u00e7\u00e3o de resistir ao despotismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se recusa a reconhecer na \u2018polis\u2019 a exist\u00eancia do conflito, como sua dimens\u00e3o e, portanto, qualquer luta pol\u00edtica entre classes e movida por interesses \u00e9 considerada&nbsp;<em>n\u00e3o pol\u00edtica&nbsp;<\/em>ou&nbsp;<em>antipol\u00edtica<\/em>. Assim, por extens\u00e3o, qualquer conflito de classes ou setores de classe deturpa a esfera p\u00fablica, vai contra a ideia central em sua vis\u00e3o do que \u00e9 fortalecer o <em>pol\u00edtico<\/em>&nbsp;e a esfera p\u00fablica (pois seria uma express\u00e3o da esfera privada).<\/p>\n\n\n\n<p>Ela lamenta que as classes propriet\u00e1rias modernas tenham abdicado de sua participa\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica em prol do bem comum, como, em sua vis\u00e3o, faziam os gregos.&nbsp; \u201c<em>Logo que passou \u00e0 esfera p\u00fablica, a sociedade assumiu o disfarce de uma organiza\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios, que ao inv\u00e9s de se arrogarem acesso \u00e0 esfera p\u00fablica em virtude de suas riquezas, exigiram dela prote\u00e7\u00e3o para o ac\u00famulo de mais riqueza.<\/em>\u201d (Arendt, 1997, p.78).<\/p>\n\n\n\n<p>Ela pressup\u00f5e o&nbsp;<em>espa\u00e7o p\u00fablico<\/em>&nbsp;como o&nbsp;<em>lugar por excel\u00eancia da pol\u00edtica<\/em>, mas como atividade de poucos. Qualquer movimento social de massas deturparia o di\u00e1logo, introduziria o conformismo na esfera p\u00fablica. Assim, ela separa a esfera pol\u00edtica do social e da realidade concreta da vida cotidiana. Dessas considera\u00e7\u00f5es, s\u00f3 se pode entender que, como materializa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do espa\u00e7o p\u00fablico, ela pensa em uma recria\u00e7\u00e3o da polis grega, que teria de ser baseada naqueles que tem condi\u00e7\u00e3o de pensar, de elevar-se acima de seus interesses imediatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vis\u00e3o de cidadania seria inspirada na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre iguais no espa\u00e7o p\u00fablico (a&nbsp;<em>isonomia<\/em>), implicando em uma prepara\u00e7\u00e3o para a vida pol\u00edtica, para que possa ser uma a\u00e7\u00e3o entre iguais sem vincula\u00e7\u00e3o a interesses outros que n\u00e3o o bem comum da&nbsp;<em>polis<\/em>. Ou seja, para os melhores, os que n\u00e3o vivem do&nbsp;<em>labor<\/em>, nem do&nbsp;<em>trabalho<\/em>, para aqueles capazes de realizar a&nbsp;<em>a\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e o&nbsp;<em>discurso<\/em>&nbsp;com o sentido em que o faziam os cidad\u00e3os gregos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para sinteticamente responder \u00e0 hip\u00f3tese inicial levantada no in\u00edcio deste texto, acreditamos que a formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Arendt tem a ver com sua concep\u00e7\u00e3o, que despreza o trabalho e desconhece a potencialidade emancipadora do movimento dos trabalhadores. A consequ\u00eancia \u00e9 defender uma vis\u00e3o restrita de pol\u00edtica, baseada na interlocu\u00e7\u00e3o de uma&nbsp;<em>elite<\/em>, desligada da sociedade, que se presuma estar acima dos interesses privados para poder decidir, em nome do bem comum, o que \u00e9&nbsp;<em>leg\u00edtimo<\/em>&nbsp;ou <em>ileg\u00edtimo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo dominado pela classe capitalista, em que o Estado responde aos interesses de classe dessa \u2018elite\u2019, a posi\u00e7\u00e3o de Arendt, ao contr\u00e1rio do que ela tenta transmitir, tem um significado completamente antidemocr\u00e1tico,&nbsp;reacion\u00e1rio, pois prop\u00f5e uma \u2018democracia\u2019 que exclui os trabalhadores, considerados incapazes de articular uma pol\u00edtica. Mas para ela, os empres\u00e1rios que conseguissem abstrair de seus interesses (sic) seriam capazes de pensar no bem comum! O que tem esse modelo id\u00edlico a ver com a realidade, seja das democracias modernas, seja a dos partidos europeus, seja da Am\u00e9rica Latina?<\/p>\n\n\n\n<p>Na contram\u00e3o de Marx e Engels, que identificaram no proletariado a classe que tinha de se organizar em forma aut\u00f4noma para poder revolucionar a sociedade, ela defende a exclus\u00e3o dos trabalhadores da arena pol\u00edtica. Qualquer movimento social de massas seria nocivo, distorceria a \u2018esfera p\u00fablica\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Arendt reivindica a \u2018democracia grega\u2019, que exclu\u00eda os escravos, mas para justificar essa exclus\u00e3o, os gregos n\u00e3o os consideravam humanos ou como definia Arist\u00f3teles os escravos seriam&nbsp;<em>ferramentas falantes<\/em>. Para ela, assim como eram considerados os escravos na Gr\u00e9cia antiga, os prolet\u00e1rios no capitalismo s\u00e3o inferiores por sua atividade. Esse \u00e9 o pano de fundo da concep\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANTUNES, Ricardo \u2013&nbsp;<em>Os<\/em>&nbsp;<em>Sentidos do Trabalho<\/em>, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>ARENDT, Hannah \u2013&nbsp;<em>A<\/em>&nbsp;<em>Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/em>. S\u00e3o Paulo, Forense, 8\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>FERNANDES, Florestan (org.) \u2013&nbsp;<em>Marx-Engels, Hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Paulo, \u00c1tica, 3\u00aaed.,1989<\/p>\n\n\n\n<p>LUK\u00c1CS, Gyorgy \u2013&nbsp;<em>Ontologia do Ser Social<\/em>. (<em>O Trabalho<\/em>).&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.afoiceeomartelo.com.br\/posfsa\/Autores\/Lukacs,%20Georg\/O%20TRABALHO%20-%20traducao%20revisada.pdf\">tradu\u00e7\u00e3o de Ivo Tonet<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>MARX, Karl \u2013&nbsp;<em>El Capital<\/em>, vol. I. M\u00e9xico, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 8\u00aa ed.,1973.<\/p>\n\n\n\n<p>MARX, Karl \u2013&nbsp;<em>Elementos fundamentales de la Economia Pol\u00edtica (Gundrisse)<\/em>. M\u00e9xico, Siglo XXI edit., 17\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1997.<a href=\"http:\/\/blog.esquerdaonline.com\/?p=4541#_ftnref1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"e32198db-c054-48ed-8801-e5f2fe81cb46\">Arendt, 1997,\u00a0em especial, as partes II e VI. <a href=\"#e32198db-c054-48ed-8801-e5f2fe81cb46-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6f4d4a7c-8de8-4670-8268-e29080e97e3c\">\u201csomente duas eram consideradas pol\u00edticas e constituintes do que Arist\u00f3teles chamava de\u00a0bios politikos: a a\u00e7\u00e3o(praxis) e o discurso(lexis), dos quais surge a esfera dos neg\u00f3cios humanos(o\u00a0ton anthropon pragmata, como chamava Plat\u00e3o) que exclui estritamente tudo aquilo que seja apenas necess\u00e1rio ou \u00fatil.\u201d Idem, p\u00e1g.34 <a href=\"#6f4d4a7c-8de8-4670-8268-e29080e97e3c-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c617f9d0-ac4b-44bf-904b-51b3486639eb\">Fernandes (org.), em especial Marx, K.\u00a0\u201cTrabalho alienado e supera\u00e7\u00e3o da auto-aliena\u00e7\u00e3o humana\u201d, Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844, pp. 148-156. <a href=\"#c617f9d0-ac4b-44bf-904b-51b3486639eb-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b0936949-97c3-4a7d-b959-7ce025f5b603\">\u201cAo definir o trabalho como \u2018metabolismo do homem com a natureza\u2019, em cujo processo \u2018o material da natureza \u00e9 adaptado \u00e0s necessidades do homem\u2019, de sorte que \u2018o trabalho se incorpora ao sujeito\u2019, Marx deixou claro que estava \u2018falando fisiologicamente\u2019, e que o trabalho e o consumo s\u00e3o apenas dois est\u00e1gios do eterno ciclo da vida biol\u00f3gica.\u201d Arendt, 1997, p.110. <a href=\"#b0936949-97c3-4a7d-b959-7ce025f5b603-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 4\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e60e8baf-2d6d-46fc-86e2-69602f5ccc13\">Arendt, 1997, nota de rodap\u00e9\u00a035\u00a0da p.111: \u201cMarx chamava o labor de \u2018consumo improdutivo\u2019 e jamais perdia de vista que se tratava de uma condi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica.\u201d <a href=\"#e60e8baf-2d6d-46fc-86e2-69602f5ccc13-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 5\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0f9bc0bf-7060-4dca-97ce-a9a7e6559955\">Seguimos racioc\u00ednio de Luk\u00e1cs no mesmo texto. <a href=\"#0f9bc0bf-7060-4dca-97ce-a9a7e6559955-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 6\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0\">Marx, 1973, cap. V, pp.130\/131. <a href=\"#b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 7\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9\">\u201c\u00c9 obvio que aqui Marx j\u00e1 n\u00e3o se referia ao labor, mas ao trabalho \u2013 no qual n\u00e3o estava interessado; e a melhor prova disso \u00e9 que o elemento de \u00abimagina\u00e7\u00e3o\u00bb, aparentemente t\u00e3o importante, n\u00e3o desempenha papel algum em sua teoria do trabalho.\u201d Arendt, 1997, p.111, nota 36 <a href=\"#948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 8\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132\">Ver cap. VII de Antunes, 1999. <a href=\"#a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652\">\u201cA\u00a0polis\u00a0diferenciava-se da fam\u00edlia pelo fato de somente reconhecer \u201ciguais\u201d, ao passo que a fam\u00edlia era o centro da mais severa desigualdade.\u201d\u00a0 Idem, p .41 <a href=\"#ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 10\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38\">\u00a0Idem, p. 55 <a href=\"#95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 11\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p>Publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/a-negacao-do-trabalho-e-do-proletariado-as-raizes-do-elitismo-em-hannah-arendt\/#n1\" title=\"\">www.teoriaerevolu\u00e7\u00e3o.pstu.org.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia do pensamento de Hannah Arendt para as elabora\u00e7\u00f5es sobre espa\u00e7o p\u00fablico e democracia tem sido destacada a partir de sua conhecida cr\u00edtica ao totalitarismo. A obra de Arendt influencia a esquerda brasileira desde os anos 90 nas formula\u00e7\u00f5es sobre cidadania, Estado e democracia. 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V, pp.130\/131.\",\"id\":\"b43e2322-1a6d-4e27-a8e2-b8bdcd8b59f0\"},{\"content\":\"\u201c\u00c9 obvio que aqui Marx j\u00e1 n\u00e3o se referia ao labor, mas ao trabalho \u2013 no qual n\u00e3o estava interessado; e a melhor prova disso \u00e9 que o elemento de \\\"imagina\u00e7\u00e3o\\\", aparentemente t\u00e3o importante, n\u00e3o desempenha papel algum em sua teoria do trabalho.\u201d Arendt, 1997, p.111, nota 36\",\"id\":\"948a4128-619d-4e89-ad43-af6d75808ad9\"},{\"content\":\"Ver cap. VII de Antunes, 1999.\",\"id\":\"a56093b6-3f9e-4663-b7bd-9ef04b864132\"},{\"content\":\"\u201cA\u00a0polis\u00a0diferenciava-se da fam\u00edlia pelo fato de somente reconhecer \u201ciguais\u201d, ao passo que a fam\u00edlia era o centro da mais severa desigualdade.\u201d\u00a0 Idem, p .41\",\"id\":\"ad118cfe-9592-42d9-ad05-b89d143c4652\"},{\"content\":\"\u00a0Idem, p. 55\",\"id\":\"95e95e5e-3e77-4369-84e2-a2d7bc821b38\"}]"},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-8371","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidadania-e-classe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8371"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8371\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}