{"id":8384,"date":"2025-03-31T12:20:03","date_gmt":"2025-03-31T12:20:03","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8384"},"modified":"2025-03-31T12:20:03","modified_gmt":"2025-03-31T12:20:03","slug":"sobre-a-organizacao-dos-oprimidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/03\/31\/sobre-a-organizacao-dos-oprimidos\/","title":{"rendered":"Sobre a organiza\u00e7\u00e3o dos oprimidos"},"content":{"rendered":"\n<p>No artigo <em>A teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente, as tarefas democr\u00e1ticas e a luta dos oprimidos<\/em>, referimo-nos \u00e0 pol\u00eamica com o SWP dos anos 1970 e com outras correntes do trotskismo que reivindicavam a organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das mulheres e de outros setores oprimidos, ultrapassando a fronteira de classe. Esse tema n\u00e3o foi pol\u00eamico no semin\u00e1rio, pois houve acordo un\u00e2nime em rejeitar esse tipo de organiza\u00e7\u00f5es de alian\u00e7a de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Alicia Sagra<\/strong> e <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Surgiu, entretanto, outra pol\u00eamica a respeito de se \u00e9 correto ou n\u00e3o o chamado \u00e0s mulheres trabalhadoras e a outros setores oprimidos dos trabalhadores para se organizarem de forma aut\u00f4noma (em tudo o que se refere \u00e0 luta contra a opress\u00e3o). Ou seja, que existam, em n\u00edvel da organiza\u00e7\u00e3o de classe, por exemplo nas centrais sindicais, organiza\u00e7\u00f5es por opress\u00f5es, n\u00e3o circunstanciais, mas permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O que chamou a aten\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio foi que tanto os que se opunham a esse tipo de organiza\u00e7\u00e3o quanto os que a defendiam, apoiavam-se nos mesmos materiais program\u00e1ticos para fundamentar suas posi\u00e7\u00f5es: a <em>Tese sobre a propaganda entre as mulheres<\/em>, votada pelo terceiro congresso da III Internacional em 1921, e a Tese XXIX de <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em> de Nahuel Moreno, de 1980. Evidentemente, estamos diante de um problema de diferentes interpreta\u00e7\u00f5es dos mesmos documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esse motivo, precisamos aprofundar o estudo desses documentos, analisando essas defini\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas n\u00e3o apenas do ponto de vista te\u00f3rico-ideol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m hist\u00f3rico: qual foi a orienta\u00e7\u00e3o que, historicamente, nossos mestres deram \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos oprimidos? E por que o fizeram?<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo \u00e9 precisar o que esses documentos dizem, contrastando o texto escrito com a pr\u00e1tica concreta daqueles que os redigiram. E, embora devamos aplicar o mesmo m\u00e9todo para os dois documentos citados, \u00e9 ineg\u00e1vel que o documento central \u00e9 o material da III Internacional, visto que todos reconhecemos que essas teses s\u00e3o a principal ferramenta program\u00e1tica para o trabalho com as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o somos religiosos que seguem uma b\u00edblia, o segundo passo \u2013 uma vez precisado o que se diz \u2013 \u00e9 determinar se essas defini\u00e7\u00f5es est\u00e3o corretas na atualidade. Se foram na \u00e9poca, mas, devido \u00e0s mudan\u00e7as mundiais, j\u00e1 n\u00e3o o s\u00e3o, ou se sempre estiveram equivocadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos seguir esses passos com muita precis\u00e3o, pois essa discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para ganhar uma pol\u00eamica nem por um interesse puramente intelectual. Nosso prop\u00f3sito comum est\u00e1 relacionado com a necessidade de enfrentar a reelabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica com o objetivo de atualizar nosso programa hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos, ent\u00e3o, come\u00e7ar com o documento mais recente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tese XXIX de <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na referida tese, Nahuel Moreno explica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab(\u2026) <em>n\u00f3s estamos a favor da unidade de a\u00e7\u00e3o anti-imperialista; da unidade de a\u00e7\u00e3o das mulheres pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, do div\u00f3rcio ou pelo direito ao voto; da unidade de a\u00e7\u00e3o com qualquer partido pol\u00edtico para reivindicar espa\u00e7os iguais na r\u00e1dio e na televis\u00e3o; de uma manifesta\u00e7\u00e3o, com quem for, para solicitar esses direitos democr\u00e1ticos contra o governo bonapartista e totalit\u00e1rio e mesmo democr\u00e1tico burgu\u00eas. Mas n\u00e3o confundimos a unidade de a\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o de uma frente. Somos contr\u00e1rios a fazer frentes com os partidos burgueses ou pequeno-burgueses para defender a democracia, mesmo quando concordamos com eles na defesa de determinados pontos democr\u00e1ticos. Com o nome de &#8216;frente&#8217; estruturam-se organiza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o frentes-populistas (embora, em determinados casos, possam desempenhar um papel relativamente progressista, como os movimentos nacionalistas), por envolverem distintas classes \u2014 sobretudo a burguesia e a pequena burguesia \u2014 e por terem objetivos que n\u00e3o s\u00e3o os da independ\u00eancia pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria. (&#8230;) Quando essa frente (que jamais devemos promover, pois a consideramos uma variante da frente popular) se estabelece, e nela a classe oper\u00e1ria <em>interv\u00e9m <\/em>,ou um setor importante dela, podemos intervir, j\u00e1 que ela existe objetivamente, mas para desmantel\u00e1-la, para denunci\u00e1-la de dentro e para independentizar, tanto pol\u00edtica quanto organizacionalmente, a classe oper\u00e1ria que nela est\u00e1. Isso significa que podemos intervir em um movimento nacionalista, mas com um claro sentido de den\u00fancia da colabora\u00e7\u00e3o de classes e propondo a independ\u00eancia da classe oper\u00e1ria<\/em> (&#8230;) <em>Essa explica\u00e7\u00e3o de que n\u00f3s n\u00e3o estamos a favor de uma frente \u00fanica anti-imperialista, nem antifeudal, nem feminista antimachista, democr\u00e1tica antiditatorial, mas sim a favor de a\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, feministas, democr\u00e1ticas e antilatif\u00fandio, \u00e9 muito importante, pois houve uma tend\u00eancia de camuflar a pol\u00edtica frente-populista com esses nomes.<\/em>\u00bb <\/p>\n\n\n\n<p>Ao apresentar este texto, obtivemos dois tipos de resposta:<\/p>\n\n\n\n<p>1 \u2013 Que a negativa de constituir esses frentes, conforme apresentado, refere-se somente \u00e0 unidade com a burguesia (como seria o caso do SWP nos anos 70) e, portanto, n\u00e3o se aplica quando se trata de organizar separadamente as mulheres trabalhadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 Que a\u00ed se esbo\u00e7a uma proposta propagandista e sect\u00e1ria, que tem a ver com o fato de que Moreno n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura de Lenin no tema da luta contra a opress\u00e3o da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o concordamos com o primeiro ponto, pois, para n\u00f3s, a posi\u00e7\u00e3o de Moreno ao rejeitar essas frentes baseia-se em dois aspectos: 1 \u2013 \u00ab<em>por envolver diversas classes \u2014 sobretudo a burguesia e a pequena burguesia<\/em>\u00bb e 2 \u2013 \u00ab<em>por terem objetivos que n\u00e3o s\u00e3o os da independ\u00eancia pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria<\/em>\u00ab.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao segundo argumento, n\u00e3o vemos por que seria propagandista e sect\u00e1rio rejeitar a organiza\u00e7\u00e3o separada das mulheres e demais oprimidos e, ao mesmo tempo, lutar vigorosamente para que se organizem junto com seus irm\u00e3os de classe, batalhando nos organismos de frente \u00fanica oper\u00e1ria pela maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres, inclusive em seus quadros de dire\u00e7\u00e3o. Acreditamos que essa \u00faltima forma torna a luta contra o machismo mais eficaz, que \u00e9 muito forte nos sindicatos, sobretudo onde a burocracia est\u00e1 no comando, mas n\u00e3o somente neles. Al\u00e9m disso, entendemos que essa orienta\u00e7\u00e3o, utilizando todos os mecanismos aconselhados pela III Internacional (comiss\u00f5es de mulheres, jornais espec\u00edficos, encontros de mulheres trabalhadoras), \u00e9 a melhor para lutar para que o conjunto da classe assuma o combate contra a opress\u00e3o da mulher. Em contrapartida, n\u00e3o nos parece que organizar as mulheres separadamente seja a melhor forma de enfrentar o machismo nos sindicatos. Isso seria o mesmo que dizer que a melhor forma de enfrentar a burocracia \u00e9 se organizar separadamente nos sindicatos vermelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito a Moreno, n\u00e3o acreditamos que ele tenha subestimado a luta contra as opress\u00f5es. \u00c9 verdade que, no que tange ao problema da mulher, nossa corrente incorporou essa pol\u00edtica somente a partir de 1973, a partir da influ\u00eancia positiva do SWP dos EUA. Mas, a partir desse momento, passou a ser um tema importante que marcou, particularmente, a forma\u00e7\u00e3o de nossos quadros femininos, cujo n\u00famero e peso foram uma caracter\u00edstica distintiva do nosso partido. Obviamente, Moreno n\u00e3o esteve, em nenhum aspecto, \u00e0 altura de Lenin, mas, a partir de 1973, independentemente dos erros e corre\u00e7\u00f5es, consideramos que a orienta\u00e7\u00e3o que tivemos em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho com as mulheres esteve no marco das resolu\u00e7\u00f5es da III Internacional. E quando, no final dos anos 70, Moreno viu-se obrigado a enfrentar seus mestres do SWP, desenvolveu a pol\u00eamica com Mary Alice Waters apoiando-se nas elabora\u00e7\u00f5es leninistas.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, consideramos que o documento program\u00e1tico mais completo s\u00e3o as Teses do terceiro congresso da III Internacional, inquestionavelmente reivindicadas por todos os participantes do semin\u00e1rio, por isso \u00e9 nelas que devemos concentrar nossa an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que essas Teses <strong>prop\u00f5em<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As teses foram elaboradas e apresentadas por Clara Zetkin, que em seu texto <em>Meus lembretes de Lenin<\/em> descreve suas conversas pr\u00e9vias com o dirigente bolchevique sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um conceito que permeia toda a tese: S\u00f3 no comunismo se alcan\u00e7ar\u00e1 a liberta\u00e7\u00e3o da mulher, e ao comunismo s\u00f3 se chegar\u00e1 pela luta conjunta de oper\u00e1rias e oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nela, prop\u00f5e-se a obriga\u00e7\u00e3o de todos os partidos da Internacional de realizar um trabalho sobre o proletariado feminino, tomando consci\u00eancia da import\u00e2ncia da \u00ab<em>participa\u00e7\u00e3o ativa das mulheres em todos os setores da luta do proletariado (inclusive em sua defesa militar), da constru\u00e7\u00e3o de novas bases sociais, da organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da exist\u00eancia em conformidade com os princ\u00edpios comunistas<\/em>\u00ab.<\/p>\n\n\n\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia dada a esse trabalho, preocupando-se inclusive com como desenvolv\u00ea-lo nos pa\u00edses do Oriente. Detalha a necessidade de recorrer a organismos especiais (comiss\u00f5es, se\u00e7\u00f5es, etc.), indica que deve ser dada especial import\u00e2ncia ao trabalho nas f\u00e1bricas e nos sindicatos, e que as frentes comunistas dos sindicatos e de outras organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias devem ter organizadores e agitadores dedicados especialmente ao trabalho com as mulheres trabalhadoras. Prop\u00f5e que sejam realizadas reuni\u00f5es com as trabalhadoras nos ateli\u00eas, bem como em seus bairros. Ou seja, \u00e9 extremamente detalhista. Mas em nenhum momento convoca as trabalhadoras a organizarem-se separadamente. Ao contr\u00e1rio, define-se de forma en\u00e9rgica contra isso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Ao mesmo tempo em que se pronuncia veementemente contra qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o separada de mulheres no seio do partido, dos sindicatos ou de outras associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, o 3\u00ba Congresso da Internacional Comunista reconhece a necessidade, para o Partido Comunista, de empregar m\u00e9todos espec\u00edficos de trabalho entre as mulheres e estima a utilidade de formar, em todos os partidos comunistas, organismos especiais encarregados desse trabalho.<\/em>\u00bb <\/p>\n\n\n\n<p>Esses organismos especiais a que se faz refer\u00eancia n\u00e3o t\u00eam nada a ver com organiz\u00e1-las de forma separada, como demonstra a afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica com que se inicia o par\u00e1grafo. Mas, para que n\u00e3o reste nenhuma d\u00favida sobre isso, na Resolu\u00e7\u00e3o concernente \u00e0s formas e aos m\u00e9todos do trabalho comunista entre as mulheres, apresentada por Alexandra Kollontai, votada no mesmo congresso, estabelece-se:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Para que se cumpra esse objetivo, todos os partidos aderentes \u00e0 III Internacional devem formar, em todos os seus \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es, desde os mais baixos at\u00e9 os mais elevados, se\u00e7\u00f5es femininas presididas por uma integrante da dire\u00e7\u00e3o do Partido, cujo objetivo ser\u00e1 o trabalho de agita\u00e7\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o e de instru\u00e7\u00e3o entre as massas oper\u00e1rias femininas (&#8230;) Essas organiza\u00e7\u00f5es femininas n\u00e3o formam organiza\u00e7\u00f5es separadas; s\u00e3o apenas \u00f3rg\u00e3os de trabalho<\/em> (&#8230;)\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se dizer que essa tese se refere ao partido, o que n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o. \u00c9 verdade que essa tese e a mais geral (Tese sobre a propaganda entre as mulheres) referem-se centralmente ao partido, a como conquistar mulheres trabalhadoras para o partido, a como se forma um movimento comunista de mulheres (isto \u00e9, do partido). Por esse motivo, sempre nos pareceu equivocado o argumento de que o chamado para construir organismos especiais (comiss\u00f5es, se\u00e7\u00f5es, etc.) significava que a orienta\u00e7\u00e3o de organizar separadamente as mulheres trabalhadoras, isto \u00e9, construir organismos permanentes de unidade de a\u00e7\u00e3o a partir das opress\u00f5es, estava no marco da III Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, embora a Tese da Terceira esteja centrada no partido, ela n\u00e3o ignora os sindicatos. Faz duas defini\u00e7\u00f5es nesse sentido: 1 \u2013 \u00ab<em>No per\u00edodo atual, os sindicatos profissionais e de produ\u00e7\u00e3o devem constituir, para os partidos comunistas, o campo fundamental do trabalho entre as mulheres<\/em> (&#8230;)\u00bb 2 \u2013 A que j\u00e1 mencionamos: (O congresso da Terceira) \u00ab<em>pronuncia-se veementemente contra qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o separada de mulheres no seio do partido, dos sindicatos ou de outras associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, <\/em>(&#8230;)\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Tese insiste tanto na import\u00e2ncia de manter a unidade entre as oper\u00e1rias e os oper\u00e1rios que aconselha que, nas comiss\u00f5es de mulheres, na medida do poss\u00edvel, tamb\u00e9m participem homens e, de forma semelhante, no n\u00edvel da forma\u00e7\u00e3o, estabelece:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Para desenvolver o esp\u00edrito de camaradagem entre oper\u00e1rias e oper\u00e1rios, \u00e9 prefer\u00edvel n\u00e3o criar cursos e escolas especiais para as mulheres comunistas. Em cada escola do partido deve haver, obrigatoriamente, um curso sobre os m\u00e9todos de trabalho com as mulheres.<\/em>\u00ab<\/p>\n\n\n\n<p>E tudo isso, o que se prop\u00f5e para o partido e para o sindicato, est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 defini\u00e7\u00e3o que Lenin faz em suas conversas com Clara Zetkin: \u00ab<em>De nossa concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica derivam-se as medidas organizativas<\/em>\u00ab. E qual \u00e9 essa concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o ao problema da mulher? Que somente o comunismo libertar\u00e1 as mulheres e que s\u00f3 se chegar\u00e1 ao comunismo pela luta unificada de oper\u00e1rias e oper\u00e1rios, isto \u00e9, o conceito que, como dissemos, permeia toda a tese. Por isso, a proposta organizacional \u00e9 elaborada em torno da quest\u00e3o de classe e n\u00e3o da opress\u00e3o. Por isso, Lenin conclui sua frase dizendo: \u00ab<em>Nada de organiza\u00e7\u00e3o especial da mulher comunista!<\/em>\u00ab<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se dizer que aqui Lenin refere-se \u00e0 mulher comunista e n\u00e3o \u00e0 trabalhadora. Mas, se n\u00e3o \u00e9 essa a sua orienta\u00e7\u00e3o, por que em toda a sua hist\u00f3ria nem Clara Zetkin, nem Lenin, nem a Terceira jamais convocaram as mulheres trabalhadoras para se organizarem separadamente? E n\u00e3o se pode dizer que n\u00e3o o fizeram por subestimar a luta contra a opress\u00e3o. Sua pol\u00edtica foi propagandista por n\u00e3o fazer esse chamado? A Tese da Terceira preocupa-se em n\u00e3o ficar apenas na propaganda, mas n\u00e3o orienta a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es de mulheres com esse objetivo, e sim indica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Para serem \u00f3rg\u00e3os de a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o somente de propaganda oral, as se\u00e7\u00f5es femininas devem apoiar-se nos n\u00facleos comunistas das empresas e oficinas e designar, em cada n\u00facleo comunista, um organizador especial do trabalho entre as mulheres da empresa ou oficina<\/em>.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>E, para finalizar, essa orienta\u00e7\u00e3o de Clara Zetkin, Lenin e da Terceira, ainda \u00e9 correta na atualidade ou \u00e9 necess\u00e1rio modific\u00e1-la diante de mudan\u00e7as ocorridas at\u00e9 hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>Se analisarmos o grau de machismo nos sindicatos e no partido na \u00e9poca de Lenin, n\u00e3o podemos dizer que tenha sido menor do que na atualidade. Visto o baixo n\u00famero de mulheres dirigentes sindicais e pol\u00edticas naquela \u00e9poca e os entraves, inclusive legais, que em muitos pa\u00edses impediam a participa\u00e7\u00e3o das mulheres, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: o machismo era muito mais acentuado, e a situa\u00e7\u00e3o da mulher, bem pior. N\u00e3o por acaso, a tese da Terceira prop\u00f5e:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Admitir as mulheres como membros com os mesmos deveres e direitos que o restante dos membros do partido e de todas as organiza\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias (sindicatos, cooperativas, conselhos de f\u00e1brica, etc.)<\/em>.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, n\u00e3o vemos nada que justifique mudar a orienta\u00e7\u00e3o organizacional da Terceira Internacional. O machismo divide a classe e obstrui a entrada das mulheres trabalhadoras no partido. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es centrais pelas quais devemos enfrent\u00e1-lo de forma sistem\u00e1tica e permanente. Mas n\u00e3o podemos faz\u00ea-lo aprofundando essa divis\u00e3o ao criar organiza\u00e7\u00f5es permanentes separadas para as mulheres e para o restante dos oprimidos. N\u00e3o podemos aplicar aqui o crit\u00e9rio de \u00abdividir agora para unir depois\u00bb, que, em determinadas circunst\u00e2ncias, aplica-se para as na\u00e7\u00f5es oprimidas. Ao faz\u00ea-lo, cair\u00edamos em uma orienta\u00e7\u00e3o sexista. A organiza\u00e7\u00e3o separada das mulheres trabalhadoras enfraquece a classe e fragiliza a luta contra a opress\u00e3o, pois faz com que os demais se desvinculem do problema com o argumento: \u00abs\u00e3o coisas de mulheres, que se encarreguem as companheiras\u00bb. Ou seja, o oposto do aconselhado pela Terceira Internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No artigo A teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente, as tarefas democr\u00e1ticas e a luta dos oprimidos, referimo-nos \u00e0 pol\u00eamica com o SWP dos anos 1970 e com outras correntes do trotskismo que reivindicavam a organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das mulheres e de outros setores oprimidos, ultrapassando a fronteira de classe. 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