{"id":8387,"date":"2025-03-31T12:37:49","date_gmt":"2025-03-31T12:37:49","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8387"},"modified":"2025-03-31T12:37:49","modified_gmt":"2025-03-31T12:37:49","slug":"a-teoria-da-revolucao-permanentee-a-luta-dos-oprimidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/03\/31\/a-teoria-da-revolucao-permanentee-a-luta-dos-oprimidos\/","title":{"rendered":"A Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e a luta dos oprimidos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso semin\u00e1rio sobre a opress\u00e3o da mulher, em dezembro de 2014, ocorreu uma rica discuss\u00e3o e algumas controv\u00e9rsias acerca da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e de sua articula\u00e7\u00e3o com as lutas dos oprimidos. Nestes artigos, procuramos resumir a nossa interven\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Jos\u00e9 Welmowicki e Alicia Sagra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Permanente \u00e9 fundamental para a interven\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios em todas as \u00e1reas, pois \u00e9 a teoria da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional que combina diferentes tarefas, etapas e tipos de revolu\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, \u00e9 a teoria que articula as rela\u00e7\u00f5es entre as tarefas e os sujeitos no processo da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Por isso, sem a compreens\u00e3o do conceito de revolu\u00e7\u00e3o permanente, torna-se imposs\u00edvel elaborar uma estrat\u00e9gia correta para a revolu\u00e7\u00e3o e para a organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e dos setores oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A origem da teoria<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Originada com a revolu\u00e7\u00e3o de 1905, esta teoria trouxe uma nova interpreta\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica da revolu\u00e7\u00e3o em pa\u00edses atrasados, embora em 1905 ela tenha sido formulada apenas para a R\u00fassia. At\u00e9 ent\u00e3o, associava-se a possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista aos pa\u00edses com maior desenvolvimento capitalista. Consequentemente, em toda a II Internacional acreditava-se que os pa\u00edses maduros para a revolu\u00e7\u00e3o socialista eram Inglaterra, Fran\u00e7a e Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Leon Trotsky, apoiando-se nas elabora\u00e7\u00f5es de Parvus e em textos de Marx sobre a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1848, ao fazer o balan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o de 1905, elaborou o que se tornaria uma nova vis\u00e3o na social-democracia, acerca da din\u00e2mica de classes e do car\u00e1ter da pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o de Trotsky com a Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Tanto na primeira formula\u00e7\u00e3o de 1905 quanto na segunda, desenvolvida em 1929, ele estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o entre as tarefas propostas e a din\u00e2mica das classes. A burguesia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de levar adiante, at\u00e9 o fim, as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa; esta s\u00f3 se completar\u00e1 se for assumida pela classe oper\u00e1ria, que dever\u00e1 impor a ditadura do proletariado. \u201c<em>A domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do proletariado \u00e9 incompat\u00edvel com a situa\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pela burguesia<\/em>\u201d, dizia Trotsky em <em>1905: resultados e perspectivas<\/em>. Por isso, uma vez conquistado o poder pol\u00edtico, ele passar\u00e1 a atacar a propriedade capitalista, a enfrentar a explora\u00e7\u00e3o, ou seja, combinar\u00e1 as tarefas democr\u00e1ticas com as socialistas. Em outras palavras, a din\u00e2mica de classe conduzir\u00e1 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista. Esses dois aspectos \u2013 o proletariado como sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o das tarefas \u2013 s\u00e3o as grandes contribui\u00e7\u00f5es de Trotsky, e n\u00e3o estavam presentes em Lenin antes de abril de 1917.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o novo na teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente n\u00e3o \u00e9 que a classe oper\u00e1ria deva assumir as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, visto que a burguesia n\u00e3o o far\u00e1. Apesar de essa defini\u00e7\u00e3o ser o ponto de partida da sua elabora\u00e7\u00e3o, conforme o pr\u00f3prio Trotsky esclarece em sua obra <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Permanente<\/em>, ele compartilhava com Lenin a convic\u00e7\u00e3o de que a burguesia fosse incapaz de completar sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o. E, nesse aspecto, ambos divergiam dos mencheviques, que defendiam que a revolu\u00e7\u00e3o fosse conduzida pela burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, embora coincidirem no fato de que a burguesia n\u00e3o cumpriria sua tarefa, Lenin n\u00e3o definia qual classe a substituiria. Ele falava de oper\u00e1rios e camponeses, mas sem definir qual seria o sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o. Junto a isso, mantinha a vis\u00e3o tradicional dos marxistas de sua \u00e9poca, de que a revolu\u00e7\u00e3o proposta era democr\u00e1tica burguesa, a qual seria completada pela ditadura democr\u00e1tica dos oper\u00e1rios e camponeses.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente de Lenin, Trotsky defendia que era imposs\u00edvel que os camponeses se organizassem de forma independente em um partido pr\u00f3prio, por isso via a classe oper\u00e1ria, por seu papel social decisivo, como a \u00fanica classe que poderia levar adiante a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mesmo com seu n\u00famero reduzido na R\u00fassia. E, a partir do sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o, conclu\u00eda que, uma vez no poder, n\u00e3o seria poss\u00edvel limitar-se \u00e0s tarefas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Assim, a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa se transformaria em socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na vers\u00e3o de 1929, Trotsky incorpora \u00e0 teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente aquilo que representava outra grande diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Lenin em 1905: o partido centralizado como sujeito pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o. Dessa forma, no item 2 das Teses de 1929, ele postula que somente o proletariado, como seu l\u00edder, aliado aos camponeses e dirigido por um partido revolucion\u00e1rio, pode concluir de forma efetiva as tarefas democr\u00e1ticas e instaurar a ditadura do proletariado, que assumir\u00e1, ademais, as tarefas socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos reafirmar, ent\u00e3o, que para Trotsky, o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 permanente, n\u00e3o porque as tarefas democr\u00e1ticas, por si s\u00f3, aprofundadas, conduzam \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista, mas porque h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o direta com o sujeito social que pode efetivamente levar adiante essa revolu\u00e7\u00e3o. E esse sujeito social \u00e9 o proletariado, que, uma vez no poder, come\u00e7ar\u00e1 a executar as tarefas socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00f3s-guerra trouxe novos fatos, revolu\u00e7\u00f5es que expropriaram a burguesia sem que o sujeito social prolet\u00e1rio e o partido revolucion\u00e1rio estivessem presentes. Isso n\u00e3o estava previsto por Trotsky, mas s\u00e3o suas elabora\u00e7\u00f5es \u2013 em especial a \u201cLei do Desenvolvimento Desigual e Combinado\u201d e a hip\u00f3tese te\u00f3rica apresentada no <em>Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 que nos permitem interpretar tais acontecimentos. Foi a combina\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o objetiva insustent\u00e1vel (guerra, derrotas, crise financeira\u2026) com a press\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas que obrigou dire\u00e7\u00f5es da pequena burguesia, inclusive stalinistas, a ultrapassarem seu programa e expropriarem a burguesia. Essas revolu\u00e7\u00f5es questionam alguns aspectos das Teses da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, mas n\u00e3o a teoria em si. Nenhuma dessas revolu\u00e7\u00f5es foi liderada pela burguesia; pelo contr\u00e1rio, foi necess\u00e1rio tomar o poder e expropri\u00e1-la para cumprir as tarefas principais da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa \u2013 a independ\u00eancia nacional e o problema da terra. Como observou Moreno:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>A teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente \u00e9 muito mais abrangente do que as Teses escritas por Trotsky no final dos anos vinte; \u00e9 a teoria da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional que combina diferentes tarefas, etapas e tipos de revolu\u00e7\u00f5es na marcha rumo \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial. A realidade acabou sendo mais trotskista e permanente do que o pr\u00f3prio Trotsky e os trotskistas previram. Produziu combina\u00e7\u00f5es inesperadas: apesar das falhas do sujeito (ou seja, de que o proletariado em algumas revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi o protagonista principal) e do fator subjetivo (a crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, a fragilidade do trotskismo), a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial obteve triunfos importantes, chegou \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o, em muitos pa\u00edses, dos exploradores nacionais e estrangeiros, embora a dire\u00e7\u00e3o do movimento de massas tenha permanecido nas m\u00e3os de aparatos e dire\u00e7\u00f5es oportunistas e contrarrevolucion\u00e1rias. Se n\u00e3o reconhecermos esses fatos, abriremos margem para interpreta\u00e7\u00f5es revisionistas que se baseiem neles para negar o car\u00e1ter de classes e pol\u00edtico da teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente.<\/em>\u00bb (Tese 39 da Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o)<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, manteve-se o fio condutor da Teoria e das Teses: sem a classe oper\u00e1ria e o partido, mais cedo ou mais tarde a revolu\u00e7\u00e3o se paralisa e retrocede. Pode-se chegar at\u00e9 \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, mas, no fim, ela congela e retrocede. Se isso j\u00e1 era evidente em 1980, hoje a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China, Cuba, Vietn\u00e3 e em todo o Leste europeu est\u00e1 a\u00ed como a prova m\u00e1xima. A aus\u00eancia do proletariado na lideran\u00e7a e do partido revolucion\u00e1rio ocasionou que cada uma dessas vit\u00f3rias, em vez de avan\u00e7ar rumo \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do imperialismo em todo o planeta, fosse utilizada pelos aparatos burocr\u00e1ticos para frear, e at\u00e9 mesmo reverter, as conquistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, como afirma Moreno, a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente permanece viva e correta em sua ess\u00eancia, mantendo seu car\u00e1ter de classes e internacionalista: tal como Trotsky postulou, somente a classe oper\u00e1ria e o partido na lideran\u00e7a podem conduzir a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial at\u00e9 derrotar o imperialismo e estabelecer o socialismo em escala global.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O p\u00f3s-guerra e os efeitos sobre o trotskismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Esses acontecimentos do per\u00edodo p\u00f3s-guerra levaram a muitas revis\u00f5es no interior do trotskismo. \u00d3rf\u00e3os de dire\u00e7\u00e3o pelo assassinato de Trotsky, os jovens e inexperientes quadros que estavam \u00e0 frente da IV Internacional sucumbiram ao impressionismo, sob a press\u00e3o da esquerda de corte stalinista, fortalecida pelo triunfo contra o nazismo e pelo surgimento dos novos estados oper\u00e1rios burocr\u00e1ticos. Foi o momento em que Mao, Ho Chi Minh e, pouco depois, Fidel Castro, emergiram como refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que dizia o Secretariado Internacional da IV, sob a dire\u00e7\u00e3o de Pablo?<\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o era de que aquelas dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram contrarrevolucion\u00e1rias, mas sim dire\u00e7\u00f5es centristas que, como produto da press\u00e3o das massas, poderiam se tornar revolucion\u00e1rias. Essa mudan\u00e7a de 180\u00ba nas posi\u00e7\u00f5es da IV levou a uma profunda crise. Essa vis\u00e3o \u2013 que identificou o que se chamou de \u201cpablismo\u201d \u2013 foi combatida pela corrente de Moreno e pelo SWP dos EUA durante 1952-1953.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, o Secretariado Unificado (SU), formado em 1963 sob a dire\u00e7\u00e3o de Mandel, continuou a revis\u00e3o, atribuindo a dire\u00e7\u00f5es pequeno-burguesas, como o Partido Comunista chin\u00eas de Mao, e ao castrismo, um papel revolucion\u00e1rio, dando origem \u00e0 tend\u00eancia guerrilheira que foi enfrentada tanto por Moreno quanto pelo SWP.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, as posi\u00e7\u00f5es foram se alterando. A evolu\u00e7\u00e3o subsequente do SU unificou o mandelismo com o SWP, abandonando o crit\u00e9rio leninista para caracterizar as dire\u00e7\u00f5es por seu programa e car\u00e1ter de classe. Para eles, uma dire\u00e7\u00e3o da pequena burguesia ou stalinista pode se transformar em revolucion\u00e1ria. Confundiram o que era produto da combina\u00e7\u00e3o entre a radicaliza\u00e7\u00e3o das massas e uma situa\u00e7\u00e3o extrema de crise catastr\u00f3fica \u2013 guerras, etc. \u2013 que as impulsionava adiante, com um suposto car\u00e1ter revolucion\u00e1rio dessas dire\u00e7\u00f5es. Em especial, aplicaram esse crit\u00e9rio para definir o castrismo, do qual opinavam que, por n\u00e3o derivar do stalinismo, podia ser considerado uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria por estar \u00e0 frente de uma revolu\u00e7\u00e3o que expropriou a burguesia. Fidel Castro chegou a ser identificado por Novack como um dirigente igual ou superior a Lenin.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, outro setor do trotskismo, como Healy, da Inglaterra, e Lambert, da Fran\u00e7a, tomando as Teses da Permanente como uma esp\u00e9cie de \u201cb\u00edblia\u201d, n\u00e3o reconheceram essas revolu\u00e7\u00f5es como socialistas por terem expropriado as burguesias, tampouco reconheceram como tais os estados oper\u00e1rios formados a partir delas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O SWP rev\u00ea a teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente em rela\u00e7\u00e3o aos oprimidos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1960-1970, nos EUA, houve um grande ascenso do movimento das mulheres, liderado por diferentes correntes feministas, e um avan\u00e7o do movimento negro em prol dos direitos civis, contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial, em um contexto no qual n\u00e3o havia grandes lutas oper\u00e1rias. Frente a essa realidade, o SWP realizou uma revis\u00e3o te\u00f3rica muito profunda. Trabalhamos bastante com o material de Mary Alice Waters, mas a base te\u00f3rica \u00e9 de Novack.<\/p>\n\n\n\n<p>George Novack, em seu livro <em>Democracia e Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (1971), introduz conceitos que, na verdade, constituem uma revis\u00e3o global da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, ele afirma que a defesa da democracia contra seus inimigos levaria, por si s\u00f3, \u00e0 luta pelo socialismo, e que a estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria consiste em defender e expandir a democracia. No referido texto te\u00f3rico-hist\u00f3rico, ele explica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Hoje em dia, as classes m\u00e9dias urbanas e rurais declinaram em import\u00e2ncia econ\u00f4mica e social; os pequenos propriet\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e3o, por muito tempo, for\u00e7a independente suficiente para resistir a ataques frontais contra a democracia. H\u00e1 apenas uma for\u00e7a social com poder suficiente para defender a democracia contra o \u2018perigo claro e presente\u2019 da rea\u00e7\u00e3o capitalista. \u00c9 a classe oper\u00e1ria, que representa a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o. Os oper\u00e1rios brancos, os afro-americanos e os povos do Terceiro Mundo, a juventude radical, as mulheres que se rebelam contra seu status de \u2018segundo sexo\u2019 e os intelectuais e profissionais dissidentes formam uma falange de for\u00e7as que devem ser unidas em um \u00fanico front para defender a democracia.<\/em>\u201d (Como defender e expandir a democracia?, Cap\u00edtulo 12)<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo da afirma\u00e7\u00e3o de Trotsky de que h\u00e1 uma tend\u00eancia crescente ao fascismo e\/ou \u00e0 bonapartiza\u00e7\u00e3o da democracia burguesa, Novack apresenta um posicionamento program\u00e1tico geral (algo que Trotsky n\u00e3o fez): a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o permanente, em democracias como a dos EUA, \u00e9 lutar para defender a democracia de ataques em todas as suas dimens\u00f5es; a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas, contra a opress\u00e3o da mulher, contra o racismo e pelos direitos da juventude, devem ser o centro \u2013 e a chave \u00e9 radicaliz\u00e1-las at\u00e9 alcan\u00e7ar a ditadura do proletariado. O caminho para o socialismo passa, portanto, pela defesa e amplia\u00e7\u00e3o da democracia burguesa. Essa luta encaminharia diretamente para a conquista do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse conceito foi posteriormente aplicado pela dire\u00e7\u00e3o do SWP em sua resolu\u00e7\u00e3o sobre a luta das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conson\u00e2ncia com essa perspectiva, atribui a capacidade de dirigir a revolu\u00e7\u00e3o a todos os setores que sofrem opress\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o \u2013 a todos os oprimidos, que devem se unir em um \u00fanico <em>front<\/em> para defender a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Os marxistas abordam o problema de uma forma fundamentalmente distinta. Consideram a democracia burguesa n\u00e3o como um fim em si, mas como uma etapa na evolu\u00e7\u00e3o da soberania popular, cujas conquistas progressistas precisam ser preservadas. Contudo, essas conquistas est\u00e3o constantemente amea\u00e7adas pela crescente domina\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria dos ricos, durante o decl\u00ednio do capitalismo. S\u00f3 podem ser mantidas e expandidas atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o independente das massas oper\u00e1rias e de todos os oprimidos contra os monopolistas e os militaristas, que devem ser direcionadas, em \u00faltima an\u00e1lise, para despojar os primeiros do poder.<\/em>\u00bb (Novack, op.cit.)<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa perspectiva, defende-se que o sujeito social n\u00e3o \u00e9 exclusivamente a classe oper\u00e1ria, mas uma soma dos sujeitos dos movimentos de massas democr\u00e1ticos \u2013 sem distin\u00e7\u00e3o de classes \u2013 que englobam o movimento negro, das mulheres, da juventude e, inclusive, a pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esse motivo, rejeita-se o crit\u00e9rio de classe da Teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, conforme proposto por Moreno na Tese 39 da <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>\u2026 a dire\u00e7\u00e3o do SWP est\u00e1 engajada em outro ataque \u00e0 teoria trotskista da revolu\u00e7\u00e3o permanente. Para esta nova teoria do SWP, o proletariado ou o trotskismo n\u00e3o s\u00e3o essenciais para o cont\u00ednuo desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o permanente. Eles s\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, um ingrediente a mais. A nova teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente defendida pela atual dire\u00e7\u00e3o do SWP \u00e9 a teoria dos movimentos unit\u00e1rios progressistas dos oprimidos, e n\u00e3o do proletariado e do trotskismo. Todo movimento de oprimidos \u2013 se for unit\u00e1rio e englobar o conjunto destes, ainda que sejam de classes diferentes \u2013 \u00e9, por si s\u00f3, cada vez mais permanente e conduz inevitavelmente \u2013 sem diferencia\u00e7\u00f5es de classe ou pol\u00edticas \u2013 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista nacional e internacional. Essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa, particularmente, em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos negro e da mulher. Todas as mulheres s\u00e3o oprimidas, assim como todos os negros; se se conseguir mobilizar um movimento que una esses setores oprimidos, essa mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessar\u00e1 e os conduzir\u00e1, atrav\u00e9s de diferentes etapas, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/em>\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>\u2026 Para o SWP, o socialismo \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de diferentes movimentos multitudin\u00e1rios \u2013 sem distin\u00e7\u00e3o de classes \u2013 de import\u00e2ncia semelhante: o movimento negro, o feminino, o oper\u00e1rio, o juvenil, o dos idosos, que quase que pacificamente conduzem ao triunfo do socialismo. Se todas as mulheres marcharem juntas, isso representa 50% do pa\u00eds; se o mesmo ocorrer com os jovens (70% em alguns pa\u00edses latino-americanos, al\u00e9m dos oper\u00e1rios, negros e camponeses), a combina\u00e7\u00e3o desses movimentos far\u00e1 com que a burguesia seja encurralada \u2013 em um pequeno espa\u00e7o \u2013 pois ser\u00e3o os adultos burgueses, homens brancos, os que se opor\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o permanente. \u00c9 a teoria de Bernstein combinada com a revolu\u00e7\u00e3o permanente: o movimento \u00e9 tudo e a classe e os partidos nada. Essa teoria rapidamente se transforma em um humanismo anticlassista, que reivindica a pr\u00e1xis como categoria fundamental, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de classes como motor da hist\u00f3ria. N\u00f3s \u2013 em confronto com o SWP \u2013 devemos, mais do que nunca, reafirmar o car\u00e1ter de classes e trotskista da revolu\u00e7\u00e3o permanente. Nenhum setor burgu\u00eas ou reformista nos acompanhar\u00e1 no processo da revolu\u00e7\u00e3o permanente. Em algumas conjunturas excepcionais, quando a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o representar uma amea\u00e7a \u00e0 burguesia e \u00e0 propriedade privada, poder\u00e3o marchar juntos jovens burgueses e oper\u00e1rios, mulheres burguesas e oper\u00e1rias, negros oportunistas e revolucion\u00e1rios; mas essa marcha conjunta ser\u00e1 excepcional e n\u00e3o permanente. N\u00f3s continuamos a defender, de forma intransigente, a ess\u00eancia \u2013 tanto da teoria quanto das pr\u00f3prias Teses \u2013 da revolu\u00e7\u00e3o permanente: somente o proletariado liderado por um partido trotskista pode conduzir de maneira consistente, at\u00e9 o fim, a revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional e, por conseguinte, a revolu\u00e7\u00e3o permanente. Apenas o trotskismo pode impulsionar a mobiliza\u00e7\u00e3o permanente da classe oper\u00e1ria e de seus aliados, principalmente os oper\u00e1rios.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A posi\u00e7\u00e3o do SWP e suas propostas para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Relacionada a essa revis\u00e3o te\u00f3rica, surge tamb\u00e9m a revis\u00e3o do conceito de opress\u00e3o e a proposta do movimento unificado das mulheres, articulada por Mary Alice Waters. Em <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Socialista e a Luta pela Liberta\u00e7\u00e3o da Mulher<\/em>, Waters afirma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A opress\u00e3o da mulher \u00e9 indispens\u00e1vel para a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade de classes. Portanto, a luta de massas das mulheres contra essa opress\u00e3o \u00e9 uma forma de combater a domina\u00e7\u00e3o capitalista. As mulheres s\u00e3o um componente importante e um poderoso aliado potencial da classe oper\u00e1ria na luta contra o capitalismo\u2026 Sem a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas das mulheres, a classe oper\u00e1ria n\u00e3o pode realizar suas tarefas hist\u00f3ricas.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o apoio \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um movimento feminista aut\u00f4nomo passa a fazer parte da estrat\u00e9gia do partido revolucion\u00e1rio da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Waters parte de uma defini\u00e7\u00e3o equivocada: que a opress\u00e3o da mulher \u00e9 indispens\u00e1vel para a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista \u2013 tema que ser\u00e1 abordado mais adiante. Por outro lado, ela encara o conjunto das mulheres como aliadas da classe oper\u00e1ria, defendendo que as lutas pelas tarefas democr\u00e1ticas, por si s\u00f3s, conduzem \u00e0 tomada do poder. E se as mulheres, em conjunto, sem distin\u00e7\u00e3o de classe, s\u00e3o consideradas o sujeito social de uma importante luta democr\u00e1tica, \u00e9 estrat\u00e9gica a forma\u00e7\u00e3o de um movimento feminista unificado \u2013 o que remete \u00e0 proposta da <em>Irmandade de Mulheres<\/em>, defendida pelas feministas radicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o contrasta com a da dirigente revolucion\u00e1ria Clara Zetkin, que impulsionou as a\u00e7\u00f5es e as resolu\u00e7\u00f5es acerca da mulher na II e, posteriormente, na III Internacional. Em <em>A Contribui\u00e7\u00e3o da mulher oper\u00e1ria \u00e9 indispens\u00e1vel para a vit\u00f3ria do socialismo<\/em>, Zetkin afirmava:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>O objetivo final da luta da mulher n\u00e3o \u00e9 competir livremente com o homem, mas conquistar o poder pol\u00edtico pelo proletariado. A mulher oper\u00e1ria luta lado a lado com o homem de sua classe contra a sociedade capitalista. Isso n\u00e3o significa que ela n\u00e3o deva apoiar tamb\u00e9m as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento feminino burgu\u00eas. Mas a conquista dessas reivindica\u00e7\u00f5es representa apenas um instrumento, um meio para um fim \u2013 para entrar na luta com as mesmas armas ao lado do proletariado. \u2026 A mulher oper\u00e1ria posiciona-se ao lado do proletariado, enquanto a burguesa fica do lado da burguesia.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devemos nos deixar enganar pelas tend\u00eancias socialistas presentes no movimento feminino burgu\u00eas: essas se manifestar\u00e3o enquanto as mulheres burguesas se sentirem oprimidas, mas n\u00e3o al\u00e9m disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 80, o SU incorporou e passou a defender essa vis\u00e3o elaborada pelo SWP, aprofundando-a e acolhendo as posi\u00e7\u00f5es das feministas radicais. Em 1989, a ent\u00e3o se\u00e7\u00e3o do SU, a LCR espanhola, desenvolveu as teses intituladas \u201cA Rebeli\u00e3o das Mulheres\u201d. Para elas, a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a soma de lutas democr\u00e1ticas que s\u00e3o, por si s\u00f3, anticapitalistas se forem levadas de forma radical e independente da classe e de sua dire\u00e7\u00e3o \u2013 seja ecol\u00f3gica, feminista, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas defendem que a opress\u00e3o \u201c<em>da mulher \u00e9 exercida de forma individualizada pelos \u2018homens\u2019 em conjunto<\/em>\u201d, e a esse conjunto de rela\u00e7\u00f5es denomina-se patriarcado, alinhando-se com a posi\u00e7\u00e3o das feministas radicais, conforme analisado no semin\u00e1rio e no artigo de Florence Oppen desta revista.<\/p>\n\n\n\n<p>O sujeito social da liberta\u00e7\u00e3o das mulheres seria \u201cas mulheres\u201d, isto \u00e9, todas, sem distin\u00e7\u00e3o de classe: \u201c<em>O movimento feminista surge como express\u00e3o do despertar da consci\u00eancia de muitas mulheres e se configura como o sujeito determinante na luta por sua liberta\u00e7\u00e3o\u201d (p. 3), considerando-as parte do conjunto dos setores que se unir\u00e3o at\u00e9 o final na luta pelo socialismo, dos quais estaria inclu\u00edda a classe oper\u00e1ria. (Tese 14: \u2026 Al\u00e9m disso, existem outros movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, e particularmente a classe oper\u00e1ria, que para alcan\u00e7ar seus objetivos tamb\u00e9m deve propor a destrui\u00e7\u00e3o do Estado\u2026 Tese 15: \u201ctamb\u00e9m o car\u00e1ter estrat\u00e9gico do movimento feminista, seu papel central na transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d. <em>Tese 16: \u201cAs mulheres s\u00e3o o sujeito de sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o\u2026\u201d<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, para a LCR e o SU, existem v\u00e1rios movimentos \u2013 o das mulheres, o da classe oper\u00e1ria e outros que se somam na luta anticapitalista. Para a LCR, a classe oper\u00e1ria \u00e9 apenas parte desse processo, por mais importante que seja. Contudo, de forma categ\u00f3rica, seu papel n\u00e3o \u00e9 o de liderar, mas o de se aliar a qualquer outro setor. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia \u00e0 divis\u00e3o de classes dentro do universo feminino. O movimento feminista deve ser aut\u00f4nomo do Estado e dos demais movimentos, inclusive do movimento oper\u00e1rio e do partido; consequentemente, o papel do partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 liderar nem combater as dire\u00e7\u00f5es pequeno-burguesas, mas apenas participar ativamente do movimento aut\u00f4nomo das mulheres \u2013 e ponto final.<\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos no semin\u00e1rio, n\u00e3o estamos apenas relembrando pol\u00eamicas dos anos 70 e 80 do s\u00e9culo XX. Essas posi\u00e7\u00f5es continuam sendo defendidas hoje por organiza\u00e7\u00f5es trotskistas, como o FSP (Freedom Socialist Party) dos EUA, o que mant\u00e9m a atualidade desse debate.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O car\u00e1ter das tarefas para a liberta\u00e7\u00e3o da mulher e o que pode ser alcan\u00e7ado antes da tomada do poder<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Esses dois temas tamb\u00e9m foram objeto de debate entre os marxistas no semin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou claro que as lutas contra a opress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o, em si, tarefas anticapitalistas, mas tarefas democr\u00e1ticas. Ou seja, o capitalismo n\u00e3o se estrutura em torno da opress\u00e3o da mulher. As reivindica\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 igualdade feminina s\u00e3o demandas democr\u00e1ticas que ficaram pendentes. Algumas delas foram conquistadas ao longo do s\u00e9culo XX e continuam em aberto no s\u00e9culo XXI, ainda que permeadas por muitas desigualdades. Referimo-nos a quest\u00f5es democr\u00e1ticas como o direito de voto, a guarda dos filhos, o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 propriedade, ao div\u00f3rcio, ao aborto, em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o semin\u00e1rio deixou claro que a luta contra a opress\u00e3o da mulher \u00e9 milenar e que a burguesia, mesmo tendo contribu\u00eddo para o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e criado as condi\u00e7\u00f5es ao incorporar massivamente a mulher ao mercado de trabalho, foi incapaz de resolver a quest\u00e3o \u2013 nem mesmo nos pa\u00edses imperialistas. \u00c9 decisivo compreender que isso tem a ver com o que prop\u00f5e a Revolu\u00e7\u00e3o Permanente: na \u00e9poca imperialista, a burguesia \u00e9 incapaz de concluir at\u00e9 o fim qualquer uma das tarefas democr\u00e1ticas que ficaram pendentes da revolu\u00e7\u00e3o burguesa \u2013 e isso inclui a opress\u00e3o da mulher, que subjuga metade da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso reafirmar que, ainda mais na \u00e9poca imperialista, a burguesia dos pa\u00edses perif\u00e9ricos \u00e9 incapaz de cumprir as tarefas democr\u00e1ticas. Essa incapacidade, segundo Trotsky, tem dois motivos centrais: a) a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica das burguesias com o imperialismo; b) o receio de colocar as massas, especialmente a classe oper\u00e1ria, em movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa incapacidade mencionada por Trotsky est\u00e1 relacionada \u00e0 conclus\u00e3o das tarefas democr\u00e1ticas. Contudo, a burguesia foi obrigada, em certas circunst\u00e2ncias, a adotar medidas parciais para frear grandes movimentos revolucion\u00e1rios. Por exemplo, \u00e9 do interesse de alguns setores burgueses que exista um mercado interno unificado e medidas protecionistas contra concorrentes internacionais. Houve processos de industrializa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e nacionaliza\u00e7\u00f5es \u2013 parciais ou n\u00e3o \u2013 de recursos minerais. Tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina, conhecida por seus golpes de estado recorrentes, em determinado momento, utilizou-se a rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica para desviar o avan\u00e7o revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0 opress\u00e3o da mulher, verifica-se uma din\u00e2mica semelhante: a burguesia \u00e9 incapaz de resolver a opress\u00e3o da mulher, assim como n\u00e3o consegue solucionar o problema do racismo, pois o capitalismo absorve todas as opress\u00f5es, utilizando as diferentes situa\u00e7\u00f5es de privil\u00e9gios e desvantagens para explorar melhor os trabalhadores e os povos. Esse processo de aproveitar as desigualdades atinge seu \u00e1pice na fase decadente do capitalismo \u2013 o imperialismo \u2013 que se vale de todas as diferen\u00e7as raciais, sexuais, nacionais, para explorar ainda mais. Contudo, isso n\u00e3o impede que, diante da radicaliza\u00e7\u00e3o e das lutas, a burguesia e o imperialismo possam fazer concess\u00f5es, em especial na esfera de reivindica\u00e7\u00f5es formais, como o div\u00f3rcio, a igualdade perante a lei, a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Como vimos, essas demandas podem ser atendidas sem que o capitalismo esteja em risco. Al\u00e9m disso, sempre que s\u00e3o feitas esse tipo de concess\u00f5es legais, tenta-se incorporar e cooptar setores de mulheres com a promessa de se alcan\u00e7ar a igualdade legal dentro do pr\u00f3prio sistema capitalista. Por exemplo, o direito de voto j\u00e1 existe na grande maioria dos pa\u00edses e, ent\u00e3o, surge a convoca\u00e7\u00e3o para a \u2018participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3\u2019 das mulheres, como caminho para superar a opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o pano de fundo do chamado <em>empoderamento<\/em>, das pol\u00edticas de \u2018g\u00eanero\u2019 que dizem \u00e0s mulheres que basta que se conscientizem de seus direitos, eduquem-se e proponham-se a assumir as tarefas dos homens, para conquistar a igualdade e acabar com a viol\u00eancia contra a mulher, entre outras reivindica\u00e7\u00f5es. Com esse objetivo, faz-se propaganda utilizando como exemplos mulheres que s\u00e3o ministras ou presidentes de pa\u00edses, como Merkel, Dilma ou Cristina Kirchner. Tamb\u00e9m est\u00e3o presentes campanhas da ONU que abordam g\u00eanero e o progresso da mulher. Todas essas iniciativas mascaram o fato de que, para a imensa maioria das mulheres \u2013 as trabalhadoras e as donas de casa dos lares oper\u00e1rios \u2013 a situa\u00e7\u00e3o piora a cada dia, e esse \u00e9 um sonho totalmente inalcan\u00e7\u00e1vel sob o capitalismo. Pois o imperialismo, a cada dia, ataca mais as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, e as mulheres s\u00e3o as que mais sofrem com o desemprego, a fome, o colapso dos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, entre outros problemas graves.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de tudo isso, houve consenso de que a explora\u00e7\u00e3o capitalista divide os oprimidos e, portanto, \u00e9 equivocado considerar as mulheres como um sujeito social \u00fanico na luta contra a opress\u00e3o. Assim, a opress\u00e3o da mulher faz parte das tarefas democr\u00e1ticas \u2013 das demandas que ficaram pendentes da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u2013 e essa quest\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser plenamente resolvida com a tomada do poder em cada pa\u00eds e, mais precisamente, com a derrota definitiva do imperialismo e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo mundial e do comunismo. Assim como em outras quest\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o solucionadas, reafirmamos que o sujeito social \u00e9 o proletariado e o sujeito pol\u00edtico \u00e9 o partido revolucion\u00e1rio, oper\u00e1rio e internacionalista. Do mesmo modo, defendemos que, para avan\u00e7ar rumo ao socialismo, \u00e9 fundamental enfrentar cotidianamente a luta contra a opress\u00e3o da mulher, pois a opress\u00e3o divide a classe oper\u00e1ria, sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Hierarquia das tarefas democr\u00e1ticas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o debatida foi se todas as tarefas democr\u00e1ticas abandonadas pela burguesia t\u00eam a mesma hierarquia ou se, para a Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, existem hierarquias diferenciadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas: existe essa diferencia\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica. Como afirmam as Teses da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e o artigo de pol\u00eamica com Tony Cliff e o SWP da Inglaterra, de Florence Oppen, h\u00e1 tr\u00eas grandes tarefas democr\u00e1ticas hist\u00f3ricas, resumidas da seguinte forma por Michel L\u00f6wy:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 <strong>A revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria democr\u00e1tica:<\/strong> a aboli\u00e7\u00e3o corajosa e definitiva de todos os resqu\u00edcios de escravid\u00e3o, feudalismo e regimes asi\u00e1ticos desp\u00f3ticos, a elimina\u00e7\u00e3o de todas as formas pr\u00e9-capitalistas de explora\u00e7\u00e3o (como a corveia \u2013 trabalho penoso \u2013, trabalho for\u00e7ado etc.) e a expropria\u00e7\u00e3o dos grandes latifundi\u00e1rios, com a distribui\u00e7\u00e3o da terra para os camponeses.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 <strong>A liberta\u00e7\u00e3o nacional:<\/strong> a unifica\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o e sua emancipa\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o imperialista; a cria\u00e7\u00e3o de um mercado nacional unificado e sua prote\u00e7\u00e3o contra mercadorias estrangeiras mais baratas; o controle de determinados recursos naturais estrat\u00e9gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022 <strong>A democracia:<\/strong> para Trotsky, isso inclu\u00eda n\u00e3o s\u00f3 o estabelecimento de liberdades democr\u00e1ticas, uma rep\u00fablica democr\u00e1tica e o fim dos governos militares, mas tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais e culturais que permitissem a participa\u00e7\u00e3o popular na vida pol\u00edtica \u2013 por exemplo, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para oito horas e a amplia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno acrescenta que a \u00fanica dessas tarefas que \u00e9 estrutural \u2013 cuja conquista ataca a estrutura da domina\u00e7\u00e3o na \u00e9poca atual \u2013 \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o nacional, o que decorre, em sua pr\u00f3pria teoria do imperialismo, do fato de que a domina\u00e7\u00e3o colonial e semicolonial \u00e9 parte estrutural da domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do imperialismo, da fase atual do capitalismo mundial. Acreditamos que Moreno est\u00e1 correto, e isso tem a ver com a fase monopolista do capitalismo, com o fato de que um n\u00famero cada vez menor de pot\u00eancias imperialistas exerce domina\u00e7\u00e3o, que houve a submiss\u00e3o dos antigos Estados oper\u00e1rios, que pa\u00edses imperialistas passam a dominar, que as invas\u00f5es e guerras coloniais continuaram durante todo o s\u00e9culo XX e se estendem pelo s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Qual deve ser, ent\u00e3o, a posi\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tarefas democr\u00e1ticas de luta contra a opress\u00e3o da mulher?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, devemos encar\u00e1-las como fundamentais, pois, como afirma Lenin, se os revolucion\u00e1rios n\u00e3o se apresentarem como aqueles que mais lutam por cada uma das reivindica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conquistar\u00e3o a confian\u00e7a nem conseguir\u00e3o atrair as massas oprimidas para o campo da revolu\u00e7\u00e3o. Pois, ao impulsionar a luta contra a opress\u00e3o das mulheres, abrem-se as portas para mobilizar amplos contingentes de mulheres trabalhadoras e atra\u00ed-las para o campo do proletariado. Al\u00e9m disso, como o machismo e a opress\u00e3o dividem a classe oper\u00e1ria, \u00e9 imprescind\u00edvel a sua uni\u00e3o para a conquista do triunfo revolucion\u00e1rio. Por isso, temos que convocar, de maneira ampla, o proletariado para assumir as bandeiras dos oprimidos \u2013 das mulheres, dos negros, dos ind\u00edgenas, dos imigrantes e dos LGBT.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 parte fundamental da luta para que a classe oper\u00e1ria torne-se a l\u00edder de todos os setores oprimidos. Queremos que ela seja o dirigente dos camponeses pobres, dos setores populares urbanos e das minorias perseguidas.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0 opress\u00e3o da mulher, assumir esse combate de forma profunda implica travar uma batalha permanente contra as dire\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es que propagam a influ\u00eancia burguesa, um combate com orienta\u00e7\u00e3o de classe, para conquistar a ades\u00e3o das mulheres trabalhadoras e traz\u00ea-las para o lado da classe oper\u00e1ria. Atualmente, quando a burguesia adota retoricamente essas bandeiras e at\u00e9 tenta capitalizar algumas medidas conquistadas no campo democr\u00e1tico, essa luta se torna ainda mais importante para enfrentar ideologias como o empoderamento, as teorias de g\u00eanero e a colabora\u00e7\u00e3o de classes. \u00c9 necess\u00e1ria uma luta implac\u00e1vel contra essas concep\u00e7\u00f5es feministas, a fim de conquistar a ades\u00e3o das mulheres trabalhadoras e exploradas para se unirem \u00e0 classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Determinar que as tarefas contra a opress\u00e3o da mulher s\u00e3o de car\u00e1ter democr\u00e1tico (e, portanto, policl\u00e1ssicas, como alerta Clara Zetkin, j\u00e1 que nelas interv\u00eam diferentes classes que sofrem essa opress\u00e3o) n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia dessa luta; pelo contr\u00e1rio, essa precis\u00e3o a fortalece, pois nos assegura que s\u00f3 podemos avan\u00e7ar na resolu\u00e7\u00e3o dessa quest\u00e3o se a enquadrarmos na perspectiva da luta do proletariado pela destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e do imperialismo, pelo poder da classe oper\u00e1ria, no caminho do socialismo e do comunismo \u2013 a \u00fanica forma de libertar a humanidade de toda explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Em nosso semin\u00e1rio sobre a opress\u00e3o da mulher, em dezembro de 2014, ocorreu uma rica discuss\u00e3o e algumas controv\u00e9rsias acerca da teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e de sua articula\u00e7\u00e3o com as lutas dos oprimidos. Nestes artigos, procuramos resumir a nossa interven\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio. Por Jos\u00e9 Welmowicki e Alicia Sagra A Revolu\u00e7\u00e3o Permanente \u00e9 fundamental [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8581,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-8387","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sobre-a-luta-dos-oprimidos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8387","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8387"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8387\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}