{"id":8396,"date":"2025-03-31T12:58:14","date_gmt":"2025-03-31T12:58:14","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8396"},"modified":"2025-03-31T12:58:14","modified_gmt":"2025-03-31T12:58:14","slug":"as-contribuicoes-de-engelsao-marxismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/03\/31\/as-contribuicoes-de-engelsao-marxismo\/","title":{"rendered":"As contribui\u00e7\u00f5es de Engels ao marxismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Um amplo leque de correntes e intelectuais centra seus ataques no legado te\u00f3rico de Friedrich Engels ao marxismo. Parte dessa campanha inclui muitos que se reivindicam marxistas. Diante do nocivo mecanicismo stalinista, prop\u00f5em um \u201cretorno\u201d \u00e0s origens do pensamento de Marx, como uma esp\u00e9cie de \u201cvacina\u201d contra tudo que possa parecer determinismo, econ\u00f4mico ou natural. Como afirma Nahuel Moreno: \u201c<em>todas as correntes revisionistas modernas atacam a Engels em nome do marxismo<\/em>\u201d. <sup data-fn=\"a75f691c-c0d9-4951-b717-08c8b86e065b\" class=\"fn\"><a id=\"a75f691c-c0d9-4951-b717-08c8b86e065b-link\" href=\"\/#a75f691c-c0d9-4951-b717-08c8b86e065b\">1<\/a><\/sup> Devido ao imenso prestigio de Marx, o alvo escolhido foi Engels, que lhes pareceu um alvo menos dif\u00edcil de atingir, apesar de ser um dos pais do pr\u00f3prio marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em seus \u00faltimos anos, Engels foi um deformador da obra de Marx? Foi um determinista? Sua aplica\u00e7\u00e3o do materialismo dial\u00e9tico \u00e0 natureza constitui uma extrapola\u00e7\u00e3o indevida de uma dial\u00e9tica que se aplica unicamente \u00e0 sociedade? Sua vis\u00e3o sobre o tema preparou o terreno para a degenera\u00e7\u00e3o da II Internacional e para o stalinismo? Engels terminou caindo numa l\u00f3gica positivista, isto \u00e9, numa vis\u00e3o de que o progresso da sociedade ocorre a partir de uma crescente incorpora\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia em seu seio?<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00eamica ao redor desses assuntos tem mais de um s\u00e9culo; s\u00e3o temas recorrentes sempre que se discute a figura de Engels. Por isso, vamos aqui sistematizar os principais questionamentos que foram surgindo, ainda que n\u00e3o seja poss\u00edvel incluir todos. Entre os cr\u00edticos mais conhecidos est\u00e3o Luk\u00e1cs e v\u00e1rios de seus seguidores, alguns dos principais fil\u00f3sofos da Escola de Frankfurt (como Herbert Marcuse), Jean Paul Sartre, e correntes como os chamados \u201cmarxistas humanistas\u201d, oriunda da Tend\u00eancia Johnson-Forrest (pseud\u00f4nimos de C.R.L. James e Raya Dunayevskaia, respectivamente), uma cis\u00e3o do antigo SWP norte-americano na d\u00e9cada de 1950, assim como boa parte dos intelectuais que, embora se reivindiquem marxistas, n\u00e3o defendem a revolu\u00e7\u00e3o socialista, mas apenas a radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, n\u00e3o partiremos do zero, porque j\u00e1 existe uma pol\u00eamica desenvolvida contra intelectuais anti-engelsistas. Rosa Luxemburgo, Lenin e Trotsky, durante toda sua vida apoiaram-se explicitamente nas elabora\u00e7\u00f5es de Marx e Engels, e defenderam-nas contra os revisionistas da II Internacional e contra o stalinismo no caso de Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<p>Como essa pol\u00eamica n\u00e3o \u00e9 nova, muitos autores estudaram a obra de Engels e demonstraram sua identidade com o pensamento de Marx, come\u00e7ando por David Riazanov. Mais recentemente, autores como Nahuel Moreno <sup data-fn=\"29bb0345-0997-4856-a112-b7ead5d4e670\" class=\"fn\"><a id=\"29bb0345-0997-4856-a112-b7ead5d4e670-link\" href=\"\/#29bb0345-0997-4856-a112-b7ead5d4e670\">2<\/a><\/sup>, John Rees <sup data-fn=\"9f76e1be-0ca5-4afc-b930-fa7f275ecc76\" class=\"fn\"><a id=\"9f76e1be-0ca5-4afc-b930-fa7f275ecc76-link\" href=\"\/#9f76e1be-0ca5-4afc-b930-fa7f275ecc76\">3<\/a><\/sup> e o economista marxista Michael Roberts tamb\u00e9m se posicionaram nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre estas contribui\u00e7\u00f5es, uma muito importante foi a do f\u00edsico-qu\u00edmico Robert Havemann, que viveu na Alemanha Oriental, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o materialismo dial\u00e9tico e as ci\u00eancias.<br>Havemann foi um cientista defensor do marxismo e tamb\u00e9m um ativista pol\u00edtico contra o regime vigente. Ele se enfrentava no campo te\u00f3rico com a concep\u00e7\u00e3o stalinista da burocracia da RDA e do Kremlin nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O primeiro ataque: Luk\u00e1cs<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das primeiras vozes nas fileiras marxistas a questionar Engels, argumentando contra a utiliza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo dial\u00e9tico para analisar a natureza, foi o fil\u00f3sofo h\u00fangaro Georg Luk\u00e1cs. Seus primeiros coment\u00e1rios cr\u00edticos aos conceitos de Engels sobre a rela\u00e7\u00e3o entre homem e natureza aparecem no livro <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, publicado em 1923. No artigo \u201cO que \u00e9 o marxismo ortodoxo?\u201d, inclu\u00eddo no livro, ele afirma numa nota de rodap\u00e9, em que fica mais claro o questionamento a Engels.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Esta limita\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo \u00e0 realidade hist\u00f3rico-social \u00e9 muito importante. Os mal-entendidos que o modo engelsiano de expor a dial\u00e9tica tem causado derivam essencialmente do fato de Engels &#8211; seguindo o mau exemplo de Hegel &#8211; ter estendido o m\u00e9todo dial\u00e9tico ao conhecimento dos natureza; sendo assim as determina\u00e7\u00f5es decisivas da dial\u00e9tica; a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre sujeito e objeto, unidade de teoria e pr\u00e1tica, modifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do substrato das categorias como base de sua modifica\u00e7\u00e3o no pensamento, etc., n\u00e3o s\u00e3o encontrados no conhecimento da natureza. Infelizmente, n\u00e3o tenho espa\u00e7o para discutir essas quest\u00f5es em detalhes<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"abf16a39-5281-4beb-a606-661e255ea760\" class=\"fn\"><a id=\"abf16a39-5281-4beb-a606-661e255ea760-link\" href=\"\/#abf16a39-5281-4beb-a606-661e255ea760\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Para Luk\u00e1cs, Engels ignora a quest\u00e3o da dial\u00e9tica sujeito-objeto no processo hist\u00f3rico, segundo ele essencial ao marxismo. Essa determina\u00e7\u00e3o, de acordo com essa leitura, levaria a retirar do m\u00e9todo dial\u00e9tico a quest\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, sua dimens\u00e3o pr\u00e1tica-revolucion\u00e1ria, e isso acarretaria uma volta ao materialismo contemplativo, ao estilo de Feuerbach. Ou seja, a busca de uma dial\u00e9tica que ligasse a hist\u00f3ria humana \u00e0 hist\u00f3ria natural seria incorreta. Por isso, Luk\u00e1cs acusava Engels de obscurecer a dial\u00e9tica autenticamente revolucion\u00e1ria de Marx. <sup data-fn=\"8d78eecd-dd74-4025-9782-04b24a1d6509\" class=\"fn\"><a id=\"8d78eecd-dd74-4025-9782-04b24a1d6509-link\" href=\"\/#8d78eecd-dd74-4025-9782-04b24a1d6509\">5<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a realidade n\u00e3o pode ser separada em planos ou compartimentos intranspon\u00edveis, sujeitos a leis completamente diferentes, pois se um desses planos \u00e9 considerado \u201creal\u201d, que nome poderia ser dado aos demais? Se existe um plano que n\u00e3o pertence \u00e0quilo que \u00e9 real, s\u00f3 pode ser algo irreal, algo que n\u00e3o est\u00e1 no mundo objetivo e s\u00f3 tem significado enquanto obra da imagina\u00e7\u00e3o; portanto, a ideia criaria um outro mundo, e reca\u00edmos no idealismo. Ou seja, se a natureza forma uma totalidade, na qual est\u00e1 contemplada o mundo objetivo \u2013 e a humanidade faz parte dele \u2013, n\u00e3o h\u00e1 sentido em isolar a humanidade ou isolar a natureza, vendo seu desenvolvimento em oposi\u00e7\u00e3o ao homem e \u00e0 sociedade. Por isso, \u00e9 um erro ver a dial\u00e9tica \u201csomente\u201d na sociedade, n\u00e3o na natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parte do chamado \u201cmarxismo ocidental\u00bb <sup data-fn=\"e102dc9d-c549-419e-a0de-cea429cab700\" class=\"fn\"><a id=\"e102dc9d-c549-419e-a0de-cea429cab700-link\" href=\"\/#e102dc9d-c549-419e-a0de-cea429cab700\">6<\/a><\/sup> posteriormente iria al\u00e9m e negaria completamente a exist\u00eancia de uma dial\u00e9tica na natureza. Isto leva diretamente ao idealismo filos\u00f3fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, se a natureza \u00e9 alheia \u00e0 dial\u00e9tica, se ela n\u00e3o tem um desenvolvimento atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, e s\u00f3 quem tem uma hist\u00f3ria \u00e9 a humanidade, isso significa que existem duas esferas paralelas e isoladas: a sociedade humana, que tem hist\u00f3ria, e a natureza <sup data-fn=\"03a3025c-0f0d-4ba2-826b-27147ff989fc\" class=\"fn\"><a id=\"03a3025c-0f0d-4ba2-826b-27147ff989fc-link\" href=\"\/#03a3025c-0f0d-4ba2-826b-27147ff989fc\">7<\/a><\/sup>. Assim, a humanidade estaria se movendo em base a leis pr\u00f3prias de sua esfera. E a natureza, por n\u00e3o possuir tais leis, seria est\u00e1tica e teria surgido de alguma origem\/causa externa \u2013 o que era a convic\u00e7\u00e3o de Hegel. Lembremos que Hegel defendia que a ideia era a geradora da realidade objetiva (por isso, Lenin chama sua concep\u00e7\u00e3o de \u201cidealismo objetivo\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>As teorias cient\u00edficas sobre a evolu\u00e7\u00e3o do sistema solar e dos planetas, assim como a teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de Darwin, d\u00e3o base uma vis\u00e3o dial\u00e9tica da natureza, independente da a\u00e7\u00e3o humana at\u00e9 seu surgimento. A partir do surgimento da humanidade passa a haver uma intera\u00e7\u00e3o em que o ser humano, diferentemente dos demais animais, atua sobre o mundo real, tal como ele \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica de Luk\u00e1cs n\u00e3o teve grande repercuss\u00e3o imediata e ele se retratou depois, quando aderiu ao stalinismo. Mais tarde, em textos como <em>Proleg\u00f4menos para uma Ontologia do ser social<\/em>, publicado postumamente, voltou a fazer cr\u00edticas \u00e0s formula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de Engels, embora reivindicando seu papel na elabora\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o importante aqui n\u00e3o \u00e9 seguir todo o percurso te\u00f3rico de Luk\u00e1cs, com suas idas e vindas. O central \u00e9 entender que essa cr\u00edtica do jovem Luk\u00e1cs inaugurou uma linha de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de Engels, assumida depois por v\u00e1rios intelectuais, lukacsianos ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Outros cr\u00edticos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A maioria dos \u201cmarxistas ocidentais\u201d inspira-se nessa cr\u00edtica para considerar o materialismo dial\u00e9tico e o materialismo hist\u00f3rico, al\u00e9m do conceito de socialismo cient\u00edfico, como parte de uma vis\u00e3o determinista, atribu\u00edda a Engels, e n\u00e3o a Marx (ou pelo menos n\u00e3o ao jovem Marx). <sup data-fn=\"f96aca1b-d818-47f2-918d-2eefb68ced6c\" class=\"fn\"><a id=\"f96aca1b-d818-47f2-918d-2eefb68ced6c-link\" href=\"\/#f96aca1b-d818-47f2-918d-2eefb68ced6c\">8<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A Escola de Frankfurt ficou conhecida no per\u00edodo p\u00f3s-guerra, quando defendeu que houve um desvio do marxismo ap\u00f3s os <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos de 1844<\/em>, onde est\u00e1 o texto \u00abO Trabalho Alienado\u00bb, considerado por Erich Fromm como o texto central da \u201cconcep\u00e7\u00e3o marxista do homem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns deles, ap\u00f3s este texto, Marx e em particular Engels teriam supostamente abandonado o \u201chumanismo\u201d e ca\u00eddo numa vis\u00e3o cientificista. Coerente com essa revis\u00e3o, alguns dos cr\u00edticos da Escola de Frankfurt afirmavam que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel associar a luta pela liberdade humana e pela desaliena\u00e7\u00e3o da humanidade a uma determinada classe, no caso o proletariado. Herbert Marcuse, um dos principais fil\u00f3sofos dessa escola, elaborou uma an\u00e1lise sobre o proletariado dos pa\u00edses avan\u00e7ados considerando que haveriam perdido seu car\u00e1ter revolucion\u00e1rio pela transforma\u00e7\u00e3o do capitalismo em \u2018capitalismo dirigido\u2019, com sua organiza\u00e7\u00e3o que incorporava a maior parte dos trabalhadores na sociedade estabelecida. <sup data-fn=\"a3e8e3e6-1e52-4f44-a64a-b3d0704073be\" class=\"fn\"><a id=\"a3e8e3e6-1e52-4f44-a64a-b3d0704073be-link\" href=\"\/#a3e8e3e6-1e52-4f44-a64a-b3d0704073be\">9<\/a><\/sup> Eles rejeitavam o papel do proletariado como sujeito social e, nessa linha, deveria retomar-se conceitos como \u201cess\u00eancia humana\u201d que estaria submetida a uma aliena\u00e7\u00e3o na sociedade atual e passaram a deender como estrat\u00e9gia uma luta pela desaliena\u00e7\u00e3o do ser humano em geral e centrada na liberta\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. <sup data-fn=\"73616aa1-48e9-4c2b-ba9d-b593c7463fac\" class=\"fn\"><a id=\"73616aa1-48e9-4c2b-ba9d-b593c7463fac-link\" href=\"\/#73616aa1-48e9-4c2b-ba9d-b593c7463fac\">10<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo acabou acontecendo com o \u201cmarxismo humanista\u201d de Raya Dunayevskaia <sup data-fn=\"0934e7eb-6d0f-4d1e-b137-6326d5da26d9\" class=\"fn\"><a id=\"0934e7eb-6d0f-4d1e-b137-6326d5da26d9-link\" href=\"\/#0934e7eb-6d0f-4d1e-b137-6326d5da26d9\">11<\/a><\/sup>, dos anos 1950-60. Ap\u00f3s sair do SWP, focou sua estrat\u00e9gia nos conselhos oper\u00e1rios, sem necessidade de um partido revolucion\u00e1rio, para logo depois deixar de ver a classe oper\u00e1ria como sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o. O grupo foi pioneiro na procura de outros sujeitos sociais que substitu\u00edssem a classe oper\u00e1ria, a partir dos setores oprimidos como os negros, as mulheres e outros. Esta tend\u00eancia acabou deixando de se considerar um partido e permaneceu como um grupo intelectual de propaganda <sup data-fn=\"e1c02761-7aec-470a-a267-fed9c3a6af3d\" class=\"fn\"><a id=\"e1c02761-7aec-470a-a267-fed9c3a6af3d-link\" href=\"\/#e1c02761-7aec-470a-a267-fed9c3a6af3d\">12<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Jean Paul Sartre, fil\u00f3sofo de grande influ\u00eancia no p\u00f3s-guerra, atacava Engels por repetir a mesma concep\u00e7\u00e3o que havia criticado em Hegel: impor as leis do pensamento \u00e0 mat\u00e9ria. Segundo Sartre, Engels estenderia arbitrariamente a raz\u00e3o dial\u00e9tica, as leis que descobriu no mundo social, \u00e0 natureza e \u00e0s ci\u00eancias. <sup data-fn=\"e76ba8f7-0d69-44e4-85b2-2fe30061dc8b\" class=\"fn\"><a id=\"e76ba8f7-0d69-44e4-85b2-2fe30061dc8b-link\" href=\"\/#e76ba8f7-0d69-44e4-85b2-2fe30061dc8b\">13<\/a><\/sup> Como observa Nahuel Moreno, por meio dessa cr\u00edtica Sartre pensava valorizar a escolha individual, com sua filosofia existencialista \u2013 opondo-a ao determinismo stalinista, contra quem lutava nas d\u00e9cadas de 1950 e 60. Tal concep\u00e7\u00e3o levou-o a \u201c<em>levantar uma muralha chinesa entre o humano e a natureza org\u00e2nica e inorg\u00e2nica<\/em>\u201d. <sup data-fn=\"8e3c15de-c555-4802-888a-94609c3c9976\" class=\"fn\"><a id=\"8e3c15de-c555-4802-888a-94609c3c9976-link\" href=\"\/#8e3c15de-c555-4802-888a-94609c3c9976\">14<\/a><\/sup> Assim, Sartre tamb\u00e9m caiu numa separa\u00e7\u00e3o completa entre homem e natureza, ignorando a elabora\u00e7\u00e3o marxista sobre essa rela\u00e7\u00e3o e absolutizando a op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica individual, independente da realidade, das condi\u00e7\u00f5es objetivas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O materialismo mecanicista em sua vers\u00e3o stalinista \u00e9 uma decorr\u00eancia da dial\u00e9tica da natureza de Engels?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Estas cr\u00edticas levantam uma quest\u00e3o: a afirma\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica dial\u00e9tica aplicada \u00e0 natureza seria uma base para o materialismo vulgar e mecanicista dos stalinistas? Muitos cr\u00edticos de Engels opinam que o conceito de uma dial\u00e9tica da natureza presta-se inevitavelmente ao materialismo vulgar e ao positivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos antiengelsistas toma os textos filos\u00f3ficos de Engels \u2013 <em>Anti-Dhuring<\/em>, <em>Dial\u00e9tica da natureza<\/em> e <em>Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3<\/em> \u2013 como demonstra\u00e7\u00e3o de um suposto enrijecimento mecanicista, comparando-o negativamente com Marx, que escaparia a esse processo de vulgariza\u00e7\u00e3o. Marx n\u00e3o teria conseguido impedir o companheiro de luta e de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de toda a vida de cair em semelhante deriva e, ao morrer em 1883, teria deixado Engels ainda mais livre para dar asas a seus supostos desvios cientificistas e mecanicistas. Em particular, a <em>Dial\u00e9tica da Natureza<\/em> \u00e9 permanentemente denunciada como uma aplica\u00e7\u00e3o que se afasta completamente da concep\u00e7\u00e3o materialista dial\u00e9tica de Marx.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, neste texto, Engels foi expl\u00edcito sobre a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre o homem e a natureza. Como fundamento dessa vis\u00e3o est\u00e1 sua recusa \u00e0 tese de Hegel de que a natureza &#8211; no sistema idealista hegeliano \u00e9 um atributo da Ideia que viveria uma eterna repeti\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o seria suscet\u00edvel a um desdobramento hist\u00f3rico. Engels ressalta a posi\u00e7\u00e3o ativa do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza. E antecipa como essa rela\u00e7\u00e3o pode lev\u00e1-lo a modificar e at\u00e9 mesmo destruir a natureza, antecipando a preocupa\u00e7\u00e3o atual com a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um cap\u00edtulo dessa obra, <em>O Papel do Trabalho na Transforma\u00e7\u00e3o do Macaco em Homem<\/em>, ele escreve:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Mas n\u00e3o nos regozijemos demasiadamente em face dessas vit\u00f3rias humanas sobre a natureza [\u2026] A cada uma dessas vit\u00f3rias, ela exerce sua vingan\u00e7a. Cada uma delas produz, em primeiro lugar, certas consequ\u00eancias com que podemos contar, mas, em segundo e terceiro lugares, produz outras muito diferentes, n\u00e3o previstas, que quase sempre anulam essas primeiras consequ\u00eancias. Os homens que, na Mesopot\u00e2mia, Gr\u00e9cia, \u00c1sia Menor e em outras partes destru\u00edram os bosques para obter terras cultiv\u00e1veis, n\u00e3o podiam imaginar que, dessa forma, estavam dando origem \u00e0 atual desola\u00e7\u00e3o dessas terras ao despoj\u00e1-las de seus bosques, isto \u00e9, dos centros de capta\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de umidade. [\u2026] Somos a cada passo advertidos de que n\u00e3o podemos dominar a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro, como algu\u00e9m situado fora da natureza; mas sim que lhe pertencemos, com a nossa carne, nosso sangue e nosso c\u00e9rebro; que estamos no meio dela; e que todo o dom\u00ednio sobre ela consiste na vantagem que levamos sobre os demais seres de poder conhecer suas leis e aplic\u00e1-las corretamente [\u2026] Na realidade, a cada dia que passa, aprendemos a entender mais corretamente as suas leis e a conhecer os efeitos imediatos e remotos resultantes de nossa interven\u00e7\u00e3o no processo que a mesma leva a cabo<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"462adbe1-f8ab-433c-9a58-87eb9a4b2590\" class=\"fn\"><a id=\"462adbe1-f8ab-433c-9a58-87eb9a4b2590-link\" href=\"\/#462adbe1-f8ab-433c-9a58-87eb9a4b2590\">15<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante notar como, j\u00e1 nesse texto, Engels problematiza a rela\u00e7\u00e3o homem-natureza, a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre o progresso econ\u00f4mico e cient\u00edfico de determinada sociedade e as poss\u00edveis consequ\u00eancias sociais contradit\u00f3rias:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Mas, se foi necess\u00e1rio o trabalho de mil\u00eanios para que cheg\u00e1ssemos a aprender, den-tro de certos limites, a calcular os efeitos remotos de nossos atos orientados no sen-tido da produ\u00e7\u00e3o, isso era muito mais dif\u00edcil no que diz respeito aos efeitos sociais remotos desses atos. (\u2026) E, quando Colombo descobriu a mesma Am\u00e9rica, n\u00e3o podia supor que, dessa forma, daria vida nova \u00e0 escravid\u00e3o, j\u00e1 superada, desde muito, em toda a Europa, estabelecendo os fundamentos para o tr\u00e1fico negreiro<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"5d74589d-9e40-4ad1-ae2b-c576e7dcfc2c\" class=\"fn\"><a id=\"5d74589d-9e40-4ad1-ae2b-c576e7dcfc2c-link\" href=\"\/#5d74589d-9e40-4ad1-ae2b-c576e7dcfc2c\">16<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Robert Havemann: o combate ao stalinismo na ex-Alemanha Oriental, apoiado em Engels<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Durante o dom\u00ednio stalinista na antiga Alemanha Oriental, o cientista Robert Havemann escreveu o livro <em>Dial\u00e9tica sem dogma<\/em>. Havemann intervinha nos debates cient\u00edficos quando as academias oficiais da ex-URSS e da ex-Alemanha Oriental se recusavam a aceitar as descobertas de cientistas como Linus Pauling <sup data-fn=\"28c6ec39-d0f3-4a79-8908-3fb0c17c9e8c\" class=\"fn\"><a id=\"28c6ec39-d0f3-4a79-8908-3fb0c17c9e8c-link\" href=\"\/#28c6ec39-d0f3-4a79-8908-3fb0c17c9e8c\">17<\/a><\/sup>, porque seriam uma \u201cnega\u00e7\u00e3o do materialismo dial\u00e9tico\u201d. <sup data-fn=\"b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5\" class=\"fn\"><a id=\"b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5-link\" href=\"\/#b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5\">18<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Robert Havemann viu-se obrigado a defender as descobertas cient\u00edficas de Pauling e mostrar como a tentativa de vetar determinadas evid\u00eancias, supostamente pass\u00edveis de um \u201cidealismo burgu\u00eas\u201d, conduzia \u00e0 nega\u00e7\u00e3o do marxismo. Nesta defesa, Havemann colocava-se em defesa do marxismo contra o stalinismo, do materialismo dial\u00e9tico contra a deforma\u00e7\u00e3o mecanicista da burocracia e, para contestar a burocracia sovi\u00e9tica, apoiava-se em Marx e, particularmente, nos trabalhos filos\u00f3ficos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre natureza e sociedade feitos por Engels.<br>Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e m\u00e9todo dial\u00e9tico, o cientista alem\u00e3o escreve:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Vamos lembrar mais uma vez o que os cl\u00e1ssicos falam sobre isso. Eles sempre enfatizaram que o problema capital das ci\u00eancias naturais, como de todas as ci\u00eancias para o resto, consiste em passar do pensamento mecanicista, metaf\u00edsico, a um pensamento dial\u00e9tico cada vez mais consciente\u2026 Nenhum fil\u00f3sofo em todo o mundo pode dizer como a teoria das part\u00edculas elementares deve ser posta dialeticamente. Mas essa teoria n\u00e3o pode ser desenvolvida sem o pensamento dial\u00e9tico, nem o conhecimento j\u00e1 adquirido nelas ser\u00e1 compreendido em toda a sua profundidade sem assimilar o pensamento dial\u00e9tico<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99\" class=\"fn\"><a id=\"1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99-link\" href=\"\/#1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99\">19<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Essas ideias <\/em><sup data-fn=\"22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990\" class=\"fn\"><a id=\"22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990-link\" href=\"\/#22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990\">20<\/a><\/sup><em>, n\u00e3o apenas admiravelmente confirmadas pela teoria cient\u00edfico-natural mas, al\u00e9m disso, aprofundados por ela, t\u00eam grande import\u00e2ncia para toda a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo. A imagem do mundo tra\u00e7ada pelo materialismo mecanicista n\u00e3o nos deixou liberdade para uma a\u00e7\u00e3o real. Todo o futuro, incluindo todas as nossas a\u00e7\u00f5es, j\u00e1 estava totalmente determinado pelo passado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em> \u00abA primeira ruptura com esse determinismo r\u00edgido e, al\u00e9m disso, com a reinterpreta\u00e7\u00e3o dos conceitos de passado, presente e futuro, ocorreu motivado pelos resultados da teoria da relatividade [\u2026] o passado \u00e9 tudo aquilo de que podemos ter conhecimento; futuro \u00e9 tudo em que ainda podemos intervir. Nem uma coisa nem outra existem no mundo do determinismo metaf\u00edsico cl\u00e1ssico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>\u2026 O fato de que desafiamos a ideia mecanicista cl\u00e1ssica de que o futuro \u00e9 totalmente determinado n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que vamos declarar que o futuro \u00e9 totalmente indeterminado. O futuro \u00e9 codeterminado pelo passado, mas n\u00e3o \u00e9 determinado de forma definitiva e absoluta. [\u2026]. O homem, com a sua atividade, n\u00e3o \u00e9 uma mera bola com a qual jogam as casualidades fant\u00e1sticas, mas justamente o inverso: o homem utiliza praticamente a casualidade dos acontecimentos para conseguir o que deseja. Se esse acaso cego n\u00e3o existisse, n\u00e3o poder\u00edamos transformar o mundo com nossos olhos videntes. A liberdade do homem baseia-se precisamente no fato de que o futuro do mundo pode ser determinado porque ainda n\u00e3o est\u00e1 determinado<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92\" class=\"fn\"><a id=\"1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92-link\" href=\"\/#1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92\">21<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Como explicaremos mais adiante, o racioc\u00ednio de Havemann \u00e9 bem semelhante ao de Lenin e Trotsky sobre como o materialismo dial\u00e9tico pode e deve ser aplicado \u00e0 ci\u00eancia e ao estudo da natureza: n\u00e3o como uma filosofia externa que se imp\u00f5e \u00e0 realidade, mas um aux\u00edlio para os cientistas melhor entenderem os processos complexos das ci\u00eancias naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, h\u00e1 diferen\u00e7as na aplica\u00e7\u00e3o das leis da dial\u00e9tica na natureza e na hist\u00f3ria, mas ambas s\u00e3o parte do real, do mundo objetivo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Engels tinha uma concep\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 de Marx na aplica\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica \u00e0 natureza?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>De modo algum. N\u00e3o s\u00f3 porque Engels trabalhou em equipe com Marx, havendo uma divis\u00e3o de tarefas entre ambos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas \u00e1reas de estudo, mas porque a vis\u00e3o de Marx, elaborada em conjunto com Engels, permaneceu fundamentalmente a mesma quanto \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre homem, natureza e sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto <em>A Ideologia alem\u00e3<\/em> \u2013 que, segundo Marx <sup data-fn=\"4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655\" class=\"fn\"><a id=\"4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655-link\" href=\"\/#4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655\">22<\/a><\/sup>, serviu para colocar no papel a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria desenvolvida por ele e por Engels \u2013, h\u00e1 uma s\u00e9rie de refer\u00eancias a essa quest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Por exemplo, a importante quest\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o do homem com a natureza (ou ent\u00e3o, como afirma Bruno na p. 110, as \u2018oposi\u00e7\u00f5es em natureza e hist\u00f3ria\u2019, como se as duas \u2018coisas\u2019 fossem coisas separadas uma da outra, como se o homem n\u00e3o tivesse sempre diante de si uma natureza hist\u00f3rica e uma hist\u00f3ria natural), da qual surgiram todas as \u2018obras de insond\u00e1vel grandeza\u2019 sobre a \u2018subst\u00e2ncia\u2019 e a \u2018autoconsci\u00eancia\u2019, desfaz-se em si mesma na concep\u00e7\u00e3o de que a c\u00e9lebre \u2018unidade do homem com a natureza\u2019 sempre se deu na ind\u00fastria e se apresenta de modo diferente em cada \u00e9poca de acordo com o menor ou maior desenvolvimento da ind\u00fastria; o mesmo vale no que diz respeito \u00e0 \u2018luta\u2019 do homem com a natureza, at\u00e9 o desenvolvimento de suas for\u00e7as produtivas sobre uma base correspondente. A ind\u00fastria e o com\u00e9rcio, a produ\u00e7\u00e3o e o interc\u00e2mbio das necessidades vitais condicionam, por seu lado, a distribui\u00e7\u00e3o, a estrutura das diferentes classes sociais e s\u00e3o, por sua vez, condicionadas por elas no modo de seu funcionamento \u2013 e \u00e9 por isso que Feuerbach, em Manchester, por exemplo, v\u00ea apenas f\u00e1bricas e m\u00e1quinas onde cem anos atr\u00e1s se viam apenas rodas de fiar e teares manuais, ou que ele descobre apenas pastagens e p\u00e2ntanos na Campagna di Roma, onde na \u00e9poca de Augusto n\u00e3o teria encontrado nada menos do que as vinhas e as propriedades rurais dos capitalistas romanos<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b\" class=\"fn\"><a id=\"688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b-link\" href=\"\/#688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b\">23<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Marx teria modificado essa posi\u00e7\u00e3o em uma fase posterior? Vejamos o trecho de <em>O Capital<\/em> em que Marx defende uma concep\u00e7\u00e3o id\u00eantica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Aqui, como nas ci\u00eancias da natureza, se comprova a verdade da lei descoberta por Hegel em sua L\u00f3gica, segundo a qual, ao chegar a um determinado ponto, as mudan\u00e7as meramente quantitativas se convertem em varia\u00e7\u00f5es qualitativas. E, em uma nota de rodap\u00e9, Marx desenvolve essa ideia: a teoria molecular da qu\u00edmica moderna\u2026 baseia-se em nenhuma outra lei al\u00e9m dessa<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c\" class=\"fn\"><a id=\"996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c-link\" href=\"\/#996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c\">24<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Riazanov, o maior estudioso sobre a obra de Marx e Engels e respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o do Instituto Marx-Engels na antiga URSS, resgatou v\u00e1rias obras in\u00e9ditas ou publicadas de forma fragmentada pelos seus executores testament\u00e1rios alem\u00e3es (entre eles, Bernstein). Segundo ele,<\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab<em>Entre o ponto de vista da Ideologia Alem\u00e3 e o que se desenvolveu no primeiro volume de O Capital n\u00e3o h\u00e1 qualquer tipo de \u2018salto\u2019. As concep\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que Engels desenvolveu no Anti-D\u00fchring na se\u00e7\u00e3o de Filosofia, mesmo nas partes relacionadas \u00e0s ci\u00eancias naturais, j\u00e1 tinham sido completamente formuladas em O Capital em uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es, que foram t\u00e3o distorcidas por D\u00fchring. No Anti-D\u00fchring, Engels desenvolve o m\u00e9todo dial\u00e9tico que Marx e ele tinham criado e que tinham empregado desde 1846, desde o tempo da Ideologia alem\u00e3. Quando publiquei Dial\u00e9tica da Natureza de Engels, que eu tinha descoberto, meu pref\u00e1cio enfatizou que, em compara\u00e7\u00e3o com o que Engels havia dito no Anti-D\u00fchring, este n\u00e3o continha nenhuma ideia nova. Eu escrevi \u2018nenhuma ideia nova\u2019 intencionalmente. A tentativa insustent\u00e1vel de alguns companheiros de encontrar algumas diferen\u00e7as entre o Anti-D\u00fchring e Engels da d\u00e9cada de oitenta, que tinha \u2018concep\u00e7\u00f5es completamente opostas\u2019, surge do entendimento pouco claro de algumas observa\u00e7\u00f5es no Anti-D\u00fchring e de uma leitura desatenta do pref\u00e1cio de Engels para a segunda edi\u00e7\u00e3o do Anti-D\u00fchring<\/em>.\u00bb <sup data-fn=\"5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d\" class=\"fn\"><a id=\"5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d-link\" href=\"\/#5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d\">25<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Colocadas as premissas do problema e da discuss\u00e3o, no pr\u00f3ximo texto veremos as consequ\u00eancias das cr\u00edticas \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es de Engels na elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-program\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Notas<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"a75f691c-c0d9-4951-b717-08c8b86e065b\">MORENO, Nahuel. L\u00f3gica marxista y ciencias modernas, M\u00e9xico: Xolotl, 1973, p. 33. <a href=\"#a75f691c-c0d9-4951-b717-08c8b86e065b-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"29bb0345-0997-4856-a112-b7ead5d4e670\">Moreno em seu texto aborda tamb\u00e9m esse tema em rela\u00e7\u00e3o aos cr\u00edticos de Engels da \u00e9poca, Sartre e Della Volpe. <a href=\"#29bb0345-0997-4856-a112-b7ead5d4e670-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"9f76e1be-0ca5-4afc-b930-fa7f275ecc76\">Foi membro da dire\u00e7\u00e3o do SWP ingl\u00eas. Rompeu com outros dirigentes em 2009 e fundou o grupo Counterfire. <a href=\"#9f76e1be-0ca5-4afc-b930-fa7f275ecc76-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"abf16a39-5281-4beb-a606-661e255ea760\">LUK\u00c1CS, Georg. Historia y conciencia de clase. Buenos Aires: Ediciones R. y R., 2013, p. 91. <a href=\"#abf16a39-5281-4beb-a606-661e255ea760-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 4\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8d78eecd-dd74-4025-9782-04b24a1d6509\">[5] Por outro lado, \u00e9 verdade que Luk\u00e1cs, nesse mesmo livro <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, tem uma varia\u00e7\u00e3o sobre esse tema: primeiro nega que o m\u00e9todo dial\u00e9tico seja aplic\u00e1vel \u00e0 natureza, por falta de dimens\u00e3o subjetiva; e em outro trecho do mesmo livro reconhece a exist\u00eancia de uma dial\u00e9tica distinta e objetiva na natureza. <a href=\"#8d78eecd-dd74-4025-9782-04b24a1d6509-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 5\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e102dc9d-c549-419e-a0de-cea429cab700\">Apesar de ser um termo muito gen\u00e9rico, optei por utilizar o conceito de Perry Anderson, que serve para abarcar uma s\u00e9rie de correntes que tiveram em comum essa localiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, apesar das diferen\u00e7as entre elas. <a href=\"#e102dc9d-c549-419e-a0de-cea429cab700-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 6\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"03a3025c-0f0d-4ba2-826b-27147ff989fc\">Marx, nos <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos<\/em>, escreve: \u201c<em>o pensamento que \u00e9 alienado e abstrato e ignora o homem e a natureza reais. O car\u00e1ter externo desse pensamento abstrato\u2026 a natureza como existe para esse pensamento abstrato. A natureza \u00e9 externa a ele, uma priva\u00e7\u00e3o dele mesmo, e s\u00f3 concebida como algo externo, como pensamento abstrato, mas pensamento abstrato alienado<\/em>\u201d. <a href=\"#03a3025c-0f0d-4ba2-826b-27147ff989fc-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 7\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f96aca1b-d818-47f2-918d-2eefb68ced6c\">Apoiam-se em particular nos <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos<\/em>. <a href=\"#f96aca1b-d818-47f2-918d-2eefb68ced6c-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 8\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a3e8e3e6-1e52-4f44-a64a-b3d0704073be\">\u201c<em>Mas precisamente nos pa\u00edses industriais avan\u00e7ados, j\u00e1 por volta da passagem do s\u00e9culo, as contradi\u00e7\u00f5es internas foram sendo dominadas por uma organiza\u00e7\u00e3o progressivamente eficiente, e a for\u00e7a negativa do proletariado foi sendo progressivamente reduzida<\/em>\u201d, Raz\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o, Rio, Paz e Terra, 1978, p. 404. <a href=\"#a3e8e3e6-1e52-4f44-a64a-b3d0704073be-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"73616aa1-48e9-4c2b-ba9d-b593c7463fac\">Idem, pag. 407 <a href=\"#73616aa1-48e9-4c2b-ba9d-b593c7463fac-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 10\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0934e7eb-6d0f-4d1e-b137-6326d5da26d9\">Raya Dunayevskaia foi uma militante russo-americana que trabalhou por um curto per\u00edodo como tradutora e secret\u00e1ria de Trotsky em seu ex\u00edlio no M\u00e9xico. Rompeu com o SWP junto com Schatchman e Burnham em 1940, voltou a este partido em 1947 para afinal romper definitivamente no in\u00edcio dos anos 1950. Considerava a ex-URSS como \u201ccapitalismo de estado\u201d. <a href=\"#0934e7eb-6d0f-4d1e-b137-6326d5da26d9-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 11\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e1c02761-7aec-470a-a267-fed9c3a6af3d\">Alguns de seus integrantes, como o professor universit\u00e1rio Kevin Anderson, autor de Marx nas margens defendem essas posi\u00e7\u00f5es nos debates sobre o marxismo na academia. <a href=\"#e1c02761-7aec-470a-a267-fed9c3a6af3d-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 12\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e76ba8f7-0d69-44e4-85b2-2fe30061dc8b\">Sartre escreve: \u201c<em>O resultado desse belo esfor\u00e7o [de Engels] \u00e9 paradoxal: Engels censura Hegel por impor as leis do pensamento \u00e0 mat\u00e9ria. Mas \u00e9 precisamente o que ele mesmo faz, pois obriga as ci\u00eancias a verificar uma raz\u00e3o dial\u00e9tica que ele descobriu no mundo social. Somente no mundo hist\u00f3rico e social, como veremos, existe verdadeiramente uma raz\u00e3o dial\u00e9tica; ao transport\u00e1-lo para o mundo \u00abnatural\u00bb, dando-lhe for\u00e7a, Engels tira sua racionalidade. N\u00e3o se trata mais de uma dial\u00e9tica que o homem faz , fazendo-se a si mesmo, mas de uma lei contingente da qual s\u00f3 se pode dizer: \u00e9 assim e n\u00e3o de outra forma<\/em>\u201d. in Marxismo y Existencialismo. Buenos Aires: Sur, p. 128, apud Moreno, L\u00f3gica marxista y ciencias modernas, p. 38. <a href=\"#e76ba8f7-0d69-44e4-85b2-2fe30061dc8b-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 13\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8e3c15de-c555-4802-888a-94609c3c9976\">MORENO, Nahuel. L\u00f3gica Marxista y ciencias modernas. M\u00e9xico: Ed. Xolotl, 1981, p. 39. <a href=\"#8e3c15de-c555-4802-888a-94609c3c9976-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 14\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"462adbe1-f8ab-433c-9a58-87eb9a4b2590\">Citados por Michael Roberts, Engels sobre a natureza e a humanidade, em: &lt;litci.org\/pt\/michel-roberts-engels-sobre-natureza-e-humanidade\/>. <a href=\"#462adbe1-f8ab-433c-9a58-87eb9a4b2590-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 15\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5d74589d-9e40-4ad1-ae2b-c576e7dcfc2c\">Idem <a href=\"#5d74589d-9e40-4ad1-ae2b-c576e7dcfc2c-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 16\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"28c6ec39-d0f3-4a79-8908-3fb0c17c9e8c\">Pauling foi pioneiro na aplica\u00e7\u00e3o da Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica em qu\u00edmica e recebeu o pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica em 1954. <a href=\"#28c6ec39-d0f3-4a79-8908-3fb0c17c9e8c-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 17\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5\">Houve tamb\u00e9m o famoso caso Lyssenko, cientista russo que defendeu que a gen\u00e9tica era estranha ao materialismo dial\u00e9tico e conseguiu impor esse ponto de vista e banir a gen\u00e9tica da URSS por anos. Lyssenko n\u00e3o se cansou de atribuir suas teses diretamente a Stalin e ao suposto m\u00e9rito deste \u00faltimo como o \u201cmaior cientista\u201d dos tempos atuais. <a href=\"#b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 18\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99\">ENGELS, Friedrich. <em>Dial\u00e9tica da natureza<\/em>. Berlim 1952, p. 223. <a href=\"#1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 19\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990\">Havemann refere-se \u00e0 seguinte cita\u00e7\u00e3o da Dial\u00e9tica da Natureza: \u201c<em>Os pesquisadores da natureza, ainda que se revolvam s\u00e3o dominados pela filosofia. A quest\u00e3o \u00e9 se eles querem s\u00ea-lo por uma m\u00e1 filosofia que esteja na moda ou por uma forma de pensamento te\u00f3rico que se baseia no conhecimento da hist\u00f3ria do pensamento e de suas conquistas. Os pesquisadores da natureza ainda est\u00e3o permitindo uma vida vegetativa para a filosofia, ao utilizar os restos da antiga metaf\u00edsica. Somente quando a dial\u00e9tica haja sido assimilada pelas ci\u00eancias da natureza e da hist\u00f3ria e tornar sup\u00e9rflua a velha bugiganga filos\u00f3fica &#8211; exceto para a pura teoria do pensamento &#8211; ent\u00e3o desaparecer\u00e1 absorvida pela ci\u00eancia positiva<\/em>\u201d. <a href=\"#22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 20\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92\">HAVEMANN, Robert. <em>Dial\u00e9ctica sin dogma<\/em>, 10\u00aa lecci\u00f3n, p. 87. <a href=\"#1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 21\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655\">No <em>Pref\u00e1cio \u00e0 Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>: \u201c<em>Friedrich Engels, com quem mantive uma troca constante de ideias por correspond\u00eancia desde que a publica\u00e7\u00e3o de seu brilhante ensaio sobre a cr\u00edtica das categorias econ\u00f4micas \u2026 chegou por outro caminho (compare sua A Situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra) ao mesmo resultado que eu, e quando, na primavera de 1845, ele tamb\u00e9m veio morar em Bruxelas, decidimos apresentar em conjunto nossa concep\u00e7\u00e3o, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da filosofia alem\u00e3, de fato, para prestar contas com nossa antiga consci\u00eancia filos\u00f3fica<\/em>\u201d. <a href=\"#4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 22\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b\">In <em>A Ideologia alem\u00e3<\/em>, Feuerbach, Hist\u00f3ria, S. Paulo, Boitempo p. 31. <a href=\"#688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 23\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c\">Citado em: <em>Anti-D\u00fchring<\/em>, Parte I, Dial\u00e9tica, Cap\u00edtulo XII: \u201cQuantidade e qualidade\u201d. <a href=\"#996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 24\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d\">RIAZANOV, David. <em>50 anos do Anti-D\u00fchring<\/em>, 1928. <a href=\"#5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 25\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p>Publicado em novembro de 2020 na revista <em>Marxismo Vivo<\/em> N. 16<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amplo leque de correntes e intelectuais centra seus ataques no legado te\u00f3rico de Friedrich Engels ao marxismo. 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Lyssenko n\u00e3o se cansou de atribuir suas teses diretamente a Stalin e ao suposto m\u00e9rito deste \u00faltimo como o \u201cmaior cientista\u201d dos tempos atuais.\",\"id\":\"b753517e-b57f-46ff-8d26-18fd6b6205b5\"},{\"content\":\"ENGELS, Friedrich. <em>Dial\u00e9tica da natureza<\/em>. Berlim 1952, p. 223.\",\"id\":\"1a918bf2-9a4d-4206-90c5-e48d8370fd99\"},{\"content\":\"Havemann refere-se \u00e0 seguinte cita\u00e7\u00e3o da Dial\u00e9tica da Natureza: \u201c<em>Os pesquisadores da natureza, ainda que se revolvam s\u00e3o dominados pela filosofia. A quest\u00e3o \u00e9 se eles querem s\u00ea-lo por uma m\u00e1 filosofia que esteja na moda ou por uma forma de pensamento te\u00f3rico que se baseia no conhecimento da hist\u00f3ria do pensamento e de suas conquistas. Os pesquisadores da natureza ainda est\u00e3o permitindo uma vida vegetativa para a filosofia, ao utilizar os restos da antiga metaf\u00edsica. Somente quando a dial\u00e9tica haja sido assimilada pelas ci\u00eancias da natureza e da hist\u00f3ria e tornar sup\u00e9rflua a velha bugiganga filos\u00f3fica - exceto para a pura teoria do pensamento - ent\u00e3o desaparecer\u00e1 absorvida pela ci\u00eancia positiva<\/em>\u201d.\",\"id\":\"22da62de-3594-4d61-a0c6-cf1191e5f990\"},{\"content\":\"HAVEMANN, Robert. <em>Dial\u00e9ctica sin dogma<\/em>, 10\u00aa lecci\u00f3n, p. 87.\",\"id\":\"1e47cfd4-2f7b-485a-a6fa-edc7b1c23f92\"},{\"content\":\"No <em>Pref\u00e1cio \u00e0 Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>: \u201c<em>Friedrich Engels, com quem mantive uma troca constante de ideias por correspond\u00eancia desde que a publica\u00e7\u00e3o de seu brilhante ensaio sobre a cr\u00edtica das categorias econ\u00f4micas \u2026 chegou por outro caminho (compare sua A Situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra) ao mesmo resultado que eu, e quando, na primavera de 1845, ele tamb\u00e9m veio morar em Bruxelas, decidimos apresentar em conjunto nossa concep\u00e7\u00e3o, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 concep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da filosofia alem\u00e3, de fato, para prestar contas com nossa antiga consci\u00eancia filos\u00f3fica<\/em>\u201d.\",\"id\":\"4b14f490-5ffe-4249-a661-b49ab0a9a655\"},{\"content\":\"In <em>A Ideologia alem\u00e3<\/em>, Feuerbach, Hist\u00f3ria, S. Paulo, Boitempo p. 31.\",\"id\":\"688eb334-0cb7-4bc9-af50-b0fe2d1ad17b\"},{\"content\":\"Citado em: <em>Anti-D\u00fchring<\/em>, Parte I, Dial\u00e9tica, Cap\u00edtulo XII: \u201cQuantidade e qualidade\u201d.\",\"id\":\"996ad613-c5eb-4841-a2d4-3e8a301c218c\"},{\"content\":\"RIAZANOV, David. <em>50 anos do Anti-D\u00fchring<\/em>, 1928.\",\"id\":\"5bf13f37-3306-4f0e-a70a-43fcdbe8db2d\"}]"},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-8396","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-materialismo-historico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8396"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8396\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}