{"id":8469,"date":"2025-04-14T14:08:00","date_gmt":"2025-04-14T14:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8469"},"modified":"2025-04-14T14:08:00","modified_gmt":"2025-04-14T14:08:00","slug":"antissionismo-nao-e-antissemitismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/04\/14\/antissionismo-nao-e-antissemitismo\/","title":{"rendered":"Antissionismo n\u00e3o \u00e9 antissemitismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma confus\u00e3o sempre \u00e0 espreita, que ganhou espa\u00e7o nos \u00faltimos dias, \u00e9 a de que o antissionismo seria uma forma de antissemitismo. Nada mais falso. Entendemos que existem tr\u00eas tipos de confus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso: a primeira \u00e9 deliberada e, portanto, criminosa, como faz o racista Estado de Israel e suas organiza\u00e7\u00f5es; a segunda deve-se \u00e0 desonestidade ou ao oportunismo, e costuma estar ligada \u00e0 primeira; e a terceira \u00e9, por incompreens\u00e3o ou desconhecimento, fruto de ideologias que muitas vezes permeiam os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e est\u00e3o na boca de pol\u00edticos e outras personalidades. O prop\u00f3sito deste artigo \u00e9 explicar a grande diferen\u00e7a entre antissionismo e antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong> e <strong>Soraya Misleh<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O antissemitismo esteve presente nos discursos do apresentador Bruno Aiub (Monark), durante a edi\u00e7\u00e3o do Flow Podcast de 7 de fevereiro, e do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) no mesmo programa, o que \u00e9 absolutamente conden\u00e1vel. Nosso veemente rep\u00fadio \u00e0 ideia absurda que propagaram de que o nazismo n\u00e3o deveria ser tratado como crime e que, como afirmou Aiub, \u201cest\u00e1 bem ser antijudeu\u201d. N\u00e3o h\u00e1 nada de aceit\u00e1vel em defender o racismo, a discrimina\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nada de aceit\u00e1vel em ser antissemita. Isso significa naturalizar o \u00f3dio contra determinadas etnias ou ra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O nazismo, com seu abomin\u00e1vel hist\u00f3rico de atrocidades cometidas durante o Holocausto contra os judeus (6 milh\u00f5es de mortos) \u2013 e tamb\u00e9m contra ciganos, comunistas, anarquistas, pessoas LGBT e deficientes f\u00edsicos, todos os que n\u00e3o fizessem parte da \u201cra\u00e7a ariana\u201d \u2013 durante o s\u00e9culo XX, foi um crime contra a humanidade. Defender a legaliza\u00e7\u00e3o de um partido nazista \u00e9 inaceit\u00e1vel. Infelizmente, Aiub e Kataguiri n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos. O vereador da cidade de S\u00e3o Paulo, o capanga Fernando Holiday (Novo), que disse anteriormente que o racismo contra negros no Brasil n\u00e3o existe, \u00e9 outro que, do alto de sua inconmensur\u00e1vel idiotice, defendeu a \u201cdespenaliza\u00e7\u00e3o do nazismo\u201d, sob a l\u00f3gica distorcida da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O direito democr\u00e1tico \u00e0 liberdade de express\u00e3o n\u00e3o significa o direito de incitar o racismo sob nenhuma forma. Ele n\u00e3o pode ser usado como muleta para propagar livremente crimes contra a humanidade e discursos de \u00f3dio. As consequ\u00eancias \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 novidade \u2013 s\u00e3o amplamente conhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, tentando justificar o injustific\u00e1vel, Kim Kataguiri afirmou, em v\u00eddeo em suas redes sociais, que n\u00e3o poderia ser antissemita porque \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m mais pr\u00f3-Israel no Parlamento do que eu<\/em>\u201d, para depois remediar dizendo que considera \u201c<em>at\u00e9 divertido que pessoas anti-Israel agora me chamem de antissemita, de nazista<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideologia n\u00e3o tem justificativa alguma. Ela responde \u00e0 confus\u00e3o deliberada criada pelo Estado racista de Israel, que equipara coisas que nada t\u00eam a ver entre si \u2013 uma chantagem que tamb\u00e9m merece rep\u00fadio veemente &#8211; para silenciar os cr\u00edticos do projeto colonial sionista. E isso n\u00e3o \u00e9 de hoje.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mas, o que \u00e9 o antissemitismo e qual \u00e9 a sua origem?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O racismo contra os judeus, o antissemitismo, surgiu na Idade M\u00e9dia, na Europa. Reis, nobres e sacerdotes exploravam os servos em seus feudos na Europa medieval; na sociedade feudal, as transa\u00e7\u00f5es e atividades comerciais e financeiras, como a usura, eram consideradas pecaminosas e proibidas para os crist\u00e3os. Assim, um n\u00e3o crist\u00e3o tinha de faz\u00ea-las. De fato, exercendo essas atividades a servi\u00e7o da nobreza e do clero \u2013 que eram da classe dominante \u2013 os judeus passaram a cumprir o papel de comerciantes, artes\u00e3os, ourives etc., al\u00e9m de agiotas, uma atividade vetada aos crist\u00e3os. Fez-se isso sob o controle dos reis, do clero e dos nobres e, quando surgiam cat\u00e1strofes como fome e pestes, em cada per\u00edodo desse sistema feudal, as classes dominantes viam a necessidade de um bode expiat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo seu papel na sociedade, como mercadores e como emprestadores de dinheiro cobrando juros, os judeus eram um alvo f\u00e1cil. Da\u00ed surgiram as lendas divulgadas pela Igreja crist\u00e3, como o mito de que \u201cos judeus mataram Cristo\u201d, usadas pelos nobres para culpar os judeus pelos infort\u00fanios da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com seus tr\u00eas lemas \u2013 liberdade, igualdade e fraternidade \u2013 defendeu a ideia de que os seres humanos seriam iguais perante a lei. Mas, como sabemos hoje, a nova sociedade capitalista foi incapaz de garantir verdadeira igualdade \u00e0s mulheres e perseguiu etnias e ra\u00e7as. Foi a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 que trouxe a liberta\u00e7\u00e3o dos povos de todo o antigo Imp\u00e9rio Russo, o fim da discrimina\u00e7\u00e3o contra todas as etnias, inclusive os judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua fase imperialista, o capitalismo intensificou a explora\u00e7\u00e3o e as guerras de coloniza\u00e7\u00e3o dos povos; e a persegui\u00e7\u00e3o racial tomou uma forma ainda mais assassina. Foi nesse contexto imperialista que surgiram o fascismo e o nazismo \u2013 ideologias que justificavam o genoc\u00eddio e a elimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as como o \u00fanico caminho para o povo alem\u00e3o. O antissemitismo foi transformado em uma pol\u00edtica industrial de genoc\u00eddio, de elimina\u00e7\u00e3o dos judeus.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O surgimento do sionismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O sionismo, que surgiu no final do s\u00e9culo XIX com Theodor Herzl, argumentava que o problema da discrimina\u00e7\u00e3o contra os judeus s\u00f3 se resolveria se estes tivessem um Estado exclusivo. O sionismo admitia, assim, um pressuposto que os racistas antissemitas vinham pregando: era imposs\u00edvel a conviv\u00eancia sem discrimina\u00e7\u00e3o entre diferentes ra\u00e7as e etnias, entre judeus e n\u00e3o judeus, pois sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o racial o impediria. Herzl e a Organiza\u00e7\u00e3o Sionista Mundial (OSM) buscaram, ent\u00e3o, os l\u00edderes das pot\u00eancias imperialistas e ministros do Imp\u00e9rio czarista russo para negociar apoio a esse projeto, entre outros argumentos, lembrando-lhes que poderiam se livrar dos judeus de seus territ\u00f3rios. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914\u20131918), atrav\u00e9s de Chaim Weizmann, l\u00edder sionista, a OSM obteve uma declara\u00e7\u00e3o do governo imperial brit\u00e2nico \u2013 a Declara\u00e7\u00e3o Balfour de 1917 \u2013 comprometendo-se a permitir a instala\u00e7\u00e3o de um Lar Nacional Judeu no territ\u00f3rio da Palestina. Ou seja, foi um compromisso da autoridade colonial brit\u00e2nica de permitir que a Palestina, ent\u00e3o colonizada por eles, fosse utilizada pelos sionistas para instalar novos colonos judeus. Mas isso s\u00f3 seria poss\u00edvel expulsando a popula\u00e7\u00e3o palestina que j\u00e1 existia.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder sionista \u201crevisionista\u201d Jabotinsky \u2013 de cujas ideias foram formadas as organiza\u00e7\u00f5es de extrema-direita Irgun e o Likud, de Begin e Netanyahu, este \u00faltimo primeiro-ministro de Israel por mais de uma d\u00e9cada \u2013 levaria essa vis\u00e3o \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias, pregando um \u201cmuro de ferro\u201d entre os judeus e os \u00e1rabes habitantes da Palestina, sem qualquer \u201cmistura de sangue\u201d entre eles; ou seja, Israel deveria ser um Estado abertamente racista, exclusivamente dos judeus. Esse foi o projeto implementado que deu origem ao Estado de Israel, \u00e0s custas da expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o palestina. Como revela o historiador israelense Avi Shlaim em seu livro <em>O muro de ferro \u2013 Israel e o mundo \u00e1rabe<\/em> (Editora Fissus, 2004), esse tamb\u00e9m foi o pressuposto n\u00e3o declarado do chamado sionismo laborista \u2013 e seu dirigente, David Ben-Gurion \u2013 que, de fato, realizou a limpeza \u00e9tnica em 1948.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 o antissionismo?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O antissionismo \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o ao projeto pol\u00edtico colonial sionista e a todas as suas ramifica\u00e7\u00f5es. \u00c9 estar contra a limpeza \u00e9tnica, o racismo, o apartheid \u2013 que a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o israelense Bet\u2019Selem, bem como as internacionais Anistia Internacional e Human Rights Watch, reconhecem \u2013, e crimes contra a humanidade. A causa palestina, que sintetiza as lutas contra a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o em qualquer parte do mundo, \u00e9 a causa pela liberta\u00e7\u00e3o nacional do jugo do colonizador. Que coisa tem isso de racista? Nada. Ao contr\u00e1rio, ser antissionista \u00e9 lutar contra tal situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado do projeto colonial sionista, fundado no final do s\u00e9culo XIX, foi a Nakba, uma cat\u00e1strofe com a forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 por meio de uma limpeza \u00e9tnica planejada \u2013 como hoje reconhecem at\u00e9 novos historiadores israelenses, como Ilan Papp\u00e9. Foram 800.000 os palestinos expulsos violentamente de suas terras e cerca de 500 vilarejos foram destru\u00eddos na \u201cconquista da terra e do trabalho\u201d, conforme pregava o movimento sionista.<\/p>\n\n\n\n<p>Como aponta o historiador palestino Nur Masalha em seu livro <em>Expuls\u00e3o dos palestinos: o conceito de \u2018transfer\u00eancia\u2019 no pensamento pol\u00edtico sionista \u2013 1882\u20131948<\/em> (Editora Sundermann, 2021), nos di\u00e1rios dos l\u00edderes sionistas j\u00e1 se via que, para seu prop\u00f3sito \u2013 criar um Estado judeu etnicamente homog\u00eaneo \u2013 seria necess\u00e1ria a \u201ctransfer\u00eancia populacional\u201d dos palestinos nativos n\u00e3o judeus, que era majorit\u00e1ria, para fora de suas terras, enquanto os judeus europeus migrariam para a Palestina. E isso \u00e9 o que aconteceu. Israel foi formado em 78% da Palestina hist\u00f3rica, sobre os escombros dos vilarejos palestinos e sobre os corpos de seus habitantes nativos. Sobre as l\u00e1grimas de milhares de pessoas que, da noite para o dia, tornaram-se refugiadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1967, Israel ocupou o restante dessas terras (Gaza, Cisjord\u00e2nia e Jerusal\u00e9m Oriental). Mais 350.000 refugiados. Hoje, existem 5 milh\u00f5es em campos de exilados nos pa\u00edses \u00e1rabes aguardando o retorno. Ainda h\u00e1 milhares na di\u00e1spora, e 1,9 milh\u00e3o oriundos dos remanescentes da Palestina ocupada em 1948 (hoje chamada Israel) s\u00e3o tratados como cidad\u00e3os de segunda ou terceira classe, submetidos a cerca de 60 leis racistas. Nessa regi\u00e3o, Israel sequer fornece aos palestinos o m\u00ednimo de servi\u00e7os b\u00e1sicos em centenas de vilarejos bedu\u00ednos, onde a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria avan\u00e7a \u00e0s custas da demoli\u00e7\u00e3o de casas. E os palestinos n\u00e3o possuem permiss\u00e3o de resid\u00eancia permanente. Por exemplo, a aldeia de Al Araqib j\u00e1 foi demolida mais de 190 vezes, e os palestinos, em um ato de resist\u00eancia, continuam a reconstru\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Gaza \u00e9 uma verdadeira pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, onde 2 milh\u00f5es de palestinos enfrentam uma dram\u00e1tica crise humanit\u00e1ria sob um bloqueio sionista desumano h\u00e1 14 anos \u2013 com 96% da \u00e1gua pot\u00e1vel contaminada e somente quatro horas de fornecimento el\u00e9trico por dia \u2013, al\u00e9m de frequentes bombardeios. E, na Cisjord\u00e2nia e em Jerusal\u00e9m Oriental, a coloniza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a em ritmo acelerado, na qual a limpeza \u00e9tnica \u00e9 parte instrumental. H\u00e1 cerca de 3 milh\u00f5es de palestinos sem nenhum direito humano fundamental assegurado, com in\u00fameras restri\u00e7\u00f5es de mobilidade: necessidade de diferentes documentos, proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o livre (existem estradas exclusivas para os colonos sionistas, por exemplo), centenas de postos de controle e um muro de apartheid com aproximadamente 700 km de extens\u00e3o, que continua sendo ampliado, isolando fam\u00edlias e anexando mais terras f\u00e9rteis.<\/p>\n\n\n\n<p>Israel n\u00e3o fornece aos palestinos nem mesmo o m\u00ednimo de \u00e1gua recomendada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Boicote ao apartheid vs. hipocrisia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas a Nakba continua: como agora denuncia tamb\u00e9m a Anistia Internacional, o regime \u00e9 de apartheid, \u201c<em>um cruel sistema de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que Israel imp\u00f5e ao povo palestino, seja ele residente em Israel ou nos territ\u00f3rios ocupados, ou mesmo refugiados deslocados a outros pa\u00edses<\/em>\u201d. \u00c9 um crime contra a humanidade, no qual os palestinos v\u00eam sendo tratados, h\u00e1 d\u00e9cadas, segundo a Anistia Internacional, como \u201cuma ra\u00e7a inferior\u201d. A <em>Bet\u2019Selem<\/em> descreve o apartheid como \u201cum regime de supremacia judaica\u201d em toda a Palestina hist\u00f3rica: \u201c<em>Toda a \u00e1rea controlada por Israel, entre o rio Jord\u00e3o e o mar Mediterr\u00e2neo, \u00e9 governada por um regime \u00fanico que trabalha para avan\u00e7ar e perpetuar a supremacia de um grupo sobre o outro. Por meio da engenharia geogr\u00e1fica, demogr\u00e1fica e f\u00edsica do espa\u00e7o, o regime permite que os judeus vivam em uma \u00e1rea cont\u00edgua, com plenos direitos \u2013 incluindo a autodetermina\u00e7\u00e3o \u2013 enquanto os palestinos vivem em unidades separadas e com menos direitos. Isso caracteriza um regime de apartheid, embora Israel seja comumente visto como uma democracia com ocupa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, descrita em detalhe nos relat\u00f3rios da Anistia Internacional, da Human Rights Watch e da Bet\u2019Selem, os palestinos existem porque resistem heroicamente. E hoje a principal campanha de solidariedade \u00e9 o BDS (boicote, desinvestimento e san\u00e7\u00f5es) &#8211; baseada no modelo da campanha internacional que ajudou a p\u00f4r fim ao apartheid na \u00c1frica do Sul durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980 &#8211; que trata das demandas fundamentais do povo palestino: fim da ocupa\u00e7\u00e3o, igualdade de direitos civis e retorno dos refugiados \u00e0s suas terras. Os sionistas, inclusive aqueles que afirmam ser de \u201cesquerda\u201d (o que \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que defendem um projeto colonial utilizando uma ret\u00f3rica branda, um discurso contra as opress\u00f5es), voltaram-se contra o BDS. Tamb\u00e9m rejeitam os relat\u00f3rios que demonstram que os palestinos est\u00e3o submetidos a um regime de apartheid. Tais organiza\u00e7\u00f5es chamam de antissemitas todas as pessoas que se levantam contra esse Estado racista.<\/p>\n\n\n\n<p>No programa Flow Podcast, o sionista Andr\u00e9 Lajst, diretor executivo da organiza\u00e7\u00e3o Stand With Us no Brasil, um dia ap\u00f3s os repugnantes discursos de Bruno Aiub e Kim Kataguiri, afirmou que o antissemitismo \u2013 \u201c<em>neste caso, a judeofobia, o \u00f3dio aos judeus, visto que existem outros povos semitas<\/em>\u201d \u2013 vinha se transformando ao longo da hist\u00f3ria. Segundo ele, nesse processo de muta\u00e7\u00e3o, esse \u00f3dio se converteria em \u201c<em>\u00f3dio aos judeus por causa de seu Estado-na\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o \u00f3dio exacerbado e desproporcional que as pessoas t\u00eam pelo Estado de Israel, que tamb\u00e9m seria uma esp\u00e9cie de antissemitismo. N\u00e3o falo de cr\u00edtica ao Estado, refiro-me \u00e0 ilegitimidade de um pa\u00eds, de um lar nacional judeu ou ao combate ao movimento nacional judaico<\/em>\u201d. Assim, recorre a uma manobra para associar de forma distorcida antissionismo e antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma manobra clara: Lajst equipara defender o fim do Estado de apartheid de Israel a defender o fim dos judeus, ou seja, seu exterm\u00ednio. O que haveria com a \u00c1frica do Sul ou com a Rod\u00e9sia, governadas pela minoria branca segregacionista? Defender o fim do apartheid e defender o fim dos sul-africanos brancos seriam a mesma coisa? N\u00e3o \u00e9 isso o que a hist\u00f3ria demonstra. N\u00e3o \u00e9 o que afirmam os palestinos no caso de Israel. Como relatava um refugiado palestino expulso de sua terra em 1948, quando crian\u00e7a, \u201cjudeus, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os brincavam juntos, sem r\u00f3tulos\u201d. Essa conviv\u00eancia jamais existiu na Palestina hist\u00f3rica \u2013 ela foi criada e continua sendo alimentada pelo sionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contrariando a interven\u00e7\u00e3o de Lajst no Flow Podcast, chama a aten\u00e7\u00e3o que organiza\u00e7\u00f5es sionistas tenham declarado que o podcast deveria ser boicotado, exigindo e chegando \u00e0 suspens\u00e3o de patroc\u00ednios. \u201c<em>Ideologias que visam a elimina\u00e7\u00e3o do outro devem ser proibidas. Racismo e persegui\u00e7\u00f5es de qualquer identidade n\u00e3o configuram liberdade de express\u00e3o<\/em>\u201d, afirmou o coletivo sionista Judeus pela Democracia em seu Twitter.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia \u00e9 correta. A apologia ao nazismo deve ser repudiada com todas as for\u00e7as, por todos os meios. No entanto, causa indigna\u00e7\u00e3o a hipocrisia, pois o BDS n\u00e3o pode atuar \u2013 \u00e9 criminalizado e desqualificado. N\u00e3o se pode denunciar o apartheid. Para eles, as vidas dos palestinos n\u00e3o importam, embora digam o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado de Israel, a materializa\u00e7\u00e3o da ideia central do sionismo, baseia-se na elimina\u00e7\u00e3o do outro, atrav\u00e9s da limpeza \u00e9tnica, massacres e na cont\u00ednua desumaniza\u00e7\u00e3o. Ilan Papp\u00e9, em seu livro <em>A limpeza \u00e9tnica da Palestina<\/em> (Editora Sundermann, 2016), n\u00e3o deixa d\u00favidas: \u201c<em>para muitos sionistas, a Palestina nem sequer era um lugar \u2018ocupado\u2019 quando come\u00e7aram a se mudar para l\u00e1 em 1882, mas sim uma terra \u2018vazia\u2019: os palestinos nativos que viviam ali eram, na maior parte, invis\u00edveis ou, ao contr\u00e1rio, uma dificuldade natural que deveria ser conquistada e eliminada<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sionistas de esquerda, em defesa da exist\u00eancia de Israel, frequentemente se posicionam contra a ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 que, na pr\u00e1tica, equivale a apartheid \u2013, embora a ocupa\u00e7\u00e3o implique segrega\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o. Eles defendem a j\u00e1 extinta e enterrada solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, como j\u00e1 reconhecem h\u00e1 anos intelectuais do porte de Ilan Papp\u00e9 e at\u00e9 o ex-relator especial da ONU sobre os direitos humanos na Palestina ocupada, Richard Falk. Se essa suposta solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse injusta desde o in\u00edcio \u2013 ao oferecer migalhas ao povo palestino e n\u00e3o contemplar sua totalidade, com a metade refugiada ou na di\u00e1spora \u2013, ela seria completamente invi\u00e1vel devido \u00e0 expans\u00e3o colonial sionista. Hoje j\u00e1 existe um Estado \u00fanico sobre o territ\u00f3rio palestino: Israel, um Estado de apartheid.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 paz sem justi\u00e7a. E a justi\u00e7a s\u00f3 chegar\u00e1 com a derrota desse projeto colonial e, por consequ\u00eancia, com o fim do Estado de apartheid de Israel \u2013 na constru\u00e7\u00e3o de uma Palestina livre, do rio ao mar, com o retorno de milh\u00f5es de palestinos \u00e0s suas terras. Ser antissionista e dizer essa verdade \u00e9 ser coerente com a luta contra a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o em todo o mundo, incluindo o rep\u00fadio veemente ao antissemitismo e \u00e0 apologia do nazismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Consulte os relat\u00f3rios (em ingl\u00eas):<br>Anistia Internacional \u2013 <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/documents\/mde15\/5141\/2022\/en\/\">https:\/\/www.amnesty.org\/en\/documents\/mde15\/5141\/2022\/en\/<\/a><br>Human Rights Watch \u2013 <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/media_2021\/04\/israel_palestine0421_web_0.pdf\">https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/media_2021\/04\/israel_palestine0421_web_0.pdf<\/a><br>Bet\u2019Selem \u2013 <a class=\"\" href=\"https:\/\/www.btselem.org\/sites\/default\/files\/publications\/202101_this_is_apartheid_eng.pdf\">https:\/\/www.btselem.org\/sites\/default\/files\/publications\/202101_this_is_apartheid_eng.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma confus\u00e3o sempre \u00e0 espreita, que ganhou espa\u00e7o nos \u00faltimos dias, \u00e9 a de que o antissionismo seria uma forma de antissemitismo. Nada mais falso. Entendemos que existem tr\u00eas tipos de confus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso: a primeira \u00e9 deliberada e, portanto, criminosa, como faz o racista Estado de Israel e suas organiza\u00e7\u00f5es; a segunda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8612,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-8469","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-israel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8469\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8612"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}