{"id":8475,"date":"2025-04-14T19:26:37","date_gmt":"2025-04-14T19:26:37","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8475"},"modified":"2025-04-14T19:26:37","modified_gmt":"2025-04-14T19:26:37","slug":"a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/04\/14\/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su\/","title":{"rendered":"A luta pela reconstru\u00e7\u00e3o da IV e o papel do revisionismo trotskista (parte I)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Uma corrente revisionista assumiu a dire\u00e7\u00e3o e foi o maior obst\u00e1culo para a constru\u00e7\u00e3o da IV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A IV Internacional, algum tempo depois de fundada, teve de enfrentar press\u00f5es violentas contra seu programa e sua exist\u00eancia. Mesmo em vida de Trotsky, a luta contra os \u201cantidefensistas\u201d polarizou o caminho da Internacional. Mal havia sido fundada e j\u00e1 se iniciava uma luta contra o revisionismo, que amea\u00e7ava a exist\u00eancia da IV. Mas, terminada a pol\u00eamica interna no SWP com a vit\u00f3ria da posi\u00e7\u00e3o marxista, os problemas n\u00e3o cessaram. Logo ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra, surgiram posi\u00e7\u00f5es com consequ\u00eancias desastrosas para o desenvolvimento da IV, que levaram \u00e0 sua dispers\u00e3o e que, ainda hoje, atuam contra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Jos\u00e9 Welmowicki<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os novos processos do p\u00f3s-segunda guerra e a IV Internacional<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O p\u00f3s-guerra se abriu com vit\u00f3rias espetaculares do movimento de massas mundial: por um lado, a derrota completa do nazifascismo e, por outro, um ascenso oper\u00e1rio e popular \u2013 que s\u00f3 n\u00e3o chegou \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o da burguesia em pa\u00edses centrais, como Fran\u00e7a e It\u00e1lia, devido \u00e0s trai\u00e7\u00f5es de Stalin, que imp\u00f4s que os partidos comunistas pactuassem com suas burguesias e entregassem o poder. Tais trai\u00e7\u00f5es impediram a tomada do poder que teria mudado o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo manteve o controle da Europa Ocidental gra\u00e7as aos pactos de Yalta e Potsdam, firmados entre Stalin, Roosevelt e Churchill, mas novos Estados oper\u00e1rios burocr\u00e1ticos surgiram na Europa Oriental, e, em 1949, na China e na Coreia, apesar da pol\u00edtica traidora dos partidos comunistas. A dissolu\u00e7\u00e3o da III Internacional fora decretada por Stalin em 1943, deixando o movimento oper\u00e1rio sem uma refer\u00eancia internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O assassinato de Trotsky, em 1940, descabe\u00e7ou a rec\u00e9m-fundada IV Internacional, poucos instantes antes de se abrir uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que deixava para tr\u00e1s os 20 anos de derrotas desde 1924, quando o ascenso do nazismo e do stalinismo impunham um retrocesso geral. N\u00e3o havia nenhum dirigente que se aproximasse sequer da experi\u00eancia de seu fundador. Ao contr\u00e1rio do que previa Trotsky, a IV n\u00e3o se popularizou. A jovem dire\u00e7\u00e3o da IV, depois de adotar uma postura sect\u00e1ria ao n\u00e3o reconhecer a nova realidade dos Estados, fez uma virada para n\u00e3o s\u00f3 reconhecer esse fen\u00f4meno, mas tamb\u00e9m para estabelecer uma pol\u00edtica completamente contradit\u00f3ria com a pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser da IV: enfrentar os aparelhos burocr\u00e1ticos, como est\u00e1 expresso na introdu\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo, a vit\u00f3ria sobre o nazifascismo levou a um fortalecimento do stalinismo. Devido ao papel decisivo das massas sovi\u00e9ticas na resist\u00eancia ao nazismo e do Ex\u00e9rcito Vermelho na derrota de Hitler, o prest\u00edgio dos partidos comunistas cresceu enormemente, mesmo que o stalinismo o utilizasse para trair a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria na Fran\u00e7a, na It\u00e1lia e na Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O surgimento do pablismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O nome \u201cpablismo\u201d deriva do dirigente principal dessa corrente, o grego Michel Pablo. Essa dire\u00e7\u00e3o da IV, fraca e sem experi\u00eancia na luta de classes, foi incapaz de responder \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o e, pior, cedeu \u00e0 imensa press\u00e3o do p\u00f3s-guerra. Abandonou, assim, a base fundacional da IV: combater o stalinismo e avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, tanto nacional quanto internacional. Em 1951, durante o per\u00edodo da Guerra Fria, todos os comentaristas internacionais afirmavam que um confronto armado entre os Estados Unidos e a URSS era inevit\u00e1vel. Pablo e Mandel, impressionados com as an\u00e1lises da imprensa burguesa, chegaram a uma conclus\u00e3o funesta para a Internacional: para eles, a Terceira Guerra Mundial era inevit\u00e1vel. Sustentavam que, diante do ataque imperialista, os partidos comunistas, em seu af\u00e3 de defender a URSS, adotariam m\u00e9todos violentos para enfrentar os EUA, o que os levaria a lutar pelo poder em diversas partes do mundo; o mesmo ocorreria com os movimentos nacionalistas burgueses nos pa\u00edses dependentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nesse panorama, Pablo e Mandel propuseram o \u201centrismo <em>sui generis<\/em>\u201d nos partidos comunistas e nos partidos nacionalistas burgueses, e acompanh\u00e1-los sem cr\u00edticas mesmo depois da tomada do poder. Eles enxergavam um processo revolucion\u00e1rio irrevers\u00edvel, liderado pelas dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas e pequeno-burguesas do movimento de massas, e n\u00e3o se propunham a construir novas dire\u00e7\u00f5es que derrotassem as tradicionais \u2013 algo que \u00e9 a verdadeira raz\u00e3o de ser da IV Internacional. Tal posi\u00e7\u00e3o abandonava a defini\u00e7\u00e3o da burocracia stalinista como contrarrevolucion\u00e1ria e, consequentemente, abdicava da luta contra ela. Essa revis\u00e3o foi um completo revisionismo de um dos pontos essenciais do programa trotskista, que parte do princ\u00edpio de que a humanidade se encontra em crise em raz\u00e3o da crise de dire\u00e7\u00e3o do movimento de massas. Ou seja, o principal obst\u00e1culo para o avan\u00e7o da humanidade rumo ao socialismo \u00e9 que as massas est\u00e3o sob a dire\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, como o stalinismo, a social-democracia e o nacionalismo burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas defini\u00e7\u00f5es tiveram consequ\u00eancias graves para a IV Internacional durante a revolta em Berlim Oriental e na revolu\u00e7\u00e3o boliviana.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa caracteriza\u00e7\u00e3o, Pablo op\u00f4s-se a exigir a retirada dos tanques russos que confrontaram o levante dos trabalhadores de Berlim em 1953 \u2013 ou seja, apoiou, de fato, a burocracia sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a consequ\u00eancia mais tr\u00e1gica dessa pol\u00edtica foi a trai\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o boliviana. Em 1952, na Bol\u00edvia, ocorreu uma t\u00edpica revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria. Trabalhadores organizaram mil\u00edcias, derrotaram militarmente a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito, e surgiu a COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana) como um organismo de poder dual. As minas foram nacionalizadas e irrompeu a revolu\u00e7\u00e3o camponesa, que invadiu os latif\u00fandios e ocupou as terras. At\u00e9 1954, a principal for\u00e7a armada da Bol\u00edvia era formada pelas mil\u00edcias oper\u00e1rias dirigidas pela COB.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1940, a organiza\u00e7\u00e3o trotskista boliviana (POR) vinha conquistando enorme influ\u00eancia no movimento oper\u00e1rio, contando com importantes dirigentes do setor minerador, fabril e campon\u00eas. Seu principal dirigente, Guillermo Lora, foi o articulador das Teses de Pulacayo \u2013 uma adapta\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade boliviana, adotada pela Federa\u00e7\u00e3o dos Mineiros. Lora foi eleito senador por uma frente dirigida pela Federa\u00e7\u00e3o dos Mineiros, nas elei\u00e7\u00f5es de 1946. Na revolu\u00e7\u00e3o de 1952, o POR codirigiu as mil\u00edcias e foi cofundador da COB, detendo consider\u00e1vel peso de massas na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, o POR, seguindo a orienta\u00e7\u00e3o do Secretariado Internacional da IV Internacional, liderado por Pablo, n\u00e3o insistiu na pol\u00edtica de que a COB tomasse o poder. Ao contr\u00e1rio, apoiou criticamente o governo burgu\u00eas do MNR (movimento nacionalista burgu\u00eas). Sem a orienta\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, o movimento de massas foi gradualmente desarmado e desmobilizado, e a revolu\u00e7\u00e3o foi desmontada em poucos anos. Como consequ\u00eancia dessa trai\u00e7\u00e3o, o trotskismo boliviano deteriorou-se, entrando em um processo de sucessivas divis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto a essa pol\u00edtica, a dire\u00e7\u00e3o internacional, conduzida por Pablo, adotou um m\u00e9todo nefasto: interveio no partido franc\u00eas, destituindo sua dire\u00e7\u00e3o \u2013 que n\u00e3o estava de acordo com sua pol\u00edtica \u2013 e tentou formar uma fra\u00e7\u00e3o secreta no SWP norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Repudiando a linha do \u201centrismo <em>sui generis<\/em>\u201d e os m\u00e9todos burocr\u00e1ticos e desleais de Pablo, a maioria dos trotskistas franceses (liderados por Lambert) e ingleses (liderados por Healy), do SWP (EUA) e dos trotskistas sul-americanos (com exce\u00e7\u00e3o do POR boliviano e do grupo de Posadas na Argentina), romperam com o Secretariado Internacional (SI) dirigido por Pablo e criaram, em 1953, o Comit\u00ea Internacional (CI).<\/p>\n\n\n\n<p>Seguem-se anos de dispers\u00e3o, pois, embora uma minoria tenha permanecido com Pablo e Mandel, a maioria n\u00e3o se organizou de forma centralizada para dar resposta \u2013 especialmente o SWP, que n\u00e3o assumiu como tarefa central reorganizar e reconstruir a IV. Dessa forma, a crise persistiu desde 1953, e, por isso, foi proposta a tarefa de reconstru\u00e7\u00e3o da IV Internacional.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o cubana impulsiona a reunifica\u00e7\u00e3o: nasce o SU<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1959, um novo processo revolucion\u00e1rio sacudiu o mundo. A insurrei\u00e7\u00e3o armada liderada pelo Movimento 26 de Julho derrubou a ditadura de Batista em Cuba; iniciou-se um processo que, apesar de sua dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa, culminaria na expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. O reconhecimento e apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana foram a base para a reunifica\u00e7\u00e3o da IV Internacional em 1963. Assim, nasceu o SU (Secretariado Unificado da Quarta Internacional), liderado por Mandel e pelo SWP \u2013 enquanto Pablo havia se desligado da IV e se tornado assessor do governo burgu\u00eas de Ben Bella, na Arg\u00e9lia. No SU, integraram-se todas as for\u00e7as trotskistas que viam em Cuba um novo Estado oper\u00e1rio. Ficaram de fora os grupos ingleses e franceses que n\u00e3o reconheceram esse significado da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Esse foi um ponto de avan\u00e7o para reagrupar os grupos dispersos que se reivindicavam trotskistas. Contudo, essa unifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 nasceu com graves problemas, evidenciados pelo fato de n\u00e3o se aceitarem quaisquer balan\u00e7os das divis\u00f5es nem dos graves erros do per\u00edodo anterior do SI de Pablo e Mandel.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso foi ainda mais grave pelo fato de que essa reunifica\u00e7\u00e3o teve uma dire\u00e7\u00e3o com Mandel \u00e0 frente. Mais tarde, verificou-se que essa dire\u00e7\u00e3o, em vez de revisar e superar as posi\u00e7\u00f5es anteriores, representava uma continuidade da metodologia de ades\u00e3o \u00e0s dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas do movimento de massas. N\u00e3o se fez um balan\u00e7o dos graves erros do per\u00edodo anterior e manteve-se a mesma linha impressionista, capitulando a qualquer fen\u00f4meno \u201cprogressista\u201d que aparecesse e impactasse a \u201cvanguarda\u201d. Isso come\u00e7ou a se manifestar logo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o cubana. Mais uma vez, confundia-se o movimento de massas com sua dire\u00e7\u00e3o, vista como revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, ent\u00e3o, a vez de capitular diante da dire\u00e7\u00e3o castrista e dos movimentos guerrilheiros \u2013 novamente com resultados desastrosos para o trotskismo, que alimentou ilus\u00f5es e, posteriormente, perdeu preciosos militantes para o aventurismo guerrilheiro. Mas a l\u00f3gica era a mesma: diante de uma dire\u00e7\u00e3o prestigiosa como a cubana, o SU aderiu \u00e0 linha foquista, propondo a cria\u00e7\u00e3o de \u201cfocos\u201d guerrilheiros em toda a Am\u00e9rica Latina junto aos guevaristas, e, se necess\u00e1rio, de forma isolada. Isso levou seus grupos a se envolverem em aventuras desvinculadas do movimento oper\u00e1rio e de massas \u2013 como o PRT-ERP argentino e o POR (C) da Bol\u00edvia \u2013 entre os quais muitos se afastaram do trotskismo ou se integraram ao aparato castrista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s dire\u00e7\u00f5es do movimento de massas na revolu\u00e7\u00e3o portuguesa e em rela\u00e7\u00e3o ao eurocomunismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o derrubou o imp\u00e9rio portugu\u00eas em 1974. Como resultado da profunda crise nas For\u00e7as Armadas, obrigadas a manter a guerra nas col\u00f4nias africanas, o 25 de abril foi deflagrado por um levante de oficiais do ex\u00e9rcito, cansados da intermin\u00e1vel guerra colonial e da ditadura que os obrigava a lutar em uma guerra sem futuro. Dessa forma, emergiram setores rebeldes da oficialidade \u2013 inclusive de alta patente \u2013 que formaram o MFA e organizaram um levante que expulsou do poder o ditador Caetano. Contudo, a queda da ditadura gerou um profundo processo revolucion\u00e1rio oper\u00e1rio e popular, que propiciou formas de poder dual, semelhante ao processo da revolu\u00e7\u00e3o russa. As sucessivas ondas de lutas levaram a governos burgueses com crescente influ\u00eancia do MFA e do Partido Comunista, com um discurso radical. Nesse processo, o ativismo e as tend\u00eancias mao\u00edsta e ultraesquerdista apoiavam o Movimento das For\u00e7as Armadas \u2013 uma organiza\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa pr\u00f3-imperialista, mas que se autodenominava de esquerda. Na realidade, o MFA era o pilar que sustentava o Estado burgu\u00eas contra a revolu\u00e7\u00e3o. A LCI, organiza\u00e7\u00e3o que seguia a linha de Mandel, assumiu as posi\u00e7\u00f5es dos mao\u00edstas e ultra-esquerdistas, apoiando at\u00e9 mesmo o MFA que governava ou cogovernava o imp\u00e9rio portugu\u00eas. Mais uma vez, capitulavam \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do movimento de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, o seguidismo do SU assumiu outra faceta, acompanhando o chamado eurocomunismo. Surgido nos partidos comunistas da Europa Ocidental \u2013 especialmente o italiano e o espanhol \u2013, na d\u00e9cada de 1970, o eurocomunismo representava, nesses partidos, sua crescente integra\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da democracia burguesa, seja a n\u00edvel parlamentar ou na administra\u00e7\u00e3o municipal. Assim, passaram a depender, inclusive economicamente, da burguesia de seus pa\u00edses, enfraquecendo sua depend\u00eancia tradicional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS. Isso era positivo apenas no sentido de aprofundar a crise do stalinismo como aparato mundial. Na pr\u00e1tica, transformavam esses partidos comunistas \u201c<em>de servos do Kremlin em servos de sua burguesia imperialista<\/em>\u201d (declara\u00e7\u00e3o da Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique, de 1979). Por essa raz\u00e3o, eles n\u00e3o podiam originar nenhuma tend\u00eancia progressista, muito menos revolucion\u00e1ria. Contudo, Mandel atribu\u00eda a eles um car\u00e1ter progressista \u2013 ou quase progressista.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa, o eurocomunismo repudiou a express\u00e3o \u201cditadura do proletariado\u201d. Exaltava a \u201cdemocracia como valor universal\u201d e, na pr\u00e1tica, defendia a democracia burguesa, a democracia imperialista, com argumentos semelhantes aos de Kautsky contra os bolcheviques, entre 1918 e 1920.<\/p>\n\n\n\n<p>Mandel saiu em defesa da express\u00e3o \u201cditadura do proletariado\u201d em um texto intitulado <em>Democracia socialista e ditadura do proletariado<\/em>, posteriormente aprovado pelo congresso do SU, no qual, ao alegar defend\u00ea-la, cedeu totalmente \u00e0s press\u00f5es dos eurocomunistas. Acabava por apresentar um modelo de ditadura do proletariado que era, na verdade, uma capitula\u00e7\u00e3o ao eurocomunismo e \u00e0 social-democracia. Mais uma vez, adaptava-se ao fen\u00f4meno pol\u00edtico da hora. Contra esse texto, Moreno escreveu <em>Ditadura revolucion\u00e1ria do proletariado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe destacar que, naquele momento, o SU come\u00e7ava a mudar o enfoque de sua capitula\u00e7\u00e3o. Como se veria mais tarde de forma plena e aberta, as press\u00f5es mais intensas passaram a vir da democracia burguesa europeia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nicar\u00e1gua: o salto adaptativo que dividiu o SU<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 1970, um processo revolucion\u00e1rio se abriu na Nicar\u00e1gua e na Am\u00e9rica Central. Na Nicar\u00e1gua, em 1979, o conflito estendeu-se pelo interior do pa\u00eds e pelas cidades, e a ditadura de Somoza n\u00e3o resistiu \u00e0 guerrilha sandinista; as For\u00e7as Armadas foram dizimadas e o FSLN entrou em Man\u00e1gua e tomou o poder. Contudo, apesar de terem o poder em m\u00e3os, os sandinistas formaram um governo de \u201cunidade nacional\u201d com a burguesia opositora \u2013 integrando nomes como Violeta Chamorro, Alfonso Robelo, entre outros. A corrente morenista, ent\u00e3o organizada como Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique (FB) no SU, organizou a Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar para atuar na Nicar\u00e1gua \u2013 oficialmente reconhecida pelo PST colombiano, tendo alcan\u00e7ado mais de mil inscritos. Essa brigada dirigiu-se \u00e0 Nicar\u00e1gua e participou da luta armada, e, ap\u00f3s a derrota da ditadura, estabeleceu-se na capital para defender a forma\u00e7\u00e3o de sindicatos independentes. A FB criticava a participa\u00e7\u00e3o da burguesia no governo. O SU apoiou esse governo, defendendo-o como \u201cgoverno oper\u00e1rio e campon\u00eas\u201d. A\u00ed se configurou o fato crucial: a FSLN deteve e expulsou os integrantes da Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar, entregando-os \u00e0 pol\u00edcia panamenha, que os torturou. O SU enviou uma delega\u00e7\u00e3o \u00e0 Nicar\u00e1gua que apoiou a decis\u00e3o do governo e n\u00e3o defendeu os integrantes da brigada. Mais uma vez, o apoio vergonhoso foi direcionado \u00e0s dire\u00e7\u00f5es pequeno-burguesas, qualificando-as como revolucion\u00e1rias \u2013 desta vez, com dois agravantes: em termos de princ\u00edpios \u2013 pois se recusaram a construir uma organiza\u00e7\u00e3o trotskista no pa\u00eds e em Cuba e El Salvador, alegando que j\u00e1 existia uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u2013 e, moralmente, por se negarem a defender os revolucion\u00e1rios perseguidos e apoiarem sua expuls\u00e3o. Foi a esse ponto que chegou o apoio vergonhoso \u00e0 FSLN.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessa falta de moral e princ\u00edpios, tais atitudes entravam em contradi\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria tese sobre \u201cdemocracia socialista e ditadura do proletariado\u201d. Em menos de um ano, os defensores renegaram suas teses sobre \u201cdemocracia socialista\u201d e apoiaram a decis\u00e3o da FSLN de expulsar os revolucion\u00e1rios brigadistas simplesmente por quererem adotar uma pol\u00edtica distinta na revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense. Nesse momento, a FB decidiu romper com o SU.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia um tra\u00e7o permanente em toda essa trajet\u00f3ria de capitula\u00e7\u00e3o, que as Teses de Funda\u00e7\u00e3o da LIT definiram claramente: no curso dessa longa marcha, cada grande acontecimento da luta de classes \u2013 sobretudo cada grande triunfo revolucion\u00e1rio de dimens\u00e3o mundial \u2013 provocava, em determinado setor do nosso movimento, uma tend\u00eancia de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica ou nacionalista desse triunfo.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria internacional implica tamb\u00e9m a luta pela destrui\u00e7\u00e3o de todas as dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas ou nacionalistas que competem entre si para dirigir as massas. O processo de edifica\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria significa, ao mesmo tempo, uma \u201cguerra implac\u00e1vel\u201d (como diz com raz\u00e3o o Programa de Transi\u00e7\u00e3o) contra qualquer corrente burocr\u00e1tica e\/ou pequeno-burguesa do movimento de massas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O apoio a Gorbatchov<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Entre as adapta\u00e7\u00f5es n\u00e3o mais de processos revolucion\u00e1rios, mas sim de processos reacion\u00e1rios \u2013 como a restaura\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013, destacou-se a posi\u00e7\u00e3o de Mandel e do SU sobre a perestroika e a glasnost de Gorbatchov. Partindo do pressuposto de que a burocracia jamais poderia restaurar o capitalismo, o SU embarcou em apoio \u00e0 ala restauracionista, declarando-a progressista por ser democratizante. Mais uma vez, apoiavam setores reacion\u00e1rios em nome de supostamente serem uma ala progressista. Dessa vez, isso conduziu a uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 nova dire\u00e7\u00e3o do Kremlin, que liderou a restaura\u00e7\u00e3o no Leste europeu utilizando a chamada \u201crea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, atraindo a velha esquerda de origem stalinista, que se reconverteu em escala mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, a adapta\u00e7\u00e3o do SU intensificou-se cada vez mais, passando de se relacionar com dire\u00e7\u00f5es de processos revolucion\u00e1rios para seguir o que acontecia na esquerda em geral; o foco passou a ser a adapta\u00e7\u00e3o aos fen\u00f4menos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/perspectivamarxista.org\/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su-parte-ii\/\" title=\"\">Leia a segunta parte dessa s\u00e9rie<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma corrente revisionista assumiu a dire\u00e7\u00e3o e foi o maior obst\u00e1culo para a constru\u00e7\u00e3o da IV A IV Internacional, algum tempo depois de fundada, teve de enfrentar press\u00f5es violentas contra seu programa e sua exist\u00eancia. 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