{"id":8478,"date":"2025-04-14T19:34:22","date_gmt":"2025-04-14T19:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8478"},"modified":"2025-04-14T19:34:22","modified_gmt":"2025-04-14T19:34:22","slug":"a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/04\/14\/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su-parte-ii\/","title":{"rendered":"A luta pela reconstru\u00e7\u00e3o da IV contra o \u00abtrotskismo\u00bb reformista (Parte II)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Leste Europeu provoca um salto de qualidade no SU: do revisionismo ao reformismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o SU \u2013 que ainda se autodenomina \u201cIV Internacional\u201d \u2013 deixou de ser trotskista, embora mantenha o nome da IV. E j\u00e1 abandonou o programa revolucion\u00e1rio de tomada do poder, de luta pela ditadura do proletariado. O curso do revisionismo para o reformismo completou-se a partir dos processos do Leste, que caracterizaram como uma profunda derrota do movimento de massas e abriram uma \u201ccrise\u201d no \u201cprojeto socialista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o ex-SU deu um \u201csalto\u201d de uma organiza\u00e7\u00e3o revisionista para o reformismo: al\u00e9m de eliminar explicitamente de seu programa a estrat\u00e9gia da ditadura do proletariado, tudo passou a se orientar pela democracia burguesa ou pela \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d, abandonando inclusive a concep\u00e7\u00e3o da centralidade da classe oper\u00e1ria no processo revolucion\u00e1rio. A perda de refer\u00eancia a partir do Leste refletiu-se no fato de que passaram a agir como os partidos reformistas social-democratas ou estalinistas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A experi\u00eancia do Brasil<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O que aconteceu no Brasil ilustra bem esse processo. O SU, por meio de sua organiza\u00e7\u00e3o, a DS, esteve presente na forma\u00e7\u00e3o do PT nos anos 1980, quando caracterizou a dire\u00e7\u00e3o lulista como clasista ou mesmo revolucion\u00e1ria, acompanhando seus passos como sua ala esquerda, na verdade, uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201csua majestade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se tratava de um entrismo para eles; era uma participa\u00e7\u00e3o como corrente dentro de um partido estrat\u00e9gico. J\u00e1 nos anos 1990, a DS integrou-se cada vez mais ao aparato petista. Quanto mais elegiam parlamentares e, posteriormente, prefeitos, mais se integravam, e seus quadros passavam a fazer parte do aparato partid\u00e1rio e do Estado burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou-se a defender, de forma t\u00e1tica, a participa\u00e7\u00e3o em governos burgueses de colabora\u00e7\u00e3o de classes, como no governo de Lula no Brasil. Quando Lula assumiu o governo federal em 2003, a DS \u2013 ent\u00e3o se\u00e7\u00e3o brasileira do SU \u2013 indicou ministros como Miguel Rossetti e uma s\u00e9rie de quadros para fun\u00e7\u00f5es governamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da prefeitura de Porto Alegre, foram os impulsionadores locais das \u201cpol\u00edticas sociais\u201d do PT, semelhantes \u00e0s que a social-democracia havia aplicado anteriormente. O resultado foi que a DS acabou se afastando do SU e um pequeno setor de quadros formou um novo grupo que permaneceu no SU e, mais tarde, foi para o PSOL, passando por novas divis\u00f5es. Mais uma vez, considerando o PSOL como partido estrat\u00e9gico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os processos do Leste significaram, para a imensa maioria da esquerda, o in\u00edcio \u2013 ou o aprofundamento \u2013 da bancarrota te\u00f3rica, program\u00e1tica e pol\u00edtica. Influenciada pelo stalinismo e por suas variantes \u2013 de modo que o fim da URSS representou, evidentemente, uma derrota hist\u00f3rica \u2013, em diferentes medidas e com diferentes tons, quase toda a esquerda lamentou o \u201cfim do socialismo real\u201d, o ep\u00edlogo do \u201cbloco socialista\u201d, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, ficaram ainda mais expostos aos efeitos da brutal campanha ideol\u00f3gica do imperialismo sobre a \u201cmorte do socialismo\u201d e a \u201cinvencibilidade\u201d do capitalismo e da democracia burguesa. O caso do ex-SU n\u00e3o foi diferente; ele foi, na verdade, vanguarda te\u00f3rica desse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o ex-SU, a queda do muro de Berlim gerou nada menos que uma \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d. Daniel Bensa\u00efd, principal te\u00f3rico dessa corrente ap\u00f3s Mandel, intitulou um documento \u2013 apresentado no XIV Congresso do SU em julho de 1995 \u2013 com esses termos. Nesse texto, Bensa\u00efd define os impactos das mudan\u00e7as ocasionadas pelo fim da URSS como uma \u201cgrande transforma\u00e7\u00e3o mundial\u201d, especificamente, como uma \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d. Destaca-se que ele n\u00e3o fala de \u201cper\u00edodo\u201d ou de \u201cetapa\u201d, mas sim de \u201c\u00e9poca hist\u00f3rica\u201d. Concretamente, para o ex-SU, havia terminado a \u00e9poca definida por Lenin como a de \u201cguerras, crises e revolu\u00e7\u00f5es\u201d, iniciada com a Primeira Guerra Mundial e a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro \u2013 que o marxismo entende como uma \u00e9poca revolucion\u00e1ria, a \u00e9poca imperialista \u2013 dando lugar a outra diferente:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"is-style-default has-normal-font-size\">\u201c<em>N\u00e3o estamos mais no per\u00edodo pol\u00edtico de 1968, ainda n\u00e3o sa\u00edmos da onda longa depressiva e estamos no final de uma \u00e9poca, iniciada com a Primeira Guerra Mundial e com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>.\u201d <sup data-fn=\"6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf\" class=\"fn\"><a id=\"6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf-link\" href=\"\/#6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u201cnova \u00e9poca\u201d n\u00e3o s\u00f3 p\u00f5e tudo em quest\u00e3o, como, para Bensa\u00efd, representa um retrocesso do movimento oper\u00e1rio de quase um s\u00e9culo, ao identificar o \u201cponto de partida\u201d dos marxistas numa coordenada anterior a 1914:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">\u00ab[\u2026]<em> o laborat\u00f3rio que se abre tem uma amplitude compar\u00e1vel \u00e0 do in\u00edcio do s\u00e9culo, onde se forjou a cultura te\u00f3rica e pol\u00edtica do movimento oper\u00e1rio: an\u00e1lise do debate sobre o imperialismo, sobre a quest\u00e3o nacional; debate estrat\u00e9gico acerca da reforma e da revolu\u00e7\u00e3o, batalha sobre as formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social, parlamentar.<\/em>\u00ab<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u201cnova \u00e9poca\u201d seria essencialmente defensiva, pois, segundo Bensa\u00efd, inaugurou-se com uma derrota profunda do movimento oper\u00e1rio: o \u201c<em>desmantelamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sem resultar em uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/em>\u201d. Dessa forma, delinearam-se os contornos para toda uma \u00e9poca: \u201c<em>o enfraquecimento social dos trabalhadores<\/em>\u201d e a \u201c<em>crise do projeto socialista<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bensa\u00efd atribu\u00eda tais rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as desfavor\u00e1veis n\u00e3o a fatores objetivos, mas a elementos subjetivos, como o retrocesso ideol\u00f3gico do movimento oper\u00e1rio decorrente dos \u201c<em>efeitos profundos da crise do \u2018socialismo realmente existente\u2019<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Alertamos para o crit\u00e9rio metodol\u00f3gico de Bensa\u00efd: ele n\u00e3o defende a abertura de um longo per\u00edodo de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas do capitalismo, que possibilitaria reformas duradouras e a eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida das massas. Nada disso. Bensa\u00efd afirma que se inicia uma nova \u00e9poca \u2013 que ele considera reacion\u00e1ria \u2013 a partir do \u201cretrocesso na consci\u00eancia\u201d e da \u201ccrise do movimento oper\u00e1rio\u201d, ou seja, a partir de elementos subjetivos.<br>Bensa\u00efd declara:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">\u201c<em>As mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas globais, depois da queda do Muro de Berlim, do desmantelamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da Guerra do Golfo, deram o \u00faltimo golpe, causando uma crise aberta \u2013 n\u00e3o apenas conjuntural \u2013 nas formas de anti-imperialismo radical da fase anterior [\u2026] Neste momento, a tend\u00eancia dominante internacionalmente \u00e9 o enfraquecimento do movimento social (come\u00e7ando pelo sindical) [\u2026] A esquerda revolucion\u00e1ria est\u00e1 hoje mais pulverizada e enfraquecida do que h\u00e1 cinco anos [\u2026] Para a reconstru\u00e7\u00e3o de um projeto revolucion\u00e1rio e de uma Internacional, partimos de condi\u00e7\u00f5es deterioradas.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em nenhum momento ele ressalta, n\u00e3o somente a import\u00e2ncia, mas o pr\u00f3prio fato da destrui\u00e7\u00e3o do aparato contrarrevolucion\u00e1rio stalinista mundial pelas massas sovi\u00e9ticas. Esse fato colossal sequer aparece na an\u00e1lise de Bensa\u00efd. E o mais importante, ele n\u00e3o responsabiliza a velha burocracia stalinista pela restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na ex-URSS, mas sim uma \u201cderrota\u201d ou \u201cretrocesso\u201d pol\u00edtico-ideol\u00f3gico do movimento oper\u00e1rio. O ex-SU respondeu, assim, \u00e0 grande quest\u00e3o de quem, quando e como o capitalismo foi restaurado, em un\u00edssono com as vi\u00favas do stalinismo: culpando os \u201climites\u201d das massas trabalhadoras e n\u00e3o a burocracia termidoriana e totalit\u00e1ria do Kremlin.<\/p>\n\n\n\n<p>A tend\u00eancia hist\u00f3rica do ex-SU \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o e capitula\u00e7\u00e3o aos grandes aparatos e \u00e0 \u201copini\u00e3o geral\u201d da esquerda, num momento decisivo da hist\u00f3ria, levou-o a um novo seguidismo: juntaram-se ao triste coro de lamentos dos nost\u00e1lgicos do stalinismo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O programa da \u201cnova \u00e9poca\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Tudo isso serve para justificar uma grande mudan\u00e7a na estrutura program\u00e1tica. Para Bensa\u00efd e para o SU, hoje a revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cnova \u00e9poca\u201d exige, nas palavras de Bensa\u00efd, uma \u201credefini\u00e7\u00e3o program\u00e1tica\u201d, a \u201cconstru\u00e7\u00e3o de um novo programa\u201d. Isso, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 um problema. Qualquer mudan\u00e7a importante na realidade requer uma atualiza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica. O problema do ex-SU foram as premissas te\u00f3ricas a partir das quais se iniciou a elabora\u00e7\u00e3o desse \u201cnovo\u201d programa, e o m\u00e9todo que se empregou para constru\u00ed-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Bensa\u00efd e o ex-SU partiram do fato de que a queda da URSS significou um \u201ceclipse da raz\u00e3o estrat\u00e9gica\u201d. Tudo estava \u201cem quest\u00e3o\u201d e eles teriam carta branca para abandonar de vez qualquer legado trotskista. Assim, abandonaram o m\u00e9todo trotskista de elaborar o programa a partir das necessidades objetivas da classe trabalhadora, para absolutizar o elemento subjetivo \u2013 a consci\u00eancia das massas \u2013 subordinando, dessa forma, o programa \u00e0 \u201ccorrela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d que expressaria esse \u201catraso\u201d da consci\u00eancia das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Consistente com a caracteriza\u00e7\u00e3o de que a \u00e9poca de crises e revolu\u00e7\u00f5es, iniciada em 1914, havia chegado ao fim, e a nova \u00e9poca estava marcada pelo retrocesso, o problema do poder foi relegado a um futuro incerto, pois as massas n\u00e3o o encarariam como \u201cimediato\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a conclus\u00e3o que se tirou foi de \u201cadaptar\u201d o programa a essa nova \u00e9poca sem possibilidades revolucion\u00e1rias. Bensa\u00efd chegou a propor, em seu texto, as \u201cnovas\u201d coordenadas program\u00e1ticas p\u00f3s-Leste. Na Europa \u2013 o centro hist\u00f3rico do SU \u2013 o objetivo estrat\u00e9gico tornou-se a luta por \u201cuma Europa social e solid\u00e1ria\u201d, \u201cuma Europa pac\u00edfica e solid\u00e1ria\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cEuropa financeira e antidemocr\u00e1tica\u201d. Algo muito semelhante \u00e0s formula\u00e7\u00f5es atuais de boa parte da esquerda europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de descrever o fim da URSS, as \u201cnovas institui\u00e7\u00f5es\u201d da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o problema da \u201creestrutura\u00e7\u00e3o produtiva\u201d, etc., na nova ordem unipolar, Bensa\u00efd prop\u00f4s uma vis\u00e3o e um programa completamente reformista, nos moldes do conceito liberal de \u201ccidadania universal\u201d e da ut\u00f3pica \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d do capitalismo \u2013 ideias que logo foram divulgadas amplamente em espa\u00e7os como os F\u00f3runs Sociais Mundiais e diversas ONGs.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">\u201c<em>Outra forma de coopera\u00e7\u00e3o e crescimento pode ser concebida: organismos reguladores internacionais substituindo o Banco Mundial, FMI, OMC e o G-7; organismos para a promo\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional entre pa\u00edses de produtividades similares; transfer\u00eancia planejada de riquezas dos pa\u00edses que as acumularam durante s\u00e9culos em detrimento dos pa\u00edses pobres; novos mecanismos de regula\u00e7\u00e3o dos interc\u00e2mbios que permitam projetos de desenvolvimento diferenciados; desconex\u00e3o parcial e controlada do mercado mundial e uma pol\u00edtica de pre\u00e7os justa; uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria negociada neste contexto.<\/em>\u201d (Cita\u00e7\u00f5es extra\u00eddas do texto \u201cUma mudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">Como parte da ideia de um mundo \u201cregulado\u201d e \u201cnegociado\u201d na tentativa de \u201creformular os primeiros contornos de uma proposta que responda ao conjunto da ordem estabelecida\u201d, Bensa\u00efd continua enunciando os pontos centrais do que ele chama de \u201cprograma de transi\u00e7\u00e3o\u201d. Contudo, o leitor demora a perceber que o conte\u00fado de tal programa n\u00e3o passa de um programa m\u00ednimo social-democrata, baseado no conceito de \u201ccidadania\u201d e de direitos civis (dentro do Estado burgu\u00eas), com a aus\u00eancia marcante de qualquer medida anticapitalista. Por isso, quando fala em programa, refere-se ao que \u00e9 hoje seu programa de transi\u00e7\u00e3o\u2026 um programa de reformas!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\">Esse quadro pode ser utilizado para tudo, exceto para estabelecer um programa para um partido revolucion\u00e1rio e uma internacional que se identifique com a IV Internacional de Leon Trotsky.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 hoje o SU?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de utilizar o nome \u201cIV Internacional\u201d, a organiza\u00e7\u00e3o internacional e os partidos do SU funcionam de maneira oposta ao programa e aos estatutos da IV, fundada em 1938, pois se configuram como uma federa\u00e7\u00e3o frouxa de partidos e movimentos reformistas e centristas. Apesar de terem perdido for\u00e7a nas \u00faltimas d\u00e9cadas, em consequ\u00eancia de seu giro pol\u00edtico \u2013 como se reflete em seu \u00faltimo congresso, em 2018, com uma queda significativa no n\u00famero de militantes \u2013 hoje eles servem como ponto de encontro para grupos, dirigentes ou intelectuais de esquerda que se afastaram das posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e evolu\u00edram para a direita ap\u00f3s a queda do stalinismo, em decorr\u00eancia dos processos do Leste europeu. Mas suas elabora\u00e7\u00f5es possuem alcance internacional e hoje servem para justificar, teoricamente, a capitula\u00e7\u00e3o da imensa maioria da esquerda \u00e0 democracia burguesa e ao reformismo. Como \u00e9 t\u00edpico das organiza\u00e7\u00f5es reformistas, as refer\u00eancias pol\u00edticas do SU atual s\u00e3o seus parlamentares ou dirigentes de partidos como o Bloco de Esquerda e o Podemos. <\/p>\n\n\n\n<p>O SU foi uma das principais correntes ideol\u00f3gicas impulsionadoras dos partidos \u201camplos\u201d e \u201canticapitalistas\u201d, que na realidade apresentam um programa reformista, principalmente na Europa (como o Bloco de Esquerda em Portugal, o Podemos no Estado espanhol, entre outros).<\/p>\n\n\n\n<p>Sua organiza\u00e7\u00e3o mais importante, a Liga Comunista Revolucion\u00e1ria (LCR) francesa, foi dissolvida para fundar o Novo Partido Anticapitalista (NPA) em 2009, com um programa reformista, abandonando explicitamente a luta pela ditadura do proletariado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m possuem partidos e movimentos na \u00c1sia, como o LPP paquistan\u00eas, que evoluiu do trotskismo para um partido amplo reformista no modelo europeu. Em seu grupo italiano, a Sinistra Cr\u00edtica (Esquerda Cr\u00edtica), historicamente comandada por Livio Mait\u00e1n \u2013 que teve papel importante no SU e praticou a linha do entrismo sem diferencia\u00e7\u00e3o na Refunda\u00e7\u00e3o Comunista \u2013, chegou a ter parlamentares, inclusive um senador, e acompanhou o fracasso e a decad\u00eancia da Refunda\u00e7\u00e3o, devido ao seu apoio ao governo burgu\u00eas de Romano Prodi. Hoje, ap\u00f3s uma queda significativa de sua milit\u00e2ncia, o Sinistra Cr\u00edtica dividiu-se em dois, e o SU na It\u00e1lia ficou reduzido a um punhado de militantes sem interven\u00e7\u00e3o real no movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, o SU inclui tanto o NPA (a maior parte dos militantes, com alguns setores fora do SU) quanto a Esquerda Anticapitalista, corrente que rompeu com o NPA em 2011-2012 para aderir \u00e0 Frente de Esquerda, de Jean-Luc M\u00e9lenchon.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o fizeram nenhum balan\u00e7o cr\u00edtico da sucessiva decad\u00eancia dos partidos mais importantes que chegaram a ter, pois para eles a culpa desses fracassos \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 \u201ccrise do projeto socialista\u201d, ou ao \u201cretrocesso da consci\u00eancia das massas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior ainda, avan\u00e7am cada vez mais no sentido da dissolu\u00e7\u00e3o e da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa. Foram avan\u00e7ando mais ainda nessa din\u00e2mica e hoje aceitam programas ainda mais amenos do que os iniciais do giro para os partidos amplos. Seu \u00faltimo congresso confirmou a orienta\u00e7\u00e3o dos anos anteriores. O ex-SU, armado com suas elabora\u00e7\u00f5es p\u00f3s-Leste, transformou-se num entusi\u00e1stico impulsionador dos partidos neorreformistas, aceitando seus programas, que n\u00e3o defendem o socialismo \u2013 nem sequer nos dias de festa \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 defendem a democracia burguesa, como s\u00e3o diretamente pr\u00f3-imperialistas. \u00c9 o caso do Podemos (onde tamb\u00e9m dissolveram seu partido Esquerda Anticapitalista); do Bloco de Esquerda portugu\u00eas, que integravam com uma for\u00e7a muito importante e tamb\u00e9m acabaram se dissolvendo; ou do SYRIZA na Gr\u00e9cia, no qual continuaram defendendo a participa\u00e7\u00e3o da DEA mesmo depois que o SYRIZA assumiu o governo, submetendo-se totalmente \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, apesar de sua ala grega, OKDE-Spartacus, estar ligada ao Antarsya e ser contr\u00e1ria a essa pol\u00edtica. E, algum tempo depois, obrigados pela trai\u00e7\u00e3o de Tsipras ao apoiar a sa\u00edda da DEA do SYRIZA, n\u00e3o fizeram um balan\u00e7o s\u00e9rio e continuaram aplicando a mesma pol\u00edtica desastrosa em Portugal e no Estado espanhol.<br>Os militantes do SU sequer prop\u00f5em mais o conceito \u201canticapitalista\u201d para a conforma\u00e7\u00e3o desses partidos. Basta ser \u201cantiausteridade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, os quadros do SU formam a espinha dorsal da dire\u00e7\u00e3o do Bloco de Esquerda. O Bloco apoiou o Partido Socialista (PSP) \u2013 o velho partido social-democrata portugu\u00eas, que se desgastou profundamente quando seu ex-primeiro-ministro S\u00f3crates foi processado e preso \u2013 para que pudesse formar um governo, defendendo, assim, o governo burgu\u00eas do PSP de Ant\u00f4nio Costa, com o argumento de que este adotaria medidas m\u00ednimas \u201cantiausteridade\u201d contra a \u201cdireita\u201d. Mas esse governo, chamado de \u201cgeringon\u00e7a\u201d, s\u00f3 pode se manter porque se baseia no apoio do Bloco e do Partido Comunista portugu\u00eas, e tampouco \u00e9 \u201cantiausteridade\u201d. N\u00e3o pode ser antiausteridade se se submete \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e aos seus ditames. Recentemente, o pr\u00f3prio Bloco, em resolu\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o nacional de 22\/04\/18, simplesmente pediu que fossem cumpridos certos compromissos \u2013 \u201c<em>compromissos para valer. O acordo entre o partido socialista e os partidos de sua esquerda assentou um compromisso. O Bloco de Esquerda e o PCP negociaram sucessivos or\u00e7amentos dentro do quadro de restri\u00e7\u00f5es impostas pelo governo, sob imposi\u00e7\u00e3o de Bruxelas, mesmo n\u00e3o concordando com elas<\/em>\u201d. Em seguida, faz queixas e reclama\u00e7\u00f5es sobre medidas, como a aus\u00eancia de concursos, etc. Ou seja, a pol\u00edtica do Bloco \u00e9 sustentar o governo do Partido Socialista portugu\u00eas, que, segundo eles, n\u00e3o rompeu com a austeridade por n\u00e3o ter rompido os ditames da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Podemos passou de se declarar \u201cantissistema\u201d e de \u201cn\u00e3o se aliar com as castas\u201d para buscar uma alian\u00e7a com o PSOE, o velho partido social-democrata, e continua sendo a aposta do Esquerda Anticapitalista, o grupo do SU no Estado espanhol. Os integrantes do Esquerda Anticapitalista n\u00e3o s\u00f3 se dissolveram, como incorporaram o programa e o discurso da dire\u00e7\u00e3o do Podemos, como Iglesias.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso da Fran\u00e7a demonstra os resultados dessa estrat\u00e9gia, pois \u00e9 o pa\u00eds onde o antigo SU possu\u00eda seu partido mais importante, a LCR. Depois que o SU implementou a pol\u00edtica para que a LCR suavizasse seu programa e se dissolvesse no NPA, ocorreu uma profunda crise, ao ser superado eleitoralmente pelos reformistas da Frente de Esquerda (FDG) de M\u00e9lenchon, o que levou ao surgimento de uma ruptura \u00e0 direita no NPA \u2013 a corrente Esquerda Anticapitalista, que aderiu ao FDG. Assim, reduziu-se de forma dr\u00e1stica a for\u00e7a que a LCR chegou a ter no in\u00edcio dos anos 2000, quando contava com cerca de 2.000 a 3.000 militantes e alcan\u00e7ava aproximadamente 5% dos votos em termos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, tamb\u00e9m aparece resist\u00eancia. Hoje, h\u00e1 uma crise no NPA, com uma disputa entre quadros de v\u00e1rias tend\u00eancias de esquerda que se op\u00f5em ao giro para a direita e aos setores que seguem a dire\u00e7\u00e3o do SU. Os setores de esquerda chegaram a ter maioria na dire\u00e7\u00e3o a partir de 2015, com um projeto que contrariava a dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do SU. Esta fez grandes esfor\u00e7os para construir uma plataforma comum entre os setores que respondiam \u00e0 maioria. Para conseguir unir esses setores, a maioria sequer defendeu sua pol\u00edtica no congresso, aceitando que, na Fran\u00e7a, o NPA disputasse as elei\u00e7\u00f5es com um candidato oper\u00e1rio, P. Poutou, e n\u00e3o apoiasse M\u00e9lenchon, que est\u00e1 ligado ao Podemos e ao Bloco de Esquerda. Dessa forma, na Fran\u00e7a, o SU tolerou uma pol\u00edtica diferente de sua orienta\u00e7\u00e3o geral de apoio aos neorreformistas. Mas, ainda assim, n\u00e3o se conseguiu formar uma maioria no \u00faltimo congresso do NPA em 2018, e a crise persiste.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s oito anos sem congresso, em 2018 realizou-se o congresso do SU e, mais uma vez, foi votada a pol\u00edtica dos partidos amplos e a orienta\u00e7\u00e3o de construir o Podemos, o Bloco de Esquerda etc. Houve uma plataforma de oposi\u00e7\u00e3o, com posi\u00e7\u00f5es enfrentadas \u00e0 maioria, mas com um voto bastante reduzido.<\/p>\n\n\n\n<p>O SU, hoje, j\u00e1 n\u00e3o cumpre um papel nem tem qualquer possibilidade de participar da luta pela IV Internacional, pela internacional revolucion\u00e1ria. Aqueles que ainda participam dessa federa\u00e7\u00e3o e t\u00eam outra perspectiva \u2013 se ainda desejam lutar pela IV Internacional \u2013 veem, cada vez mais, a necessidade de buscar alternativas. O caminho passa pela reconstru\u00e7\u00e3o da IV a partir das bases program\u00e1ticas fundacionais, com todas as atualiza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e com a mesma concep\u00e7\u00e3o de partido e de Internacional que esteve na base de sua funda\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a proposta da LIT.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf\">Todas as cita\u00e7\u00f5es de Bensa\u00efd correspondem ao seu documento apresentado no congresso de 1995. <a href=\"#6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/perspectivamarxista.org\/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su\/\" title=\"\">Leia a primeira parte desta s\u00e9rie<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Leste Europeu provoca um salto de qualidade no SU: do revisionismo ao reformismo Hoje, o SU \u2013 que ainda se autodenomina \u201cIV Internacional\u201d \u2013 deixou de ser trotskista, embora mantenha o nome da IV. E j\u00e1 abandonou o programa revolucion\u00e1rio de tomada do poder, de luta pela ditadura do proletariado. O curso do revisionismo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8772,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Todas as cita\u00e7\u00f5es de Bensa\u00efd correspondem ao seu documento apresentado no congresso de 1995.\",\"id\":\"6d84966c-683a-4bc8-a563-0966646d7faf\"}]"},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-8478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reforma-e-revolucao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8478\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8772"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}