{"id":8853,"date":"2025-05-27T22:55:31","date_gmt":"2025-05-28T01:55:31","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8853"},"modified":"2025-05-27T22:55:31","modified_gmt":"2025-05-28T01:55:31","slug":"a-70-anos-da-nakba-debate-sobre-a-questao-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/05\/27\/a-70-anos-da-nakba-debate-sobre-a-questao-nacional\/","title":{"rendered":"A 70 anos da Nakba: debate sobre a quest\u00e3o nacional"},"content":{"rendered":"\n<p>Aos 70 anos da proclama\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, que para os palestinos significou a Nakba (cat\u00e1strofe), \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma discuss\u00e3o te\u00f3rica e program\u00e1tica sobre as vis\u00f5es fundamentais relacionadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos pelos fundamentos do sionismo, a corrente pol\u00edtica que produziu essa cat\u00e1strofe \u2013 a cria\u00e7\u00e3o de um Estado fundado sob o pretexto de abrigar o povo judeu, que sempre foi baseado numa defini\u00e7\u00e3o racial excludente. Essa defini\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, necessariamente geraria uma situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica, pois tinha como pressuposto que a maioria da popula\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio, a Palestina, deveria ser judia. Se a ampla maioria era \u00e1rabe, como tornar realidade esse pressuposto b\u00e1sico do sionismo? Isso s\u00f3 seria poss\u00edvel se fosse garantido aos judeus essa maioria, ou seja, se se expulsasse a maioria da popula\u00e7\u00e3o existente, palestinos, e se garantisse que eles n\u00e3o poderiam voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>A Nakba n\u00e3o foi o produto fortuito de uma guerra que estalou devido \u00e0 rea\u00e7\u00e3o dos governos \u201cfeudais\u201d \u00e1rabes, como sempre afirmaram os l\u00edderes sionistas, que at\u00e9 hoje chamam essa opera\u00e7\u00e3o de Guerra da Independ\u00eancia, mas sim o resultado de uma opera\u00e7\u00e3o de limpeza \u00e9tnica autorizada pela recomenda\u00e7\u00e3o de partilha da ONU de 1947. Essa opera\u00e7\u00e3o foi planejada com v\u00e1rias fases, para garantir que os \u00e1rabes residentes h\u00e1 s\u00e9culos no territ\u00f3rio do antigo mandato do imperialismo ingl\u00eas sobre a Palestina fossem retirados rapidamente, para permitir que os judeus se tornassem franca maioria. O planejamento minucioso dessa opera\u00e7\u00e3o pelo quartel-general sionista encabe\u00e7ado por David Ben Gurion est\u00e1 muito bem documentado no livro <em>A limpeza \u00e9tnica da Palestina<\/em>, de Ilan Papp\u00e9, historiador israelense que teve acesso aos arquivos e p\u00f4de revelar os detalhes em toda sua extens\u00e3o, os quais desmentem, uma a uma, as in\u00fameras vers\u00f5es difundidas pelos que hoje governam o Estado de Israel. <\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o desse Estado, seu car\u00e1ter racista de enclave militar aliado do imperialismo e pot\u00eancia dominante, hoje os EUA, sua completa impossibilidade de ter uma evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica ou de aceitar uma solu\u00e7\u00e3o do tipo \u201cdois estados\u201d que fosse realmente em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, tem sua base te\u00f3rica e program\u00e1tica na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o elaborada pelo fundador do sionismo pol\u00edtico, Theodor Herzl, desde sua organiza\u00e7\u00e3o no final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes artigos, temos o objetivo de confrontar essas bases, mostrar como os marxistas da III e da IV Internacionais responderam e previram sua evolu\u00e7\u00e3o e qual programa apresentavam em contraposi\u00e7\u00e3o ao sionismo e, mais tarde, \u00e0 sua concretiza\u00e7\u00e3o, o Estado de Israel. A hist\u00f3ria dos 70 anos que se seguiram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e a realidade atual na Palestina permitem confirmar a vis\u00e3o marxista revolucion\u00e1ria e a luta contra o sionismo e o Estado, que \u00e9 sua express\u00e3o e segue aplicando a limpeza \u00e9tnica at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>A origem da quest\u00e3o judaica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Abraham de Leon foi um jovem dirigente que rompeu com o sionismo (grupo <em>Hashomer Hatzair<\/em>) e aderiu \u00e0 IV Internacional \u00e0s v\u00e9speras da II Guerra Mundial. Escreveu um texto que teve um m\u00e9rito enorme: aplicar o marxismo para entender a quest\u00e3o judaica. Frente \u00e0s explica\u00e7\u00f5es do sionismo ou da religi\u00e3o, ele atribu\u00eda a especificidade do judeu, sua localiza\u00e7\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o da qual era v\u00edtima, n\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o nem a uma ess\u00eancia gen\u00e9tica racial, mas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais com as quais se inseria na realidade econ\u00f4mica e social em que vivia. Em seu livro <em>A concep\u00e7\u00e3o materialista da quest\u00e3o judaica<\/em>, localizou quais eram as bases para entender a especificidade dos judeus. Ela estaria vinculada ao papel assumido pelos judeus nas sociedades pr\u00e9-capitalistas, de comerciantes e usur\u00e1rios, nas quais o capital ainda n\u00e3o dominava em forma plena. Sobre essa base, teria se constitu\u00eddo uma superestrutura cultural e uma religi\u00e3o adequada a esse papel. Formara-se, assim, um \u201cpovo-classe\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Embora se possa questionar a aplica\u00e7\u00e3o t\u00e3o generalizada da tese de Leon, essa localiza\u00e7\u00e3o \u00e9 chave para se entender \u2013 em particular para a Europa feudal \u2013 como os judeus tinham um papel de intermedi\u00e1rios, no com\u00e9rcio e na usura, para lidar com o dinheiro e estavam sempre na linha de confronto quando os senhores queriam colocar um bode expiat\u00f3rio para desviar a indigna\u00e7\u00e3o popular contra a mis\u00e9ria social reinante. Na Europa Oriental, em especial onde havia uma concentra\u00e7\u00e3o de judeus \u201casquenazes\u201d com esse papel, encontramos a discrimina\u00e7\u00e3o, os guetos, a grande base do antissemitismo moderno. <\/p>\n\n\n\n<p>Para comprovar, por\u00e9m, que esse n\u00e3o era um destino inelut\u00e1vel nem fruto da religi\u00e3o, houve comunidades judaicas que ganharam igualdade de direitos j\u00e1 no s\u00e9culo 19: na Europa Ocidental, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o francesa e no governo de Napole\u00e3o Bonaparte, os judeus foram emancipados, e as ideias de liberdade da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa estenderam-se a eles. Napole\u00e3o suspendeu velhas leis que os restringiam a residir em guetos, bem como leis que limitavam os direitos dos judeus \u00e0 propriedade, ao culto e a certas ocupa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>O sionismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O sionismo surgiu como um movimento baseado numa falsa teoria e numa falsa vis\u00e3o da hist\u00f3ria. Partia de um problema grave: a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus, nessa \u00e9poca espalhados por v\u00e1rios pa\u00edses, reprimidos e perseguidos, em especial na \u201cterra Yidish\u201d (onde se falava o \u00eddiche, na Europa Oriental). Contudo, atribu\u00eda todo o problema a uma incompatibilidade de conviv\u00eancia originada pela religi\u00e3o ou pela ra\u00e7a e, por isso, a tese do sionismo baseava-se em que s\u00f3 havia uma sa\u00edda para os judeus de todo o mundo: isolar-se numa na\u00e7\u00e3o-territ\u00f3rio em que fossem maioria exclusiva e permanente. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse primeiro momento, virada do s\u00e9culo XX at\u00e9 os anos 1930, os sionistas n\u00e3o conseguiram agrupar a maioria das comunidades judaicas. Tinham que disputar com os marxistas que defendiam o socialismo e o fim da discrimina\u00e7\u00e3o a todos os oprimidos e que se fortaleceram quando a revolu\u00e7\u00e3o russa derrubou o czarismo e instalou o primeiro Estado oper\u00e1rio. Sua posi\u00e7\u00e3o em defesa da imigra\u00e7\u00e3o para a Palestina n\u00e3o encontrou eco importante at\u00e9 os anos 1930 e o surgimento do nazismo, al\u00e9m do retrocesso stalinista na URSS.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>As alas do sionismo<\/strong>&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>O sionismo dito socialista era um movimento com uma apar\u00eancia popular e social, devido ao fato das primeiras camadas de judeus que imigraram para a Palestina no s\u00e9culo XX serem oriundos da Europa oriental e influenciados por movimentos socialistas e sindicais. Por\u00e9m, ao assumirem a posi\u00e7\u00e3o sionista, voltaram-se contra qualquer unidade com os trabalhadores j\u00e1 residentes l\u00e1, os palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa gera\u00e7\u00e3o produziu a primeira lideran\u00e7a do sionismo na Palestina. Dela viriam os partidos que encabe\u00e7am Israel, como o Mapai e suas rupturas, at\u00e9 conformar-se, mais tarde, o Partido Trabalhista. Eles organizaram a Histadrut, que ainda hoje se intitula central sindical, mas, na verdade, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o que foi criada para assegurar que os empres\u00e1rios judeus s\u00f3 empregassem trabalhadores judeus e para separar completamente esses \u00faltimos dos trabalhadores palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os kibutzim s\u00e3o apresentados como comunidades coletivistas, mas, na verdade, s\u00e3o col\u00f4nias a servi\u00e7o da expans\u00e3o e da defesa dos territ\u00f3rios ocupados pelos agricultores judeus, que tamb\u00e9m n\u00e3o admitem nenhuma coexist\u00eancia ou associa\u00e7\u00e3o com os agricultores \u00e1rabes. Assim, o sionismo socialista, ao inv\u00e9s de lutar por \u201cprolet\u00e1rios do mundo, uni-vos\u201d, organizou-se para dividir prolet\u00e1rios judeus e \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jabotinsky, o fundador da corrente sionista revisionista e autor de <em>A muralha de ferro<\/em>, tinha uma posi\u00e7\u00e3o racista: dizia que era imposs\u00edvel a assimila\u00e7\u00e3o entre judeus e outras ra\u00e7as devido a um problema de sangue. Para ele, a preserva\u00e7\u00e3o da integridade nacional futura do estado judeu s\u00f3 seria poss\u00edvel se tivesse pureza racial. Assim como os racistas <em>afrikaners<\/em> do sul da \u00c1frica, considerava os palestinos uma ra\u00e7a inferior com a qual era proibido mesclar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia da \u201ctransfer\u00eancia\u201d dos palestinos unia todas as alas \u2013 consenso entre a maioria dos sionistas trabalhistas (identificados como esquerda) e a minoria revisionista (direita). Os palestinos deveriam ser expulsos e suas terras, tomadas pela for\u00e7a. Contudo, para fazer isso, os sionistas deviam primeiro adquirir soberania, ou seja, um Estado. O decisivo era que as duas alas coincidissem em que o Estado deveria ser exclusivamente judeu, livre da popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe aut\u00f3ctone. Da\u00ed o slogan \u201cUma terra sem povo para um povo sem terra\u201d. Por isso, foi poss\u00edvel a laboristas e revisionistas n\u00e3o s\u00f3 conviverem, como se unirem num s\u00f3 ex\u00e9rcito e, uma vez instalado o novo Estado, sucederem-se no exerc\u00edcio do governo, sem que se possa distinguir nos tra\u00e7os fundamentais as gest\u00f5es de cada um: no que diz respeito \u00e0 limpeza \u00e9tnica, ao papel do ex\u00e9rcito e da ind\u00fastria militar e de seguran\u00e7a. Pela mesma raz\u00e3o, a partir dos anos 1980, houve v\u00e1rios governos de coaliz\u00e3o entre trabalhistas e Likud. As diferen\u00e7as sempre foram de ordem t\u00e1tica, n\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse car\u00e1ter do sionismo esteve na base da funda\u00e7\u00e3o de Israel. Ilan Papp\u00e9 demonstra de forma exaustiva como houve uma limpeza \u00e9tnica planejada. Esse plano foi elaborado bem antes e j\u00e1 tinha como meta desalojar a imensa maioria dos palestinos de sua terra. Para isso, o sionismo aproveitou-se da como\u00e7\u00e3o mundial causada pelo genoc\u00eddio nazista contra o povo judeu para impor a limpeza \u00e9tnica dos palestinos, que n\u00e3o tinham nenhuma responsabilidade no massacre dos judeus europeus. Para levar a cabo seu plano de implementar seu Estado com maioria judaica pela expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe palestina existente, os sionistas candidataram-se a formar parte ativa na defesa do sistema mundial de domina\u00e7\u00e3o e constru\u00edram alian\u00e7as com os imperialismos dominantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>Israel, um c\u00e3o de guarda do imperialismo: a depend\u00eancia profunda dos EUA desde 1948 \u00e9 cada vez maior<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do movimento sionista, com Theodor Herzl e suas tratativas com o Kaiser, o czar russo e, a partir da vit\u00f3ria dos imp\u00e9rios ingl\u00eas e franc\u00eas na I Guerra Mundial, o sionismo sempre buscou e teve sustenta\u00e7\u00e3o do imperialismo. A funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, s\u00f3 p\u00f4de realizar-se devido ao apoio do governo norte-americano. No entanto, foi a partir dos anos 1960 que a rela\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada com o imperialismo hegem\u00f4nico, os EUA, tornou-se total e decisiva. Com a consolida\u00e7\u00e3o dos EUA como a pot\u00eancia hegem\u00f4nica indiscut\u00edvel, os sionistas armaram-se para se tornarem fi\u00e9is guardi\u00f5es da ordem imperialista na regi\u00e3o e no mundo. Foi assim na interven\u00e7\u00e3o de tropas israelenses em alian\u00e7a com os imp\u00e9rios ingl\u00eas e franc\u00eas em 1956, em Suez, na guerra de 1967, no papel de persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o em todo o Oriente M\u00e9dio (como no L\u00edbano) e at\u00e9 mesmo na Am\u00e9rica Central e do Sul na d\u00e9cada de 1980-1990. Assim, Israel conseguiu se tornar um pa\u00eds armado at\u00e9 os dentes. Inclusive, \u00e9 um dos que recebem a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o dos modernos armamentos dos EUA e \u00e9 subcontratante de seus monop\u00f3lios armamentistas. Em especial a partir da Guerra dos Seis Dias, de 1967, essa associa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou a ponto tal que hoje a principal ind\u00fastria israelense \u00e9 armamentista ou vinculada a ela, como a t\u00e3o proclamada ind\u00fastria de tecnologia.<strong> <\/strong><sup data-fn=\"c4e213fb-3f31-4d02-a464-ce504c703ea7\" class=\"fn\"><a id=\"c4e213fb-3f31-4d02-a464-ce504c703ea7-link\" href=\"\/#c4e213fb-3f31-4d02-a464-ce504c703ea7\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2008, qualquer venda de armas dos EUA para outros pa\u00edses na regi\u00e3o n\u00e3o pode ser realizada a n\u00e3o ser que os governos provem que n\u00e3o ser\u00e3o usadas contra Israel. Os valores da ajuda militar dos EUA a Israel crescem a cada ano, independentemente de o governo ser democrata ou republicano. No per\u00edodo de Clinton, foi de US$ 26,7 bilh\u00f5es; no de George Bush, US$ 30 bilh\u00f5es; no de Obama, US$ 36 bilh\u00f5es. Uma por\u00e7\u00e3o importante da ajuda foi fornecida em forma de acordos de coprodu\u00e7\u00e3o, como em 2014, em que fabricantes das ind\u00fastrias militares de Israel e EUA concordaram em trabalhar juntos para desenvolver os foguetes do sistema de defesa de Israel, o Iron Dome.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de Israel na divis\u00e3o internacional do trabalho tem como centro ser um fornecedor de armamentos e instrutor mundial da seguran\u00e7a empresarial e da repress\u00e3o aos povos. Vejamos o que diz o texto da <em>Rede Internacional de Judeus Antissionistas<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>A habilidade \u00fanica de Israel em dispers\u00e3o de multid\u00f5es, vigil\u00e2ncia, desocupa\u00e7\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es militares resultou em sua posi\u00e7\u00e3o na vanguarda da ind\u00fastria global da repress\u00e3o: desenvolve, monta e comercia tecnologia que \u00e9 utilizada por ex\u00e9rcitos e for\u00e7as policiais ao redor do mundo com o prop\u00f3sito de reprimir. O papel de Israel nessa ind\u00fastria come\u00e7ou com o ex\u00e9rcito israelense, que primeiro usou suas armas contra o povo palestino na Palestina hist\u00f3rica e, depois, contra os pa\u00edses vizinhos. Nos \u00faltimos anos, conforme cresceu o interesse pela vigil\u00e2ncia e pelo controle policial entre os governos do mundo, um servi\u00e7o privado israelense p\u00f4s \u00e0 prova (no campo) instrumentos que emergiram de \u2018seguran\u00e7a dom\u00e9stica\u2019 e os exportaram de acordo com seu interesse. A ind\u00fastria inclui ag\u00eancias governamentais, o ex\u00e9rcito israelense e uma rede de corpora\u00e7\u00f5es privadas que produziram mais de US$ 2,7 bilh\u00f5es em 2008.\u201d<\/em> <sup data-fn=\"df944a9d-a160-483b-a11c-8ff898df6d43\" class=\"fn\"><a id=\"df944a9d-a160-483b-a11c-8ff898df6d43-link\" href=\"\/#df944a9d-a160-483b-a11c-8ff898df6d43\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e1rea econ\u00f4mico-pol\u00edtica especial de Israel teve e tem uma presen\u00e7a importante na Am\u00e9rica Latina. Durante o per\u00edodo das ditaduras do fim dos anos 1970 e anos 1980, Israel forneceu suas armas mais conhecidas, a metralhadora Uzi e o rifle Galil, para os regimentos da morte na Guatemala, para os Contras da Nicar\u00e1gua e para o Chile de Pinochet. Nesse per\u00edodo, Israel ganhou mais de US$ 1 bilh\u00e3o com a venda de armamento para as ditaduras da Argentina, do Chile e do Brasil. A ditadura de Pinochet, de 1973 a 1990, comprou armas de dispers\u00e3o de massas de Israel, incluindo equipamentos adequados para canh\u00f5es de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Minist\u00e9rio Israelense da Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Trabalho publicou em sua p\u00e1gina na Internet:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Israel tem mais de 300 empresas de seguran\u00e7a dom\u00e9stica que exportam uma ampla gama de produtos, servi\u00e7os e sistemas\u2026 Estas solu\u00e7\u00f5es nasceram da necessidade de sobreviv\u00eancia de Israel e amadureceram conforme a realidade das cont\u00ednuas amea\u00e7as terroristas (sic) ao pa\u00eds\u2026 Nenhum outro pa\u00eds tem um ac\u00famulo t\u00e3o grande de pol\u00edcias, soldados e vigilantes na reserva e nenhum outro pa\u00eds foi capaz de p\u00f4r a prova seus sistemas e solu\u00e7\u00f5es em tempo real.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O governo israelense e suas corpora\u00e7\u00f5es cumprem um papel importante na pol\u00edtica nacional do Brasil, na dispers\u00e3o de multid\u00f5es, nos sistemas de vigil\u00e2ncia, nas pris\u00f5es e nas fronteiras militarizadas. Junto a outras pol\u00edticas de repress\u00e3o dom\u00e9stica, o treinamento da pol\u00edcia e seu armamento s\u00e3o parte da campanha antifavela do Brasil.<\/em>\u201d <sup data-fn=\"10160a50-a328-4ebb-ab2e-ef769be7b136\" class=\"fn\"><a id=\"10160a50-a328-4ebb-ab2e-ef769be7b136-link\" href=\"\/#10160a50-a328-4ebb-ab2e-ef769be7b136\">3<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A companhia israelense Elbit, uma das implicadas na constru\u00e7\u00e3o do Muro do Apartheid na Palestina, participou no projeto e abasteceu com tecnologia de vigil\u00e2ncia o muro fronteiri\u00e7o entre EUA-M\u00e9xico, mais conhecido como o Muro da Morte. <sup data-fn=\"bd5ed35a-762a-4c8c-bd22-ae09b7bb29cb\" class=\"fn\"><a id=\"bd5ed35a-762a-4c8c-bd22-ae09b7bb29cb-link\" href=\"\/#bd5ed35a-762a-4c8c-bd22-ae09b7bb29cb\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>O que \u00e9 Israel hoje? A compara\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica do Sul&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na mesma \u00e9poca da funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, foi fundada a \u00c1frica do Sul como Estado racista, branco, apoiado nos colonos <em>afrikaners<\/em>. Era a mesma base te\u00f3rica e material do sionismo: um grupo de colonos brancos europeus instalara-se no territ\u00f3rio africano habitado por uma popula\u00e7\u00e3o negra, e imp\u00f4s um Estado baseado em leis racistas, o <em>apartheid<\/em>, excluindo a maioria da popula\u00e7\u00e3o dos direitos, buscando criar um regime permanente que garantisse uma maioria branca \u00e0s custas de tornar os negros cidad\u00e3os confinados em bantust\u00f5es (reservas nativas), sob repress\u00e3o fort\u00edssima.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1frica do Sul era muito semelhante a Israel. L\u00e1, os negros eram mantidos \u00e0 for\u00e7a em bantust\u00f5es. Em Israel, havia as chamadas leis de Regula\u00e7\u00f5es Administrativas baseadas nas leis racistas do apartheid da \u00c1frica do Sul. Em Israel, essa lei confinava os palestinos em determinados lugares, dos quais n\u00e3o podiam sair sem ter um passe, e estabelecia zonas proibidas a eles, pois estavam reservadas para a \u201cra\u00e7a\u201d dominante no Estado, os sionistas. Colocava, ainda, os palestinos \u00e0 merc\u00ea de comiss\u00e1rios com plenos poderes para prender, transferir e deportar os habitantes de \u00e1reas \u00e1rabes, tomar posse de qualquer objeto pertencente a um \u00e1rabe, fazer investidas nas casas a qualquer momento, impor restri\u00e7\u00f5es sobre emprego ou neg\u00f3cios, confiscar qualquer terreno ou casa e assim por diante. Viola\u00e7\u00f5es a essa lei seriam submetidas \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o de tribunais militares. Essa era apenas uma de muitas leis racistas aplicadas aos palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel da \u00c1frica do Sul na repress\u00e3o aos movimentos negros pela independ\u00eancia na \u00c1frica dos anos 1960-1990 tamb\u00e9m se assemelha ao papel de Israel como pol\u00edcia desde sua funda\u00e7\u00e3o: enquanto a \u00c1frica do Sul interveio diretamente em Angola, Mo\u00e7ambique, Nam\u00edbia e apoiou os racistas da ex-Rod\u00e9sia, Israel fazia e faz o mesmo na sua regi\u00e3o. Por isso, os movimentos antirracistas da \u00c1frica do Sul identificaram-se sempre com a luta dos palestinos. Houve uma colabora\u00e7\u00e3o estreita entre a burguesia branca racista sul-africana e a lideran\u00e7a sionista desde 1948. Israel cumpriu o papel de armar e treinar os regimes de apartheid da \u00c1frica do Sul e da Rod\u00e9sia. Em contraposi\u00e7\u00e3o, construiu-se uma solidariedade entre os movimentos de resist\u00eancia ao apartheid, na \u00c1frica do Sul, e na Palestina que dura at\u00e9 hoje. Da \u00c1frica do Sul, veio o exemplo para o movimento de boicote ao Estado racista, que golpeou fortemente os racistas <em>afrikaners<\/em>, e que, com o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es), transforma-se num poderoso instrumento contra o racismo sionista.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>Um enclave racista<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o era muito combatida nos anos iniciais do Estado sionista. Ainda persistia a imagem do sionismo progressista, de seus fundadores e dos kibutzim como col\u00f4nias socialistas. Esse suposto car\u00e1ter progressista ou democr\u00e1tico era contraposto pela m\u00eddia e at\u00e9 pela esquerda reformista ao car\u00e1ter supostamente atrasado dos palestinos e dos \u00e1rabes. Tamb\u00e9m contribu\u00eda para isso o mito de que Israel teria empreendido uma luta de \u201cDavi contra Golias\u201d, baseado no tamanho da popula\u00e7\u00e3o e do territ\u00f3rio. No entanto, Israel n\u00e3o parou de se expandir e de estender sua natureza racista a novos territ\u00f3rios. De trazer colonos de fora do pa\u00eds ou de \u00e1reas internas e fazer com que eles ocupassem terras palestinas. De jamais aceitar a volta dos refugiados criados pela limpeza \u00e9tnica em todos esses anos. <\/p>\n\n\n\n<p>A Nakba de 70 anos atr\u00e1s continua hoje. A natureza do Estado criado com base na concep\u00e7\u00e3o sionista impede qualquer via democr\u00e1tica, pois est\u00e1 baseada numa defini\u00e7\u00e3o estatal racista e, assim, numa maioria demogr\u00e1fica judaica que \u00e9 a \u00fanica aceita como cidad\u00e3 desse Estado. N\u00e3o h\u00e1 a menor perspectiva de que as correntes que dirigem Israel aceitem qualquer solu\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, com concess\u00f5es m\u00fatuas aos palestinos. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel aos olhos dos sionistas de todas as fac\u00e7\u00f5es \u00e9 que os palestinos aceitem sua expuls\u00e3o, e que os poucos que ficarem sejam cidad\u00e3os de segunda classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, a posse de Donald Trump nos EUA, que tem um acordo mais estreito com o governo de Netanyahu, permite que Israel deixe de lado o discurso demag\u00f3gico e apresente claramente seu projeto e o transforme em institui\u00e7\u00f5es e leis. O car\u00e1ter de Israel se desnuda, o projeto de Ben Gurion e dos fundadores torna-se expl\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p>Como express\u00e3o dessa pol\u00edtica para institucionalizar o projeto sionista at\u00e9 o fim, Netanyahu j\u00e1 havia posto em pr\u00e1tica a defini\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m como capital exclusiva em novembro de 2017. Pela resolu\u00e7\u00e3o da ONU na partilha de 1947, Jerusal\u00e9m teria de ser internacionalizada para permitir o acesso das tr\u00eas religi\u00f5es que a consideram sagrada \u2013 e ter a administra\u00e7\u00e3o dividida entre os dois estados. Trump, ent\u00e3o, decidiu anunciar a mudan\u00e7a de sua embaixada para Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o final de Israel como Estado baseado em <em>apartheid<\/em> foi votada no Knesset (parlamento israelense) no dia 19 de julho de 2018. Essa j\u00e1 era a realidade na pr\u00e1tica, mas agora est\u00e1 no papel. A mudan\u00e7a legal define Israel como um Estado exclusivamente judeu. Segundo essa lei, os assentamentos judaicos em todo o territ\u00f3rio da Palestina s\u00e3o considerados parte do Estado de Israel e devem ser defendidos. A popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe \u00e9 relegada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-cidad\u00e3, e seu idioma n\u00e3o \u00e9 reconhecido como uma das l\u00ednguas. Essa lei gerou uma rea\u00e7\u00e3o ampla dos \u00e1rabes que vivem no territ\u00f3rio palestino de 1948 (que hoje se denomina Israel) e at\u00e9 dos drusos, pois oficializa o Estado racista de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os drusos comp\u00f5em um setor minorit\u00e1rio que os sionistas atra\u00edram desde a Nakba, para separ\u00e1-los dos demais palestinos, tanto que muitos deles s\u00e3o recrutados e servem ao ex\u00e9rcito israelense, ocupando, inclusive, altos cargos oficiais. Mesmo assim, ficaram tamb\u00e9m exclu\u00eddos da cidadania. Da\u00ed seu protesto contra a lei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas palavras de uma diretora da organiza\u00e7\u00e3o de esquerda norte-americana <em>Jewish Voice for Peace<\/em> (Voz Judaica para a Paz), a rabina Alissa Wise:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Hoje, abandonamos de uma vez por todas a ilus\u00e3o de que Israel \u00e9 uma democracia. O projeto do Estado-na\u00e7\u00e3o que Israel aprovou hoje consolida Israel como um Estado de apartheid \u2013 da Cisjord\u00e2nia a Gaza, a Jerusal\u00e9m e a Haifa. Os palestinos, n\u00e3o importa onde morem, s\u00e3o controlados por um governo e por for\u00e7as armadas israelenses que os privam dos direitos e de liberdades fundamentais.<\/em>\u201d <sup data-fn=\"356b2f0b-c506-46c6-b878-7a7d470eff4a\" class=\"fn\"><a id=\"356b2f0b-c506-46c6-b878-7a7d470eff4a-link\" href=\"\/#356b2f0b-c506-46c6-b878-7a7d470eff4a\">5<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>A perda de apoio entre os intelectuais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1948, boa parte da intelectualidade de esquerda europeia da \u00e9poca apoiava o Estado de Israel. Nomes como o fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre, em 1949, comovidos pelo genoc\u00eddio dos judeus europeus pelos nazistas, tornavam sua funda\u00e7\u00e3o um avan\u00e7o da democracia e do progresso, dizendo que um Estado de Israel aut\u00f4nomo legitimava os combates do povo judeu e \u201c<em>era um dos mais importantes acontecimentos de nossa era [&#8230;] para todos n\u00f3s significa um progresso concreto em dire\u00e7\u00e3o a uma humanidade onde os homens ser\u00e3o o futuro do homem<\/em>\u201d. <sup data-fn=\"7ab93988-dfec-4dd1-9c69-e612a1c98b30\" class=\"fn\"><a id=\"7ab93988-dfec-4dd1-9c69-e612a1c98b30-link\" href=\"\/#7ab93988-dfec-4dd1-9c69-e612a1c98b30\">6<\/a><\/sup> Saudavam a liberta\u00e7\u00e3o dos sobreviventes de um povo chacinado sem se aterem ao que a funda\u00e7\u00e3o de Israel significava para os palestinos e para os pr\u00f3prios judeus que, atra\u00eddos pela ideia sionista, ca\u00edam assim numa armadilha.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>O BDS<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Hoje existe um desencanto crescente, pois a realidade golpeou os mitos divulgados pelo sionismo e pela m\u00eddia imperialista. Em vez da ideia de 1948-1949, do resgate de um povo perseguido, aparece a imagem real de um estado militarista com l\u00edderes racistas, praticando massacres, matando crian\u00e7as etc. Existe uma campanha ampla e democr\u00e1tica de boicote a Israel que come\u00e7ou em 2005, a partir de uma frente de organiza\u00e7\u00f5es sindicais e democr\u00e1ticas palestinas e inspirada no boicote contra o regime de apartheid da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>A campanha tem como um dos centros o reconhecimento do direito de retorno aos palestinos expulsos de suas terras. J\u00e1 atingiu alguns sucessos, como o grande f\u00edsico Stephen Hawkings, que se recusou a comparecer a um evento em Israel depois dos massacres de Gaza. Teve a ades\u00e3o de artistas como os atores Javier Barden, Danny Glover, Penelope Cruz, o diretor Pedro Almod\u00f3var, os m\u00fasicos Roger Waters, Santana e muitos outros. No futebol, a sele\u00e7\u00e3o argentina de 2018 acabou desistindo de jogar uma partida em Israel diante da press\u00e3o dos ativistas do BDS. O chamado ao boicote cumpre um papel muito importante, como o foi na \u00c1frica do Sul do apartheid, e come\u00e7ou a preocupar seriamente Israel e o stablishment sionista. J\u00e1 existe um dispositivo de espionagem do governo sionista articulado com seus representantes nos pa\u00edses para tentar criminalizar as a\u00e7\u00f5es de boicote, acusando-as de antissemitas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>A perda de apoio de Israel na comunidade judaica em todo o mundo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Israel conseguiu, durante muitos anos, apoiar-se, por um lado, na principal pot\u00eancia imperialista, os Estados Unidos, e, por outro, na comunidade judaica, em especial na burguesia que sustenta o projeto sionista com o apoio financeiro e pol\u00edtico-midi\u00e1tico. De todo o mundo, a principal fonte de sustento \u00e9 a col\u00f4nia judaica norte-americana, por sua for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Calcula-se em tr\u00eas milh\u00f5es o n\u00famero de judeus nos EUA. Pesquisas recentes mostram um afastamento crescente dos jovens de origem judaica de Israel, em especial por conta das pr\u00e1ticas racistas expl\u00edcitas de massacres de civis desarmados em Gaza. Diante desses ataques, a atriz israelense Natalie Portman recusou-se a receber um pr\u00eamio israelense.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Israel vem perdendo terreno e sua imagem desgasta-se cada vez mais com a ruptura de judeus com o sionismo e o surgimento de grupos cuja a\u00e7\u00e3o dirige-se contra os abusos de Israel. Existe uma s\u00e9rie deles, como a rede Ijan. O grupo <em>Jewish Voices for Peace<\/em>, que sempre denuncia os abusos e aderiu ao BDS, alega ter mais de 60 mil filiados e 250 mil seguidores. Ao se colocar a favor do direito de retorno dos palestinos, desafia diretamente um dos postulados do sionismo: n\u00e3o permitir a volta dos palestinos \u00e0s suas terras, o que geraria uma maioria de \u00e1rabes em rela\u00e7\u00e3o aos judeus na Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dirigentes do <em>establishment<\/em> sionista est\u00e3o alarmados. Ronald Lauder, presidente do Congresso Judaico Mundial, figura importante do lobby sionista, declarou-se preocupado com a perda de legitimidade de Israel e a dificuldade de seus apoiadores judeus tradicionais nos EUA e em outros locais do Ocidente em defenderem suas a\u00e7\u00f5es, o que poderia \u201c<em>levar a uma divis\u00e3o entre o Estado judeu e seus apoiadores<\/em>\u201d. <sup data-fn=\"7a8deb6e-ba07-4aa9-829e-78ff7efa69c0\" class=\"fn\"><a id=\"7a8deb6e-ba07-4aa9-829e-78ff7efa69c0-link\" href=\"\/#7a8deb6e-ba07-4aa9-829e-78ff7efa69c0\">7<\/a><\/sup> Entre suas preocupa\u00e7\u00f5es, a maior \u00e9 com a juventude judaica que \u201c<em>n\u00e3o quer mais se associar a uma na\u00e7\u00e3o que discrimina judeus n\u00e3o ortodoxos, minorias n\u00e3o judaicas e a comunidade LGBT<\/em>\u201d e at\u00e9 mesmo quer \u201c<em>deixar de combater o BDS, deixar de sustentar Israel em Washington\u201d <\/em>e deixar de garantir a <em>\u201cretaguarda estrat\u00e9gica que Israel tanto necessita<\/em>\u201d. Isso n\u00e3o modifica a rela\u00e7\u00e3o estreita entre as altas esferas do Estado norte-americano, seu Congresso e a for\u00e7a do lobby sionista, como o AIPAC, <sup data-fn=\"6aa39637-fce5-415c-b054-04846fe25084\" class=\"fn\"><a id=\"6aa39637-fce5-415c-b054-04846fe25084-link\" href=\"\/#6aa39637-fce5-415c-b054-04846fe25084\">8<\/a><\/sup> mas mostra sua perda de legitimidade crescente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra fonte de desprest\u00edgio \u00e9 a a\u00e7\u00e3o cada vez mais repressiva do Estado de Israel contra os ativistas de direitos humanos e contra os dissidentes judeus de dentro e de fora. Nas \u00faltimas semanas, aumentaram as medidas contra advogados, como o diretor da <em>Human Rights Watch<\/em> para Israel e Palestina, Omar Shakir, um norte-americano de origem palestina que foi impedido de permanecer em seu escrit\u00f3rio em Ramallah, na Cisjord\u00e2nia, e teve de deixar o pa\u00eds. Assim como os abusos na entrada do aeroporto contra dissidentes e ativistas de direitos humanos e at\u00e9 jornalistas judeus liberais que se tornam suspeitos por fazerem cr\u00edticas, como Peter Beinart, da rede de TV CNN. Cem advogados ligados aos direitos humanos fizeram uma carta protestando contra esses abusos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"c4e213fb-3f31-4d02-a464-ce504c703ea7\">Dados de J. Nitzan e S. Bichler, \u201cThe global political Economy of Israel\u201d, cap. 5: The Weapondollar-Petrodollar Coalition. <a href=\"#c4e213fb-3f31-4d02-a464-ce504c703ea7-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"df944a9d-a160-483b-a11c-8ff898df6d43\">Extra\u00eddo do site da Ijan \u2013 Rede Internacional de Judeus Antissionistas, \u201cEl Rol de Israel en la Represi\u00f3n Mundial\u201d, publicado em fevereiro de 2013. <a href=\"#df944a9d-a160-483b-a11c-8ff898df6d43-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"10160a50-a328-4ebb-ab2e-ef769be7b136\">Idem <a href=\"#10160a50-a328-4ebb-ab2e-ef769be7b136-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"bd5ed35a-762a-4c8c-bd22-ae09b7bb29cb\">Idem <a href=\"#bd5ed35a-762a-4c8c-bd22-ae09b7bb29cb-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 4\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"356b2f0b-c506-46c6-b878-7a7d470eff4a\">Extra\u00eddo do site da Jewish Voice for Peace. Declara\u00e7\u00e3o publicada em 19 de julho de 2018. <a href=\"#356b2f0b-c506-46c6-b878-7a7d470eff4a-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 5\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7ab93988-dfec-4dd1-9c69-e612a1c98b30\">Extra\u00eddo do texto \u201cO nascimento de Israel\u201d, de Jean-Paul Sartre, publicado em junho de 1949. <a href=\"#7ab93988-dfec-4dd1-9c69-e612a1c98b30-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 6\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7a8deb6e-ba07-4aa9-829e-78ff7efa69c0\">Haaretz, 8\/8\/2018. <a href=\"#7a8deb6e-ba07-4aa9-829e-78ff7efa69c0-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 7\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6aa39637-fce5-415c-b054-04846fe25084\">Comit\u00ea de Assuntos P\u00fablicos EUA-Israel, fundado na d\u00e9cada de 1950, com mais de cem mil membros ativos. <a href=\"#6aa39637-fce5-415c-b054-04846fe25084-link\" aria-label=\"Saltar a la referencia de la nota 8\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p>Publicado em junho de 2018 na revista <em>Marxismo Vivo<\/em> N. 12.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 70 anos da proclama\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, que para os palestinos significou a Nakba (cat\u00e1strofe), \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma discuss\u00e3o te\u00f3rica e program\u00e1tica sobre as vis\u00f5es fundamentais relacionadas. Por: Jos\u00e9 Welmowicki Come\u00e7amos pelos fundamentos do sionismo, a corrente pol\u00edtica que produziu essa cat\u00e1strofe \u2013 a cria\u00e7\u00e3o de um Estado fundado sob o pretexto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Dados de J. Nitzan e S. 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