{"id":8859,"date":"2025-05-28T17:04:35","date_gmt":"2025-05-28T20:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/perspectivamarxista.com\/?p=8859"},"modified":"2025-05-28T17:04:35","modified_gmt":"2025-05-28T20:04:35","slug":"contribuicao-a-critica-das-diferentes-interpretacoes-na-esquerda-sobre-a-revolucao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspectivamarxista.org\/index.php\/2025\/05\/28\/contribuicao-a-critica-das-diferentes-interpretacoes-na-esquerda-sobre-a-revolucao-brasileira\/","title":{"rendered":"Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica das diferentes interpreta\u00e7\u00f5es na esquerda sobre a revolu\u00e7\u00e3o brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>Este artigo \u00e9 fruto da discuss\u00e3o realizada no semin\u00e1rio do PSTU, cujo tema foi \u201cTeoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e sua aplica\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d. Por que \u00e9 importante a discuss\u00e3o sobre o PCB, a Cepal e os te\u00f3ricos que os criticaram? Porque a interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil moderno que a esquerda em geral definiu para seus projetos vem dessa \u00e9poca, que marca as primeiras vis\u00f5es de conjunto sobre o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: <strong>Jos\u00e9 Welmowicki<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A evolu\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es sobre o Brasil desde os anos 1930&nbsp;<\/h6>\n\n\n\n<p>A primeira tentativa de interpreta\u00e7\u00e3o da esquerda foi a do PCB. Aqui, cabe explicar o contexto internacional em que foi elaborada. Naquele momento, fins da d\u00e9cada de 1920, come\u00e7o dos anos 1930, os partidos comunistas, j\u00e1 dominados pelo stalinismo, eram hegem\u00f4nicos no movimento oper\u00e1rio do mundo inteiro. No Brasil, entre 1930 e 1964, o PCB foi amplamente majorit\u00e1rio no movimento oper\u00e1rio e na intelectualidade de esquerda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o que eles tinham do Brasil derivava de uma teoria que a pr\u00f3pria Internacional Comunista elaborara como justificativa para sua desastrosa pol\u00edtica para a revolu\u00e7\u00e3o chinesa de 1926-28, no marco da afirma\u00e7\u00e3o do socialismo num s\u00f3 pa\u00eds e do combate \u00e0 teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente de Trotsky. A teoria stalinista deveria se aplicar a todos os pa\u00edses atrasados, classificando-os como feudais ou semifeudais, para os quais n\u00e3o estaria colocada a revolu\u00e7\u00e3o socialista, e sim a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa. A partir dessa revolu\u00e7\u00e3o, abrir-se-ia uma etapa de desenvolvimento nacional em que, a\u00ed sim, estaria colocada a luta pelo socialismo. No VI Congresso da III Internacional de 1928, essa teoria foi aceita como v\u00e1lida para todo o mundo colonial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coerente com essa teoria, o PCB classificava o Brasil como feudal, tirando como consequ\u00eancia program\u00e1tica a necessidade de&nbsp; uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa. Isso gerou a tese de que caberia \u00e0 burguesia nacional, em alian\u00e7a com o proletariado e o campesinato, cumprir as tarefas democr\u00e1ticas, acabar com o latif\u00fandio e libertar o Brasil da domina\u00e7\u00e3o imperialista. S\u00f3 a partir da\u00ed estariam colocados o desenvolvimento capitalista e a prepara\u00e7\u00e3o da luta pelo socialismo. Essa compreens\u00e3o esteve em todas as resolu\u00e7\u00f5es desde os anos 1930 (e foi criticada duramente pela Liga Comunista, a primeira organiza\u00e7\u00e3o trotskista brasileira) e continuou dominando a vis\u00e3o do PCB at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, como mostra a resolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do V Congresso, de 1960:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>[&#8230;] Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, entretanto, o Brasil tem seu desenvolvimento entravado pela explora\u00e7\u00e3o do capital imperialista internacional e pelo monop\u00f3lio da propriedade da terra em m\u00e3os da classe dos latifundi\u00e1rios. As tarefas fundamentais que se colocam hoje diante do povo brasileiro s\u00e3o a conquista da emancipa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds do dom\u00ednio imperialista e a elimina\u00e7\u00e3o da estrutura agr\u00e1ria atrasada, assim como o estabelecimento de amplas liberdades democr\u00e1ticas e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das massas populares. Os comunistas empenham-se na realiza\u00e7\u00e3o dessas transforma\u00e7\u00f5es, ao lado de todas as for\u00e7as patri\u00f3ticas e progressistas, certos de que elas constituem uma etapa pr\u00e9via e necess\u00e1ria no caminho para o socialismo [&#8230;] em sua etapa atual, a revolu\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 anti-imperialista e antifeudal.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Houve outra corrente influente entre 1945 at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, que desenvolveu uma compreens\u00e3o que se aproximava da vis\u00e3o do PCB. Tratava-se de uma corrente articulada pela Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal), a comiss\u00e3o da ONU dedicada a estudar a economia na Am\u00e9rica Latina, que serviu como institui\u00e7\u00e3o para uma serie de pensadores que tentavam entender nossa realidade a partir da dicotomia desenvolvimento\/subdesenvolvimento. Segundo eles, o problema de pa\u00edses como o Brasil seria que seu desenvolvimento econ\u00f4mico tinha ficado retardado por uma s\u00e9rie de barreiras por sua localiza\u00e7\u00e3o subordinada entre as na\u00e7\u00f5es e pelo tipo de estrutura produtiva, em que a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e de mat\u00e9rias-primas eram o centro, ao contr\u00e1rio das na\u00e7\u00f5es mais desenvolvidas, que tinham como centro a ind\u00fastria. Dessa tese, decorria a proposta de fomentar a industrializa\u00e7\u00e3o como superadora do subdesenvolvimento. Essa corrente foi chamada de desenvolvimentista ou nacional-desenvolvimentista, pois pregava a luta pelo desenvolvimento aut\u00f4nomo da na\u00e7\u00e3o. Para garantir trilhar esse caminho, dever-se-ia fazer uma alian\u00e7a entre a burguesia nacional, os trabalhadores e os camponeses. Celso Furtado era um dos principais te\u00f3ricos da Cepal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1930, j\u00e1 est\u00e1vamos na \u00e9poca imperialista. A partir da \u00e9poca imperialista, a economia j\u00e1 \u00e9 mundial. N\u00e3o h\u00e1 mais como separar nenhuma sociedade, nenhuma economia de um pa\u00eds do resto do mundo. O mesmo vale para a luta de classes: \u00e9 um processo internacional. J\u00e1 n\u00e3o era mais poss\u00edvel um desenvolvimento capitalista aut\u00f4nomo sob o imperialismo. S\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o socialista poderia emancipar o pa\u00eds. Como explica Trotsky em <em>A Revolu\u00e7\u00e3o permanente<\/em>, \u201c<em>com a cria\u00e7\u00e3o do mercado mundial, da divis\u00e3o mundial do trabalho e das for\u00e7as produtivas mundiais, o capitalismo preparou o conjunto da economia mundial para a reconstru\u00e7\u00e3o socialista<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para um desenvolvimento aut\u00f4nomo que rompesse com o imperialismo mantendo-se capitalista. Ao longo do s\u00e9culo 20, o Brasil permaneceu uma semicol\u00f4nia. Primeiramente, da Inglaterra e, depois, dos EUA, como \u00e9 at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o golpe de 1964, houve uma crise muito forte no PCB e nas for\u00e7as que se apoiavam nas suas elabora\u00e7\u00f5es, assim como na vis\u00e3o cepalina, muito presente no PTB de Jo\u00e3o Goulart e Leonel Brizola. A capitula\u00e7\u00e3o do stalinismo ao governo Goulart e a derrota frente ao golpe militar geraram uma serie de dissid\u00eancias e surgiu uma s\u00e9rie de cr\u00edticas \u00e0s teorias que haviam embasado a pr\u00e1tica de colabora\u00e7\u00e3o de classes da esquerda no per\u00edodo de 1945 a 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma s\u00e9rie de autores ajudou a construir uma vis\u00e3o cr\u00edtica do PCB e da Cepal nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980. Estudamos e valorizamos muito as elabora\u00e7\u00f5es que existem. Mas, ao utilizarmos como marco te\u00f3rico a revolu\u00e7\u00e3o permanente, vemos importantes limita\u00e7\u00f5es e equ\u00edvocos em suas elabora\u00e7\u00f5es. At\u00e9 hoje, n\u00e3o foram elaboradas ou publicadas vis\u00f5es cr\u00edticas e dial\u00e9ticas sobre elas. H\u00e1, por exemplo, uma tend\u00eancia a reivindicar, de maneira acr\u00edtica e sem apontar seus limites, Caio Prado Junior, por ele expressar uma vis\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do PCB ou a reivindicar acriticamente Florestan Fernandes e outros autores, como Chico de Oliveira. Nossa proposta aqui \u00e9 analisar suas interpreta\u00e7\u00f5es com um olhar cr\u00edtico, valorizando o que na nossa maneira de ver s\u00e3o importantes acertos, mas tamb\u00e9m apontar seus limites e erros.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A contribui\u00e7\u00e3o e nossa cr\u00edtica a Caio Prado Junior<\/h6>\n\n\n\n<p>Ronald Leon j\u00e1 analisou, na <em>Marxismo Vivo<\/em> n\u00ba 9, os avan\u00e7os e os limites de Caio Prado. Ele teve grande import\u00e2ncia na an\u00e1lise do Brasil e contribuiu para destruir o velho argumento de seu partido, o PCB, sobre a suposta forma\u00e7\u00e3o feudal e tamb\u00e9m por mostrar a rela\u00e7\u00e3o entre a burguesia nacional e o imperialismo. Nessa contribui\u00e7\u00e3o, entretanto, persistiam grandes contradi\u00e7\u00f5es. Caio foi militante comunista a partir de 1931 e por toda sua vida membro do PCB e adepto da URSS e das teorias do stalinismo. Apoiou a pol\u00edtica internacional de Stalin e a orienta\u00e7\u00e3o da burocracia russa p\u00f3s-morte de Stalin, com Nikita Kruschev e a linha da coexist\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo.&nbsp; Caio Prado Jr. n\u00e3o tinha diferen\u00e7as com a estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes aplicada pelo stalinismo em escala mundial &#8211;&nbsp; e no Brasil tamb\u00e9m \u2013 e o demonstrou em sua participa\u00e7\u00e3o como parlamentar no p\u00f3s-guerra e intelectual de destaque nos anos 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso esteve na raiz de uma incoer\u00eancia entre a an\u00e1lise que fazia da forma\u00e7\u00e3o do Brasil e o programa. Apesar de no texto <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> dizer que o Brasil j\u00e1 era capitalista em suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o no campo e na cidade e tamb\u00e9m afirmar o car\u00e1ter submisso da burguesia brasileira em sua rela\u00e7\u00e3o com o imperialismo, sua perspectiva era a revolu\u00e7\u00e3o que tiraria o Brasil do atraso colonial, abrindo passo ao desenvolvimento nacional: \u201c<em>A revolu\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 marcada pelo processo geral que vai do Brasil col\u00f4nia de ontem ao Brasil na\u00e7\u00e3o de amanh\u00e3, e que se trata hoje de levar a cabo. Tarefa essa que constitui a ess\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, mantinha-se nos marcos da proposta de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa, embora sem acreditar na necessidade de superar supostos restos feudais, mas sim os aspectos coloniais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora analise o car\u00e1ter submisso da burguesia brasileira, ele n\u00e3o define quem \u00e9 a classe capaz de assumir o projeto de desenvolvimento nacional aut\u00f4nomo, o Brasil na\u00e7\u00e3o. Mas o fato de n\u00e3o definir coloca-nos uma hip\u00f3tese impl\u00edcita e, em alguns de seus textos program\u00e1ticos, ele fala em projeto nacional com a iniciativa privada. Qual classe social tem a iniciativa privada? A burguesia. Contraditoriamente, ele levanta a hip\u00f3tese da burguesia nacional cumprir a tarefa de liberta\u00e7\u00e3o nacional, que ele mesmo analisa como associada ao imperialismo. Essa contradi\u00e7\u00e3o em seus textos tem a ver com a n\u00e3o supera\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e com uma concep\u00e7\u00e3o mais geral que n\u00e3o rompeu com as teses internacionais do stalinismo e, portanto, opostas \u00e0 teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Para essa teoria, a sa\u00edda para a supera\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter colonial ou semicolonial do capitalismo brasileiro \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada pela classe oper\u00e1ria que, ao tomar o poder, impor\u00e1 a ditadura do proletariado que cumprir\u00e1 as tarefas democr\u00e1ticas das quais a principal \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o nacional do imperialismo, mas essa revolu\u00e7\u00e3o se far\u00e1 contra a burguesia nacional.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A contribui\u00e7\u00e3o e a cr\u00edtica a Chico de Oliveira<\/h6>\n\n\n\n<p>Francisco (Chico) de Oliveira chegou a trabalhar com Celso Furtado na Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) durante o per\u00edodo de 1959 a 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a Cepal, havia um Brasil moderno e um Brasil arcaico. Para eles, o Brasil arcaico, que era associado ao campo, ao latif\u00fandio, impedia o desenvolvimento do pa\u00eds. Portanto, ele considerava que se o Brasil se industrializasse, iria se desenvolver, e superaria esse atraso se o Estado e um setor progressista da burguesia aceitassem essa proposta. Por isso, Celso Furtado criou e dirigiu a Sudene nos governos Juscelino Kubitschek e Jo\u00e3o Goulart, do qual foi ministro do Planejamento, com o objetivo de levar o desenvolvimento ao Nordeste atrasado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chico de Oliveira, no <em>Cr\u00edtica \u00e0 raz\u00e3o dualista<\/em>, faz uma cr\u00edtica frontal a essa ideia de \u201cdois Brasis\u201d e demonstrou que h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o entre ambos, porque esse Brasil atrasado \u00e9 fundamental para o Brasil moderno, essa agricultura atrasada, que vende barato os produtos aliment\u00edcios, e esse tipo de propriedade s\u00e3o funcionais para o moderno, inclusive para as ind\u00fastrias estrangeiras. N\u00e3o h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre nacional e estrangeiro nisso e n\u00e3o h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o decisiva entre a burguesia industrial e os latifundi\u00e1rios do campo atrasado. Ele desmistifica a ideia de um desenvolvimentismo do Brasil a partir do avan\u00e7o da ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Chico de Oliveira, que teve o m\u00e9rito de demonstrar que de-positar as esperan\u00e7as num desenvolvimento industrial que pudesse superar o atraso do latif\u00fandio era um projeto sem fundamento que levaria a fracassos seguidos, como os da alian\u00e7a populista e do governo Jo\u00e3o Goulart, caiu num erro ao analisar os caminhos alternativos poss\u00edveis: ele tamb\u00e9m nutriu esperan\u00e7as num caminho end\u00f3geno ao n\u00e3o dar a devida import\u00e2ncia ao papel do Brasil no mundo, que, mesmo havendo um processo de industrializa\u00e7\u00e3o, nunca deixou de ser uma semicol\u00f4nia. Na \u00e9poca imperialista, j\u00e1 n\u00e3o existe essa possibilidade. Ele parte de um fato real: na d\u00e9cada de 1930, entre as duas guerras mundiais, em particular ap\u00f3s a crise de 1929, houve um momento, o per\u00edodo de passagem de semicol\u00f4nia inglesa para semicol\u00f4nia norte-americana, que permite \u00e0s burguesias latino-americanas, entre as quais a brasileira, apoiarem-se nos seus proletariados para conseguir algumas concess\u00f5es do imperialismo. <\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky analisa esse processo em seus textos sobre a Am\u00e9rica Latina escritos no M\u00e9xico. Esse processo, no entanto, n\u00e3o significou uma via aut\u00f4noma ou independente e, quando o imperialismo norte-americano voltou a impor sua hegemonia na regi\u00e3o, recortou as concess\u00f5es. Para isso, recorreu a press\u00f5es duras e inclusive a golpes militares quando havia alguma amea\u00e7a maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, ele acerta em mostrar a rela\u00e7\u00e3o de funcionalidade entre os setores atrasado e moderno, inclusive cita a teoria do desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky, mas interpreta o crescimento da ind\u00fastria como um processo end\u00f3geno, sem integr\u00e1-lo de forma submetida \u00e0 economia mundial. Que sem uma revolu\u00e7\u00e3o socialista era imposs\u00edvel sequer manter esses processos. O processo posterior no Brasil comprovou esse limite dado pela submiss\u00e3o da burguesia ao imperialismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No terceiro governo de Get\u00falio Vargas, houve um processo de ascenso oper\u00e1rio que preocupou a burguesia e o imperialismo, e a maioria da burguesia nacional passou a articular um golpe. Get\u00falio suicida-se para evitar o golpe em prepara\u00e7\u00e3o e, depois de uma s\u00e9rie de crises, Juscelino Kubitschek (PSD) \u00e9 eleito com o apoio do PTB e do PCB, que permitiram desviar o ascenso e ter um per\u00edodo de relativa estabilidade. Juscelino implementou o modelo de industrializa\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de bens dur\u00e1veis com a participa\u00e7\u00e3o das empresas imperialistas e o Estado como garantidor da infraestrutura e de determinados insumos b\u00e1sicos, como a eletricidade e o a\u00e7o. Em 1955, j\u00e1 era o modelo que posteriormente a ditadura viria a intensificar, com a entrada do imperialismo na \u00e1rea produtiva industrial. Aplicou-se o famoso trip\u00e9: burguesia imperialista no setor mais avan\u00e7ado, burguesia industrial brasileira nos setores de menos tecnologia &#8211; aproveitando a m\u00e3o de obra migrante (em especial nordestina) para terem uma taxa de lucro alt\u00edssima &#8211; e o Estado entrando com toda a parte estrutural. Nenhum governo posterior \u00e0 ditadura modificou esse modelo, ao qual a burguesia nacional adaptou-se. Tanto Fernando Collor, quanto FHC, que foram seus grandes entusiastas, e tamb\u00e9m os governos do PT, que inventaram o nome de neodesenvolvimentismo, aplicaram-no.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o de Chico de Oliveira, ao ver centralmente uma din\u00e2mica interna para explicar o processo, levou-o a pensar que n\u00e3o era imperioso o caminho revolucion\u00e1rio e a admitir um caminho reformista para o desenvolvimento nacional. Por isso, mais adiante, nos anos 1990, defendeu um <em>welfare state<\/em> brasileiro para alcan\u00e7ar uma melhor distribui\u00e7\u00e3o de renda, e viu no PT o sujeito pol\u00edtico para instal\u00e1-lo. Em <em>Os Direitos do antivalor<\/em> (1992), ele prop\u00f5e uma s\u00e9rie de reformas emulando o <em>welfare state<\/em> europeu. Mas aconteceu justamente o oposto: um ataque permanente aos poucos direitos sociais conquistados a duras penas. Como Chico n\u00e3o via essa contradi\u00e7\u00e3o estrutural, pensava ser isso poss\u00edvel, a partir de uma decis\u00e3o interna de um sujeito pol\u00edtico decidido a dar passos nessa dire\u00e7\u00e3o de reformas substanciais no marco do capitalismo brasileiro. Uma vis\u00e3o reformista que o pr\u00f3prio PT decepcionou no campo dos direitos sociais, e fez Chico romper com esse partido, depois de militar nele por anos, quando Lula chegou ao governo e avan\u00e7ou na implementa\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">A contribui\u00e7\u00e3o de Florestan Fernandes e nossa cr\u00edtica<\/h6>\n\n\n\n<p>Florestan Fernandes tem o grande m\u00e9rito de ter caracterizado a incapacidade cong\u00eanita da burguesia nacional de lutar pela revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica burguesa no Brasil. Em seu texto <em>A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil<\/em>, aponta isso em v\u00e1rios momentos. Ele tamb\u00e9m recusa a ideia da forma\u00e7\u00e3o feudal do pa\u00eds presente no PCB e aponta o car\u00e1ter subordinado do capitalismo e a submiss\u00e3o da burguesia nacional em rela\u00e7\u00e3o ao imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, quando se constitui, consolida-se e tal economia competitiva se expande, tende a redefinir e a fortalecer os liames de depend\u00eancia, tornando imposs\u00edvel o desenvolvimento capitalista aut\u00f4nomo e autossustentado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Florestan afirma que a burguesia \u00e9 incapaz e, mais ainda, que ela necessita da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, e trata de mostrar que isso \u00e9 estrutural. Em <em>O que \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, de 1981, ele afirma:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Os \u00faltimos 25 anos compreendem uma vasta transfer\u00eancia de capitais, tecnologia avan\u00e7ada e quadros empresariais t\u00e9cnicos e dirigentes, pela qual a economia e a sociedade brasileira foram multinacionalizadas atrav\u00e9s de uma coopera\u00e7\u00e3o organizada entre capitalistas, militares burocratas brasileiros com a burguesia mundial e seus centros de poder. [&#8230;] o que interessa ressaltar nesse quadro? Primeiro, a rela\u00e7\u00e3o siamesa entre a burguesia nacional e a burguesia externa, que n\u00e3o s\u00e3o mais divididas e opostas entre si quando o capitalismo atinge o seu apogeu imperialista.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a contradi\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o consegue superar \u2013 como outros autores \u2013 \u00e9 sobre a atualidade e a afirma\u00e7\u00e3o do sujeito social da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Para ele, a classe oper\u00e1ria brasileira arrasta um atraso cultural t\u00e3o profundo que n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es por um longo per\u00edodo de se colocar como cabe\u00e7a de uma revolu\u00e7\u00e3o. Por isso, chega a prever um processo longo de amadurecimento tomando a tarefa da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em si at\u00e9 que se possa colocar no horizonte a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, mesmo que ela j\u00e1 esteja colocada em escala internacional. Ele localiza esse atraso na forma\u00e7\u00e3o do proletariado ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>De um lado, fica patente que o negro ainda \u00e9 o fulcro pelo qual se poder\u00e1 medir a revolu\u00e7\u00e3o social que se desencadeou com a Aboli\u00e7\u00e3o e com a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica (e que ainda n\u00e3o se concluiu). De outro, \u00e9 igualmente claro que, no Brasil, as elites n\u00e3o concedem espa\u00e7o para as camadas populares e para as classes subalternas de motu pr\u00f3prio (de livre e espont\u00e2nea vontade). [&#8230;] Cabe \u00e0s classes subalternas e \u00e0s camadas populares revitalizar a Rep\u00fablica democr\u00e1tica, primeiro para ajudarem a completar, em seguida, o ciclo da revolu\u00e7\u00e3o social interrompida e, por fim, colocarem o Brasil no fluxo das revolu\u00e7\u00f5es socialistas do s\u00e9culo XX.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento para afirmar que a classe oper\u00e1ria n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de encabe\u00e7ar esse processo \u00e9 o atraso cultural, a falta de um per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o faz a compara\u00e7\u00e3o que deveria com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Afinal, se, como ele enfatiza, no Brasil havia a escravid\u00e3o recente, que era um fator imenso de atraso, a classe oper\u00e1ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa tamb\u00e9m vinha do campo, dos servos rec\u00e9m-libertados, tamb\u00e9m era jovem, tamb\u00e9m tinha baixo n\u00edvel cultural, mas devido ao seu papel objetivo na sociedade russa e \u00e0 exist\u00eancia do Partido Bolchevique, cumpriu um papel revolucion\u00e1rio em outubro de 1917.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento d\u00e9bil em Florestan \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o direta entre classe oper\u00e1ria e suas dire\u00e7\u00f5es, como se essas refletissem imediatamente aquela. N\u00e3o via a quest\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o como um problema central para impedir o desenvolvimento da classe em dire\u00e7\u00e3o a ser uma alternativa de poder:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>Numa sociedade de classes, se a classe trabalhadora n\u00e3o amadurece politicamente, se n\u00e3o se desenvolve como classe independente, o intelectual que se identifica com ela n\u00e3o pode ser instrumental para nada. A menos que ele queira ser instrumental para as suas inquieta\u00e7\u00f5es, para o seu n\u00edvel de vida, para um trabalho pessoal criador. Mas, se voc\u00ea vai al\u00e9m disso, voc\u00ea se esborracha. O que aconteceu comigo foi que eu me esborrachei e da\u00ed o fato de que, at\u00e9 hoje, n\u00e3o me conformo com o nosso padr\u00e3o de radicalismo e de socialismo.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para resumir essa primeira s\u00edntese sobre alguns dos mais importantes int\u00e9rpretes do Brasil, \u00e9 importante ressaltar que eles fizeram aportes muito importantes, mas parciais, para a supera\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o do PCB e da Cepal. Valorizamos muito essas elabora\u00e7\u00f5es. Mas todos tinham a limita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pensar a partir da revolu\u00e7\u00e3o permanente e, por essa via, n\u00e3o conseguiam apresentar uma alternativa, mantendo um ceticismo sobre o papel da classe oper\u00e1ria como sujeito social.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe agora basear-se na teoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente para fazer avan\u00e7ar a elabora\u00e7\u00e3o marxista sobre nossa forma\u00e7\u00e3o social e a resposta que necessitamos: o programa revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado em outubro de 2017 na revista <em>Marxismo Vivo<\/em> N. 10&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo \u00e9 fruto da discuss\u00e3o realizada no semin\u00e1rio do PSTU, cujo tema foi \u201cTeoria da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente e sua aplica\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d. Por que \u00e9 importante a discuss\u00e3o sobre o PCB, a Cepal e os te\u00f3ricos que os criticaram? 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